Tudo servia para se escrever…

A foto que acompanha esta crónica foi tirada em 1975. Nela se pode ver um táxi da época (alguém saberá identificar o taxista?) e a placa de entrada na (então) vila, já para cá da ponte, onde está desenhada uma foice, um martelo e a estrela de cinco pontas…

Taxi - Sabugal

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»Quem seria que teria desenhado isso? Não me admirava nada se a pessoa que fez isso, nessa época, não fosse hoje uma pessoa já «bem na vida», a votar PS ou PSD…
Lembro-me bem do que aconteceu a seguir ao 25 de Abril de 1974, quando as paredes, monumentos e placas de trânsito estavam cheias de escritos. Quase tudo desapareceu com o tempo e com as lavagens que foram efectuadas. Realmente, nessa época, escreveu-se muito em monumentos, foi um erro que se cometeu, mas quando a tampa da panela rebenta, ninguém consegue prever as consequências. Foi o que aconteceu nessa época.
No Soito, passados poucos dias do 25 de Abril apareceram logo inscrições com palavras de ordem como: «Fim da Guerra Colonial», «Nem mais um soldado para as Colónias» ou «A Revolução Continua- O Povo Vencerá».
Também me lembro de na placa que indicava Vila Boa estar escrito «Vila Boa não quer camaleões». E, já em 1975, em Rendo, nas duas placas (a de entrada e a de saída) em letras garrafais «Morte ao comunismo». Apareceram, também inscrições em várias paredes com palavras de ordem como «Nem Fascismo Nem Social-Fascismo- Governo Popular» ou já perto de Abril de 1975 «O Povo Vota na Rua», para além de outras como «Abaixo os Suviéticos» (assim mesmo com um u, que tinha a ver com os SUV – Soldados Unidos Vencerão).
Claro que os maiores especialistas em pichagens e em murais (alguns até bastante interessantes) eram os militantes do MRPP (até conhecidos, por isso, por Meninos Rabinos Pintam Paredes), hoje todos (ou quase) já pessoas bem aburguesadas que, se calhar, já esqueceram os seus tempos de irreverência.
Foi, realmente, uma época única…
«Memória, Memórias…», crónica de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Punks arrasam no Sabugal

Esta fotografia foi tirada pelo, já falecido, fotógrafo Viriato Louro, no dia 2 de Dezembro de 1978, no Cinema D. Dinis, no Sabugal. Viriato Louro era, digamos assim, o fotógrafo «oficial» de todos os Bailes de Finalistas que se realizavam no Sabugal ou na Guarda. Tinha estabelecimentos de fotografia na Guarda e no Sabugal (a Foto Império). Nesse dia era o Baile de Finalistas do Colégio do Sabugal e eu era finalista.

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»O retratado é o meu irmão, Luís Carlos Duarte, que foi jogador do Sporting do Sabugal durante muitos anos. Posteriormente, foi treinador do Jarmelo, Desportiva do Soito e Sporting do Sabugal.
Nesse dia o meu irmão foi jogar, integrado no Sporting do Sabugal, a Pinhel, num jogo a contar para o Campeonato Distrital da 1.ª Divisão.
Os adeptos do Pinhel, porque estavam descontentes com o resultado ou com a arbitragem, queriam vingar-se nos jogadores do Sabugal.
O meu irmão foi prevenido para Pinhel. Entrou no campo do adversário vestido com um fato de treino e, como já estava preparado para ir para o Baile de Finalistas sem passar pelo Soito (onde residia), levou a roupa de «sair à noite» para Pinhel. Certo é que, no final do encontro, conseguiu sair completamente ileso do campo do Pinhel, já que ninguém o reconheceu e não foi incomodado por nenhum adepto do clube adversário.
A fotografia foi tirada logo no início do Baile de Finalistas, «abrilhantado» pelo grupo de Rock, muito famoso na época, a nível nacional, chamado Hosanna (visível no lado direito a coluna de som pintada com a letra H, de Hosanna, e ainda o projector de «slides» que provocava efeitos no palco onde actuavam).
Para além do meu irmão, reconhecem-se, do lado direito, mais dois soitenses: o Jé Leal e o Paulo Roque.
Punks - Clique na imagem para ampliarA indumentária que o Duarte usou era típica da atitude «punk» que andava muito em voga na época. Acrescente-se que essa atitude cresceu com o concerto dos Faíscas, considerada a primeira banda «punk» portuguesa, no mesmo local, em Maio de 1978 e que deu muito brado.
Como se pode ver há uma gravatinha muito fininha e pequenina, numa camisa sem colarinho. Imagem de marca dos «punks» era os óculos escuros (neste caso só com uma lente). Para rematar tudo há o chapéu de explorador africano, feito de cortiça e forrado a pano, que a minha tia Luísa lhe tinha oferecido. Tinha sido do seu marido (o ti João Loto) que esteve em Angola durante uns anos.
Há, ainda, o casaco e as calças largas, outra imagem icónica dos “punks” dos anos 70, que usavam roupa usada, comprada em lojas especializadas.
Na lapela do casaco, do lado esquerdo, há uma mancha que era de «patchouli», o perfume mais ligado à malta do Rock. Esse perfume deixava um odor intenso, mesmo só com uma gotinha. A mancha que se vê na fotografia exalava tal intensidade que, passados vários meses, ainda não tinha desaparecido do casaco o cheiro intenso a «patchouli».
Resta acrescentar que o chapéu de explorador africano fez um sucesso tal que me lembro bem de muitos dos presentes no Baile de Finalistas o quererem colocar na cabeça, de tal maneira que, quando aquilo terminou, estava todo estragado.
«Good Old Times!!!»
«Memória, Memórias…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
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Chafariz da Praça – Década de 70

A fotografia que acompanha esta crónica foi tirada em meados da década de 1970, talvez em 1975, na Fonte da Praça no Sabugal.

Chafariz da Praça -Sabugal

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»Trata-se de uma fotografia do Chafariz da Praça, no Sabugal, num dia de neve, ao anoitecer.
Como se pode verificar nesta época existiam três árvores, junto ao Chafariz. Hoje só já existem duas.
As casas que se vêm na imagem, de frente, já não existem. Actualmente existe no local das casas um estabelecimento comercial que vende roupa. Durante anos foi ali o estabelecimento do sr. Albertino, que era uma espécie de papelaria, mas também vendia electrodomésticos.
As casas que se encontram no lado direito ainda existem. Encontram-se naquela rua que desce para o Largo onde se encontram, actualmente, os Correios e existiu (durante muitos anos) a Farmácia Lucinda Moreira.
O Chafariz da Praça é que está na mesma. Segundo me disseram há quem o conheça pela Fonte Redonda.
«Memória, Memórias…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Os primeiros bombeiros do Soito

A fotografia que acompanha esta crónica, embora não muito nítida, refere-se à primeira incorporação de bombeiros do Soito, em 1982. A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Soito foi fundada em 5 de Junho de 1981. Esta fotografia é, presumivelmente, da Primavera de 1982.

Bombeiros Voluntários Soito

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»Os bombeiros começaram por ter ao seu serviço apenas uma ambulância, a que se seguiu um carro que servia para o transporte de pessoal e de material como pás e enxadas, para combater os incêndios florestais. Não havia, praticamente, mais nenhum equipamento que os primeiros bombeiros do Soito pudessem utilizar.
Para se organizar o corpo de bombeiros no Soito contou-se com a colaboração voluntária de instrutores que vinham da Guarda e do Sabugal, ajudar na formação.
O primeiro comandante dos Bombeiros Voluntários do Soito foi o sr. José Freire, que foi, mais tarde, Presidente da Câmara Municipal do Sabugal.
Como adjuntos do comandante encontravam-se o senhor Ireneu Coelho (que seria, mais tarde, comandante) e outro senhor que no Soito era conhecido por Quintanilha, que era empregado da Cristalina.
O fardamento dos bombeiros era constituído por fato-macaco de cor azul, no que se refere ao combate a incêndios e calças azuis e umas camisas brancas (oferecidas pelas Confecções Univest), no caso do fardamento para cerimónias (que é o que se encontra na fotografia). Nem sei bem se este fardamento era considerado oficial pelas autoridades que supervisionavam os Bombeiros, na época.
Os Bombeiros do Soito foram instalar-se no Pavilhão Gimnodesportivo, construído pelo Povo do Soito, para sede da Associação Cultural e Desportiva do Soito, fundada em 1977 e, nesta época, desactivada. A ACDS chegou a ter pergaminhos numa modalidade chamada luta greco-romana (treinada pelo Zé Freire). Alguns dos praticantes dessa modalidade, no Soito, chegaram a ser campeões distritais e bateram-se bem em torneios de nível nacional.
Na foto pode ver-se o Pavilhão Gimnodesportivo ainda com as paredes em blocos de cimento e o anexo ainda em construção.
Talvez perto de trinta rapazes formaram a primeira incorporação dos bombeiros do Soito.
Alguns já faleceram e outros foram abandonando, por diversos motivos. Hoje, restam apenas cinco ou seis que ainda continuam bombeiros no Soito, entre os quais o actual comandante, sr. Joaquim Barata.
Na foto, em primeiro plano, vê-se uma criança fardada que me parece ser Filipe Frade, que era conhecido pelo Filipe Bombeirinho e nunca chegou, efectivamente, a ser bombeiro a sério.
O autor desta crónica pertenceria ao corpo de bombeiros do Soito na segunda incorporação, em 1983, e passou ao Quadro de Honra em Dezembro de 2009.
«Memórias, Memórias…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
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