Burocracia ministerial nega apoios à agricultura

Através da Crónica de D. Fernando, o Formoso, de Fernão Lopes, ficamos a saber que este monarca, promulgou em Santarém no ano da graça de 1375, a Lei das Sesmarias, que ordenava entre outros o seguinte: «Todos os que tivessem herdades fossem obrigados a lavrá-las e a semeá-las; se o senhor das herdades as não pudesse lavrar por serem muitas ou em diferentes partes, que lavrasse as que mais lhe conviesse e as outras as fizesse lavrar por outros de modo que todas as herdades que pudessem dar pão fossem semeadas de trigo, cevada e milho…»

José Robalo – «Páginas Interiores»Os nossos primeiros reis sempre tiveram uma grande preocupação pelo povoamento do Interior, assente na ideia de que as pessoas são o sangue de qualquer território. A peste negra que abalara toda a Europa, havia dizimado muita gente e as cidades escasseavam de mão-de-obra, razão pela qual se verifica nesta época um êxodo em grande escala para os grandes centros urbanos; assistimos assim à fuga dos servos da gleba para as cidades, onde viriam a encontrar mais facilmente trabalho nas novas artes e ofícios. Estamos na fase do desmoronar do regime feudal, com o princípio do fim da enfiteuse e com o aparecimento de uma nova classe social agitadora para a época, a burguesia.
A Lei das Sesmarias é assim uma lei revolucionária, que visa inverter a tendência de desertificação massiva dos campos, com consequente fixação de pessoas no interior e no campo, uma verdadeira reforma agrária que em Abril de 74 se traduziu pelo princípio insurrecto tão em voga de «a terra a quem a trabalha».
O nosso concelho é um território com algum potencial agrícola, mas com constrangimentos ao nível da exploração dos solos, por nos encontrarmos num espaço de minifúndio. O Sabugal tem potencial agrícola e agro-florestal, que é premente apoiar e incentivar, com uma lei de emparcelamento que permita desenvolver novas políticas agrárias. Talvez a produção florestal em regime de associação de proprietários fosse também um caminho a trilhar, incorporando uma atitude empresarial e profissional. Num concelho rural como o nosso, é premente aproveitar os instrumentos financeiros disponíveis para o apoio à diversificação agrícola, dignificando assim essa nobre profissão dos meus avós que foi agricultura, a pecuária e a pastorícia.
Em Ruivós, fui encontrar o meu amigo Paulo Rebelo, jovem agricultor, que com algum desencanto na voz, sempre vai dizendo, que «a agricultura é o parente pobre, das actividades económicas e que os apoios e incentivos a esta actividade escasseiam»; não chegam a quem deles necessita por inoperância, por falta de divulgação, muitas vezes por falta de apoio técnico e por burocracia associada aos pedidos de apoio. Com orgulho, diz-nos que: «Apesar de todas as dificuldades não desiste porque está na profissão de que gosta e que escolheu para sobreviver», reconhecendo que »os poucos apoios e incentivos que vai tendo sempre vêm do município», lamentando que «num país carenciado como o nosso sejam devolvidos fundos de apoio à agricultura e espaço rural por inabilidade técnica e política de quem nos governa».
É assim urgente intervir numa área fundamental para a criação de riqueza e fixação de pessoas no Interior e nas funções emergentes do espaço rural segundo o modelo europeu de desenvolvimento rural sustentável, integrando os bens naturais e paisagísticos num novo e atractivo conceito de ruralidade, dignificando e dando uma visão empresarial à agricultura e floresta (rejuvenescendo o tecido empresarial agrícola, cativando os jovens para modos de produção integrada ou biológica) como novo sangue do território rural. Criar competências aos jovens que queiram fixar-se para empreender actividades agrícolas e de produção florestal que tragam benefícios ambientais e contribuam para a manutenção de biodiversidade, é uma boa causa que a todos deve unir.

:: :: PARA LER :: ::
«Crónica de el-rei D. Fernando de Fernão Lopes», na Biblioteca Nacional Digital.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«Kind of Blue de Miles Davis», da CBS, gravado em 1959, com a participação de Bill Evans ao piano, Julian Adderly, ao saxofone alto, John Coltrane, sax tenor, Paul Chambers no contrabaixo e James Cobb na bateria. Não é possível encontrar melhor naipe de virtuosos, numa improvisação desconcertante.
«Gordon Haskell, Harry’s Bar», East West 0927439762.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
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Viver no Sabugal é um acto heróico

«– Matam o Mestre! Matam o Mestre nos paços da rainha. Acorrei ao Mestre que matam! Acorramos ao Mestre amigos, acorramos ao Mestre, que o matam sem porquê!» É desta forma que Álvaro Pais e os seus aliados, apoiantes de Dom João, o primeiro, percorrem as ruas de Lisboa e conseguem um verdadeiro levantamento popular de apoio ao Mestre de Avis, futuro rei D. João I.

José Robalo – «Páginas Interiores»Temos acesso a toda esta informação através da Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória escrita de forma superior por esse génio da literatura que foi Fernão Lopes.
Este cronista deve com justiça ser considerado o primeiro historiador de língua portuguesa, bem como um refinado prosador. No prólogo da sua crónica Fernão Lopes promete descrever os factos a que teve acesso com verdade e probidade, pondo de parte a afeição. Assim com isenção, ficamos a saber como foi possível com coragem e determinação na crise de 1383-1385, mantermos a nossa independência. A crónica de Fernão Lopes é uma crónica de uma revolução que teve como protagonista e herói o povo. A revolução de 1383-85 foi uma revolução popular.
Vem tudo isto a propósito de um pedido que me foi formulado pelos administradores do blogue para no meu último trabalho, destacar um personagem, um sabugalense, que na minha opinião se tivesse destacado neste ano que está a terminar.
Devo dizer que poderia indicar dezenas de sabugalenses que pela sua actividade, inteligência, dinamismo e criatividade poderiam ser citados neste trabalho, correndo o risco de ser injusto com muitos outros, que ficariam na sombra e no esquecimento.
Como na crónica de Fernão Lopes, os heróis são todos os sabugalenses que aqui vivem e trabalham, que diariamente lutam contra a adversidade de residir no interior abandonado pelo poder central, que em PIDDAC nos dá para o ano de 2009, uns míseros 20.000 euros, ou seja, o investimento do governo central no Sabugal para este ano, é uma esmola!
Porque andam dias iguais perseguindo-se, viver, trabalhar e lutar diariamente no Sabugal, contra este abandono a que estamos votados é deveras um acto de heroicidade. A todos estes sabugalenses faço uma vénia, tiro o meu chapéu e faço votos de um Bom Ano de 2009.

:: :: PARA LER :: ::
«História de uma Revolução, Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória», de Fernão Lopes, edição dos Livros Europa América.
«As aventuras de Oliver Twist», Charles Dickens.

:: :: PARA VER E OUVIR :: ::
«De Gainsbourg à Gainsbarre», de Serge Gainsbourg, CD 848364-2 da Philips.
«O Concerto de Ano Novo, pela Orquestra Filarmónica de Viena», sendo maestro Daniel Barenboim, em directo de Viena, transmitido pela TVE1, no dia 1 de Janeiro, às 10.15 horas da manhã, hora portuguesa.

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Sonhos transportados na carrinha da Gulbenkian

José Robalo – «Páginas Interiores»Longe vai o tempo e com alguma nostalgia recordo a carrinha da Gulbenkian, uma biblioteca itinerante que periodicamente nos cultivava e combatia o isolamento em que nos encontrávamos no final da década de 60 do século passado. Foi através dessa biblioteca itinerante, que fui tendo acesso a livros que me prenderam e viciaram para sempre como leitor.

Carrinha Itinerante da Gulbenkian

Nesse primeiro embate com a leitura, descobri e aprendi a gostar de dois grandes autores portugueses e verdadeiros artesãos da língua portuguesa: Camilo Castelo Branco e Aquilino Ribeiro. A leitura destes dois mestres da narrativa apetrecha-nos com as ferramentas essenciais para o domínio da nossa língua.
Estamos no Natal!
Foi nesta época de sonhos fixos na chaminé por onde descia o Menino Jesus, que num desses natais li duas histórias que nunca mais esqueci: O Romance da Raposa e O Malhadinhas de Aquilino Ribeiro. Era o tempo em que o mundo ainda não andava torto.
Num qualquer lugar das Beiras, recolhidos do frio e à lareira, ler o Malhadinhas é reencontrar o retrato físico e psicológico do almocreve beirão, que percorria as nossas aldeias, temperado pela malícia da vida danada e madrasta. Ficamos ainda a saber que o nosso herói, numa das suas aventuras se recolheu à sua fazenda do Sabugal, quando Aquilino nos diz: «Acolhi-me à minha fazenda do Sabugal com reiuna bem escorvada.»
Se o caro amigo leitor não tiver tempo para a leitura de toda a narrativa aconselho-o a percorrer o capítulo IX, onde o nosso herói, tem um encontro com a neve e os lobos, acompanhado por um frade.
Será possível recuperar a democratização da cultura, com uma biblioteca itinerante?
Boas leituras e um Feliz e Santo Natal.

:: :: PARA LER :: ::
«O Romance da Raposa», de Aquilino Ribeiro, Livraria Bertrand.
«O Malhadinhas», de Aquilino Ribeiro, Livraria Bertrand.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«Beck : Sea Change», Geffen.
«Concertos para piano, nº 24, 25, 26 e 27 de Mozart, Berliner Philarmoniker», tendo como solista Daniel Barenboim, Teldec.

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Gelados Nevão – do Soito para o Mundo

Considerado o concelho do Sabugal no seu todo, a vila do Soito é pioneira na sua capacidade de iniciativa e dinamismo, associando actividades produtivas e desenvolvimento.

José Robalo – «Páginas Interiores»As suas gentes empreendedoras tornam esta vila num caso único de luta contra a adversidade e fatalismo, doença de que padece o interior, criando empresas de sucesso, geradoras de riqueza, postos de trabalho e consequente fixação de pessoas. Com algum saudosismo aqui e ali ainda se fala dum passado onde o contrabando foi protagonista e cujo desaparecimento fez temer o pior. O Soito no entanto, tem sabido reagir a estas adversidades e constrangimentos, com muito trabalho árduo e dinamismo, numa crença firme de que este território tem futuro.
Entre as diversas empresas que compõem este universo de que falo, destaco «Os Gelados Nevão, Lda.», liderada por Manuel José Lopes, que desde sempre me habituei a reconhecer e respeitar, empresa fundada em 1967 e que com muita perseverança, dedicação e trabalho se tem imposto pela qualidade dos seus produtos de excelência.
Inicialmente esta empresa apenas produzia gelados, mas muito cedo foi diversificando a sua produção, aparecendo hoje no mercado com nome reconhecido no segmento da pastelaria.
Gelados NevãoNesta época natalícia e porque o bolo-rei é rei, destaca-se a qualidade deste produto por ser de fabrico caseiro, genuíno e exclusivo do Soito. Diz-nos Abel Lopes: «Neste momento estamos a exportar bolo-rei e pão de ló para França, Suíça, Luxemburgo e Angola, com uma capacidade de produção de 1200 unidades diárias. Nesta época de Natal consumir o bolo-rei fabricado por esta empresa é consumir um produto genuíno e de altíssima qualidade.»
Diz-nos ainda Abel Lopes: «No mercado nacional abastecemos os distritos de Guarda, Castelo Branco e o sul do distrito de Bragança.» Com algum orgulho na voz o Abel, diz-nos que «o pasteleiro já trabalha na empresa vai para 34 anos e que a organização tem vários trabalhadores com mais de 30 anos de casa», o que reforça a ideia de estarmos perante um estabelecimento familiar de sucesso, com 11 trabalhadores.
O segredo do êxito é simples: farinha, frutos secos e frutas cristalizadas superiores. Nesta época de Natal ao consumirmos e oferecermos aos nossos amigos este bolo-rei estamos apostar na qualidade e a valorizar o que de muito bom se faz nesta terra.

:: :: PARA LER :: ::
«Syngué sabour, Atiq Rahimi, P.O.L.», prémio Goncourt 2008.
«As aventuras de Oliver Twist», Charles Dickens.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«Micah Hinson P., and the red empire orchestra».
«Gustav Mahler, Symphonie nº4, Berliner Philharmoniker», Herbert Von Karajan.

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Eu tive um sonho: ser livre como um pássaro

Tendo já sido terra de castanheiros, pinhal e mato o sítio da Dragoa na Ruvina prepara-se para receber o futuro aeródromo do Sabugal. As obras de terraplanagem para a construção de uma pista com 700 metros de comprimento e 25 metros de largura já estão na sua fase de conclusão, junto à estrada municipal que liga as freguesias da Ruvina e Nave.

José Robalo – «Páginas Interiores»Tudo parte da paixão de António Fernandes pela aeronáutica, da sua capacidade e dinamismo para transmitir confiança e contagiar um grupo de amigos que estão dispostos arriscar as suas poupanças, num projecto pioneiro para a região e que pode vir a ser a locomotiva para o desenvolvimento. Com alguma dose de loucura e risco estes sabugalenses apostam num projecto que vai criar postos de trabalho e colocar o concelho do Sabugal no mapa.
Nenhum dos promotores é candidato a lugares autárquicos, nem pretende beneficiar das sinecuras do poder. Têm em comum o amor à terra e com total desprendimento apostam num projecto arriscado, com a consciência de que o sucesso do empreendimento estará em primeira linha, associado ao sucesso do concelho do Sabugal.
Com a construção da pista estão criadas as condições para o início de um sonho. Diz António Fernandes: «Para além do gozo pessoal que o projecto nos dá, como amantes destas coisas do espaço aéreo, já adquirimos dois autogiros e vamos preparar-nos para a curto prazo podermos dar baptismos de voo, visitas aéreas ao concelho com autogiros e ultra leves; vamos dar formação a dois jovens para que possamos criar uma escola e conceder brevets
Sendo um projecto pioneiro, os seus promotores estão preocupados com a vertente ecológica e protecção da natureza, criando condições para aterragem e reabastecimento de aviões no combate a incêndios.
Joaquim Brázia, gerente da firma Robinil do Sabugal e associado neste empreendimento, refere «a excelência do local, por se encontrar situado num planalto onde a pista é bem visível e a abordagem é facilitada pelas condições ímpares do local». Acrescenta ainda que este projecto «para além de necessitar da aprovação e homologação do INAC, só será viável se as autoridades locais ganharem consciência do mesmo e se encostarem o ombro». «Naturalmente que está a ser preparada uma candidatura com caderno de encargos meticuloso, para candidatar a fundos comunitários, uma vez que esta obra é dificilmente realizável sem esses apoios», conclui António Fernandes.
O sonho destes sabugalenses é ver um dia esta pista e aeródromo receber voos com aeronaves de outras dimensões e com passageiros, criando assim outro dinamismo e postos de trabalho.
Como escreveu o nosso Nobel: «Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar. Era uma vez.» (Memorial do Convento).

:: :: PARA LER :: ::
«Memorial do Convento», de José Saramago.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«Todos os amores de Tom Jobim, ou António Carlos Jobim».
«Por el mar de mi mano, Poemas y canciones», de Luís Pastor.

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