Depois de Manuel Alegre é agora Fernando Nobre a anunciar a sua disponibilidade e intenção de se candidatar à Presidência da República, eleições a realizar no início de 2011.

José Manuel Monteiro - «Largo de Alcanizes»Quando, na semana passada, li na Comunicação Social a possibilidade da candidatura de Fernando Nobre lembrei-me da sua intervenção no 3.º Congresso dos Economista em Outubro de 2009. Na altura discutia-se o aumento do Salário Mínimo Nacional. Foi este o mote para a sua intervenção. Hoje fala-se de deficit, na necessidade de congelar salários da Administração Pública. E juntando as duas situações – Salário Mínimo Nacional e salários da Administração Pública, pergunto: – É justo que o Índice Remuneratório 1 da tabela remuneratória da Administração Pública se situe em 450 euros quando o Salário Mínimo Nacional é de 475 euros? E temos colocado neste índice, por exemplo, todas o(a)s auxiliares de acção educativa no início de carreira, que trabalham nas escolas deste país. Não é possível que o Estado exija que o sector privado pague no mínimo, e com toda a justiça, 475 euros no ano 2010 e ele próprio pague a trabalhadores ao seu serviço somente 450 euros.
E é por isso tudo que considero importante pegar novamente no essencial da intervenção de Fernando Nobre e divulgá-la aqui. O texto seguinte é uma reprodução do texto publicado em vários meios de comunicação, considerando não ser necessário reescrever o que outros já fizeram, sendo importante sim reter o seu conteúdo.
O presidente da AMI, criticou a posição das associações patronais por se manifestarem contra aumentos no salário mínimo nacional. Na sua intervenção, considerou «completamente intolerável» que exista quem viva «com pensões de 300 ou menos euros por mês», e questionou toda a plateia se «acham que algum de nós viveria com 450 euros por mês?»
Numa intervenção que arrancou aplausos aos vários economistas presentes, Fernando Nobre disse que não podia tolerar «que exista quem viva com 450 euros por mês», apontando que se sente envergonhado com «as nossas reformas».
«Os números dizem 18% de pobres… Não me venham com isso. Não entram nestes números quem recebe os subsídios de inserção, complementos de reforça e outros. Garanto que em Portugal temos uma pobreza estruturada acima dos 40%, é outra coisa que me envergonha…», disse ainda.
«Quando oiço o patronato a dizer que o salário mínimo não pode subir… Algum de nós viveria com 450 euros por mês? Há que redistribuir, diminuir as diferenças. Há 100 jovens licenciados a sair do país por mês, enfrentamos uma nova onda emigratória que é tabu falar. Muitos jovens perderam a esperança e estão à procura de novos horizontes… e com razão», salientou Fernando Nobre.
O presidente da AMI, visivelmente emocionado com o apelo que tenta lançar aos economistas presentes no Funchal, pediu mesmo que «pensem mais do que dois minutos em tudo isto». Para Fernando Nobre «não é justo que alguém chegue à sua empresa e duplique o seu próprio salário ao mesmo tempo que faz uma redução de pessoal. Nada mais vai ficar na mesma», criticou, garantindo que a sociedade «não vai aceitar que tudo fique na mesma».
No final da sua intervenção, Fernando Nobre apontou baterias a uma pequena parte da plateia, composta por jovens estudantes, citando para isso Sophia de Mello Breyner. «Nada é mais triste que um ser humano mais acomodado», citou, virando-se depois para os jovens e desafiando-os: «Não se deixem acomodar. Sejam críticos, exigentes. A vossa geração será a primeira com menos do que os vossos pais.»
Fernando Nobre ainda atacou todos aqueles que «acumulam reformas que podem chegar aos 20 mil euros quanto outros vivem com pensões de 130, 150 ou 200 euros… Não é um Estado viável! Sejamos mais humanos, inteligentes e sensíveis».
Espero que o discurso de Fernando Nobre, enquanto presidente da AMI, se mantenha idêntico ao discurso de Fernando Nobre candidato a Presidente da República.
«Largo de Alcanizes», opinião de José Manuel Monteiro

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