Marco Bellocchio é um dos cineastas italianos mais velhos em actividade, mas pouco estreado por cá. A sua mais recente obra conta um episódio da História italiana que apenas foi conhecido recentemente: a suposta primeira esposa de Benito Mussolini que o ditador escondeu durante anos.

Pedro Miguel Fernandes - Série BBellocchio faz parte da mesma geração de Bernardo Bertolucci, que foi seu colega na escola de Cinema nos anos 1960, e conta com uma filmografia de mais de 30 títulos no currículo. O mais recente é «Vencer», a trágica história de Ida Dalser, uma mulher que afirmou até à sua morte ser a primeira esposa de Mussolini e a mãe do primogénito do ditador italiano.
Iniciando como uma história de amor, com Ida completamente apaixonada por Benito, cedo nos apercebemos que aquele amor não vai acabar bem. E os problemas aumentam assim que o antigo sindicalista chega ao poder e já com uma outra mulher, mais à imagem do ideal fascista, acaba por desprezar a sua antiga esposa.
Vencer«Vencer» centra-se sobretudo na figura de Ida Dalser, uma excelente interpretação de Giovanna Mezzogiorno, e nos seus esforços para convencer os que a rodeiam de quem verdadeiramente é, assim como quem é o seu filho. Ambos acabam por ir parar a um manicómio, depois de fazerem vários desafios públicos e não acatarem a decisão de esquecerem a sua ligação a Mussolini.
Paralelamente, esta obra dá-nos a ver a História de Itália no início do conturbado século XX, ao acompanhar o percurso de Mussolini: vemo-lo em acções sindicalistas, a defender a entrada de Itália na I Grande Guerra e a combater no conflito, a participar numa exposição do Movimento Futurista e a sua chegada ao poder. Neste último caso Bellocchio optou por recorrer a imagens de arquivo de alguns dos discursos do ditador, para reforçar o poder da imagem naquela época.
Há quem diga que este retrato poderia ser aplicado ao actual primeiro-ministro italiano, Sílvio Berlusconi, que também utilizou os Media para chegar ao poder, mas o realizador em várias entrevistas já o negou. Contudo há aspectos que coincidem entre ambas as personalidades. Mas «Vencer» é também uma bela homenagem a uma personagem esquecida da História.
«Série B», opinião de Pedro Miguel Fernandes

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