A minha peregrinação interior

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Duas semanas de cativeiro, por precaução, levaram-me a uma «prisão» dourada numa paz que já não sentia faz muito tempo. Aproveitei para ler, estudar, e ver alguma TV, que infelizmente em nada ajudou. O protagonismo continua nas veias de muita gente, só que a população, já pouco liga. Acompanhei também as eleições dos democratas, que podem ser uma esperança pata todos nós. Ainda acreditei no impossível, mas o «Sistema» voltou a triunfar. Vamos ter esperança que em novembro os americanos se lembrem dos outros, que deles dependem, mas não podem decidir. Assim, passei quase duas semanas, esperando que no dia da publicação desta crónica, as minhas preocupações voltem a ser a malária, tifóide ou a cólera, verdadeiros perigos mortais.

A minha peregrinação interior

A minha peregrinação interior

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É tão bom ser autónomo e acreditar em nós próprios!…

Porquê uma peregrinação interior? Este título tem direitos de autor. Só que é sem dúvida muito bem escolhido. Uma viajem pelo nosso «dentro» em que nos enriquece a vida, num tempo que só se ouvia espreitar a morte. Já nos anos setenta, este escritor, sentia dificuldade em «ser capaz de encontrar as coisas que valem a pena, entre esta realidade tremendamente monótona e medíocre que é o curso dos dias». Ter de exprimir com palavras gastas e cansadas que têm dado cobertura, já habitual, à banalidade imensa que é a existência que vai passando nos écrans das nossas televisões.

Neste retiro senti mesmo necessidade de «refazer todo o conhecimento e recomeçar como se nada existisse». Tal como o escritor, também pego no computador «e caio sobre o papel como se estivesse a desenhar a minha razão de viver». Estranho que nos anos 70, se sabiam que certas «coisas», que se passavam, só depois delas terem acontecido é que se compreendia o «porquê.» Mas ao contrário desse tempo, «alguns milhões de indivíduos com as mesmas características do eu», agora devem ser centenas a caminhar para as dezenas. Não embarco, em nada, no circo mediático, nem me influencio pelas opiniões que me parecem bizarras.

Por isso, num canto da mesa de um café, já não «sou vítima do conto de diversos vigários». Pelo menos alguma que se aprenda com o tempo, já que tanto objecto que me rodeia, me identifica muito com este autor. O relicário, onde se rezava com a lamparina acesa, só que ia obrigado com o «pistolão de cowboy», e que suplicava que na Sexta-feira Santa se pudesse comer carne. Hoje, mal chego a Setúbal, corro desenfreado pelo bom peixe grelhado, fazendo-me lembrar o ditado de que «Deus escreve direiro por linhas tortas». Daí que minha relação com Deus, felizmente é muito pacífica, e tenho aprendido à minha custa os erros que tenho cometido, voltando ao ditado popular: «Faz por ti que Eu te ajudarei!»

O pensador em peregrinação

O pensador em peregrinação

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Mas o caminho tem sempre troços comuns. O passado é único, precisamente, porque muitas vezes não volta. Um trilho de oportunidades perdidas principalmente por quem mais gostámos. E até aí, nestes momentos de solidão, nos lembramos com saudade e esperança, de acreditarmos, de os poder reencontrar. E esse foi na essência o caminho que percorri «dentro do meu ser». E ao rever essas imagens imateriais, fiquei com uma alegria única de me reencontrar comigo mesmo. Quem diria!

Estas «pardemias», embora sérias obviamente dado se entrar num mundo desconhecido, podem ser úteis para nos levar a viajar dentro de nós. E fazermos contrições de erros do passado, de nos aproximarmos de quem mais gostamos, enquanto vociferam os profetas da desgraça. É este contraste que devemos aproveitar em tempos de clausura, contribuindo positivamente para a acalmia interna e das próprias autoridades. O que dirão os sociólogos a «quarentenas» de bronze ou de saldos? Não será mesmo por culpa da desinformação mediática e no desacreditar das autoridades? Que até nos querem proteger e ajudar?

Quase no fim da «caminhada» acho que continuo são mentalmente, e nada dependente de terceiros.

É tão bom ser autónomo e acreditar em nós próprios! Basta apenas entrar um pouco mais «dentro do nosso ser.»

Orjais, 15 de março de 2020.

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to A minha peregrinação interior

  1. José Geraldes diz:

    Votos de continuação de boas caminhadas, na constante procura do “eu” e dos “outros” a viver em harmonia, e com vontade de continuar a aprender. Só somos velhos quando não queremos aprender mais. Abraço

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