Piedade

António Alves Fernandes - Orelha - Capeia Arraiana - 180x135

Piedade é uma das palavras que todos nós usamos, escutamos, repetimos, pronunciamos no nosso dia-a-dia, dando-lhe os mais diversos significados. No meu caso concreto, sempre que leio ou pronuncio a palavra «Piedade», vem-me à memória o nome saudoso da minha Mãe, Maria da Piedade. Nesta minha crónica irei também abordar uma mulher doméstica, rural, emigrante, simples, humilde e benemérita.

Maria da Piedade Salvado Rodrigues

Maria da Piedade Salvado Rodrigues

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Maria da Piedade, mulher de fé e religiosidade…

Numa tarde soalheira e ventosa, os sinos da paróquia tocaram a finados. Outrora eram os sons dos sinos a marcar os ritmos de vida e os hábitos da comunidade, principalmente os religiosos.

Actualmente já são poucos a anunciar as horas e, em alguns casos, temporariamente. Felizmente ainda há aldeias em que os sinos anunciam os baptizados, os casamentos, os falecimentos, recordando-nos que estamos de passagem. Muitos não se convencem desta realidade.

Quem ouve esses sons descodifica-os e fica a saber se é ou não membro da Irmandade de São Vicente e Almas de Aldeia de Joanes, instituição fundada em 1233.

Irmandade de São Vicente e Almas da Aldeia de Joanes fundada no ano de 1233

Irmandade de São Vicente e Almas da Aldeia de Joanes fundada no ano de 1233

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Depressa a notícia necrológica chegou ao conhecimento da população geral com os horários das cerimónias exequiais. Tratava-se de Maria da Piedade Salvado Rodrigues, nascida na Primavera de 1930, no coração medieval de Aldeia de Joanes, na Rua da Fonte, um local histórico chamado «Os Olivais Pequenos»; ainda recentemente uns heróis e heroínas se opuseram à sua ocupação indevida. Em Aldeia de Joanes, falar em Olivais é falar de território sagrado.

Maria da Piedade Salvado Rodrigues, ainda jovem, foi trabalhar domesticamente para a Quinta da Serrana, sita na encosta da Serra da Gardunha, Alcongosta, terrenos onde se produzem umas das melhores cerejas do Fundão.

Ali conheceu o namorado com quem viria a partilhar actividades rurais e amorosas. Não tardou a marcação do casamento em cerimónia pobre e sem convidados.

A agricultura familiar não dava sustentabilidade económica e o marido, na década de sessenta, com o surgimento em avalanche da emigração para França, preparou uma bagagem ligeira, sem mala de cartão, uma sacola de serapilheira, e transportou clandestinamente os sonhos além-fronteira. A sua viagem daria um bom guião para um filme de aventuras. Chegou aos arrabaldes de Paris e depressa conseguiu trabalho na construção civil. Durante três anos, trabalhou arduamente e viveu precariamente. Com melhorias económicas e habitacionais, a esposa seguiu para junto do marido.

Emigrantes portugueses no Bidonville de Champigny nos arredores de Paris nos anos 60

Emigrantes portugueses no Bidonville de Champigny nos arredores de Paris nos anos 60

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Durante mais de vinte anos, viveram e trabalharam arduamente em França, onde lhes nasceu um filho, sempre com o cordão umbilical ligado a Aldeia de Joanes, que ainda jovem perdeu tragicamente a vida em acidente de viação.

Regressaram a Portugal, investiram as economias e poupanças na sua terra natal e continuaram a trabalhar em actividades rurais.

Apesar destes anos de ausência, nunca esqueceram as suas raízes e sentiam o pulsar da vida e o bairrismo pela sua aldeia natal – Aldeia de Joanes. São infelizmente cada vez menos aqueles que sentem amor pela sua pátria mãe.

Eram grandes devotos de Nossa Senhora do Amparo e desabafaram, em 2018, a um elemento da Comissão de Festas: «Não deixem de realizar a festa, não a deixem morrer.»

Festa de Nossa Senhora do Amparo na Aldeia de Joane

Festa de Nossa Senhora do Amparo na Aldeia de Joane

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Maria da Piedade, mulher de fé e religiosidade, nunca deixou de colaborar com a Paróquia de Aldeia de Joanes, na compra de alfaias litúrgicas, com donativos avultados para as obras de restauro da Igreja Matriz, da Capela Funerária, e para a compra da imagem Pietà. Anonimamente foi uma grande benemérita e, nesta hora da sua partida terrena, merece ser dada a conhecer parte da sua imensa generosidade.

Campanário da Igreja

Campanário da Igreja

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Uma mulher que viveu noventa anos merecia ter uma morte com mais amor, mais suave, mais acompanhada, com mais sociabilidade. Mas é o eterno problema de quem é confiado à solidão da velhice.
Doente, com muitas fragilidades físicas e psicológicas, nem tudo correu bem, e há sempre oportunismos desnecessários.

Na hora da despedida, da partida, na Primavera de 2020, elementos da comunidade cristã entoaram-lhe o cântico religioso dedicado a Nossa Senhora do Amparo.

Nossa Senhora do Amparo na Aldeia de Joane

Nossa Senhora do Amparo da Aldeia de Joane

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Na cerimónia fúnebre nem uma palavra de gratidão para uma cristã benemérita da comunidade paroquial que não merecia tamanho esquecimento. Acontece aos simples.

No cemitério só um pedido devia soar bem alto: «Senhor, tende piedade de nós», por tanta ingratidão, esquecimento e oportunismo.

Tanta impiedade para tão grande generosidade!

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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