As ceifas e os ranchos

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

No tempo antigo, por todo o lado, havia pão semeado. Ceifá-lo, exigia muita mão de obra. Juntavam-se ranchos que ceifavam cá e em terras de fora. Eram semanas de trabalho duro, mas também uma oportunidade para muitos poderem ganhar alguma coisa.

Rancho ceifando

Rancho ceifando (Foto: D.R.)

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À noite, depois da ceia, cantava-se e dançava-se, até às tantas…

Os ranchos tinham sete, oito, ou até mais pessoas, com um manajeiro, que era quem mandava e resolvia todas as coisas. Todos lhe obedeciam; por exemplo, se alguma pessoa começava a picar ou a discutir com outra, separava-as, mesmo a dormir, para evitar discussões.

Ao nascer do sol, já se estava à porta dos patrões, para comer o almoço. Almoçava-se sopa, pão e vinho. Levava-se queijo, pão e vinho para o cravelo, ao meio da manhã, pelas nove, dez, horas; e, muitas vezes, já se levava, à cabeça, o barranhão das papas de milho que se punha a uma sombra, até à hora do jantar, quando os patrões levavam o resto da comida.

Havia sempre água, em cântaros ou bilhas de barro que alguém dava a beber, de quando a quando, ao rancho. Quando acabava, tinha de se ir buscar a um poço ou a uma presa; mas, nem sempre havia ou só se encontravam poços fundos, neste caso, se fossem empedrados, de pedrinha em pedrinha, ia-se, ao fundo, buscar a água.

Trabalhava-se até ao anoitecer, mas, às vezes, para se acabar de ceifar um chão, começava-se a acelerar o ritmo, a certa hora da tarde. Nessas alturas, havia patrões que prometiam: «Se acabarem o pão até à ponta, ganham um cântaro de vinho doce.» Quase sempre se ganhava.

À noite, depois da ceia, cantava-se e dançava-se, até às tantas, muitos não se lembravam que tinham de se levantar cedo, no outro dia. O mais difícil, era o cansaço acumulado de uns dias para os outros; e, também, quando se ceifava aquele pão pequenino, aquelas «peladinhas», em que se demorava para fazer um molho. Uma coisa injusta, era os homens ganharem o dobro das mulheres, a não ser que fossem galfarros novos, de quinze ou dezasseis anos, que ganhavam como elas.

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«A minha terra é Águas Belas», crónica de Maria Rosa Afonso

2 Responses to As ceifas e os ranchos

  1. José Carlos Mendes diz:

    Magnífico, mesmo!!!!

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