Coração dividido entre Gaia e Napoli

Raquel Lages Baptista - 185x130 - Capeia Arraiana

Na verdade, não queria escrever este artigo. Não tenho vontade de falar neste assunto e por vários dias admito que tentei de todas as maneiras evitar de ouvir actualizações sobre a difusão do COVID-19 em Portugal e Itália os meus dois países do coração e no resto do mundo. Mas é uma responsabilidade individual. Cada um de nós tem uma enorme responsabilidade nas mãos neste momento: a responsabilidade de se informar (bem) e de informar (bem) os outros sobre como se comportar neste momento de crise. Temos o dever de nos proteger uns aos outros, de sacrificar hábitos quotidianos e, obviamente, de ficar em casa, saindo apenas se estritamente necessário.

«Abraça-me com mais força!» («Abbracciame più forte!»)

«Abbracciame più forte!» («Abraça-me com mais força!»)

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Os beijos e os abraços transformaram-se num «fruto proibido»…

Dói-me a alma de olhar de longe o meu país do coração em lockdown e praticamente isolado do resto do mundo. Até agora, a situação em Portugal não é tão crítica como em Itália, mas não posso esconder a mortificação e raiva que senti ao ver muitos dos meus compatriotas encher as praias portuguesas no mesmo dia em que a OMS declarou o coronavírus uma pandemia. A Itália ultrapassou os 20.000 casos e contam-se mais de 1800 mortos e aqui em Portugal ainda há quem não tenha compreendido a dimensão do problema e queira aproveitar o encerramento de escolas e universidades para tirar umas belas férias prolongadas.

Posso dizer que confio e que estou orgulhosa do terrível esforço e das medidas recentemente tomadas pelo Governo italiano (e também pelo Governo português). Mas sinto uma profunda tristeza ao constatar que, paralelamente ao encerramento das escolas, na minha própria cidade, Gaia, o município se sentiu no dever de fechar as praias para evitar que os cidadãos aproveitassem dos belos dias de sol para ir ao mar.

Até que o drama nos afete directamente ou a um dos nossos entes queridos, somos todos fortes, grandes, invencíveis. Às vezes, infelizmente, (talvez com demasiada frequência) precisamos do drama para aprender alguma coisa.

Este é apenas um dos muitos artigos que circulam sobre o tema e sobre o enorme impacto deste inimigo tão pequeno nas várias dimensões da nossa vida e até na nossa comunicação.

Em Itália, por exemplo, imensas famílias, amigos, namorados encontram-se neste momento fisicamente divididos, não podendo sair de casa e deslocar-se para outras cidades a não ser por motivos de trabalho, situações de necessidade como compra de alimentos ou motivos de saúde. A internet transformou-se no principal instrumento usado para comunicar, para combater a distância, para matar a saudade.

Mas no mundo virtual revela-se por vezes difícil filtrar a enorme quantidade de informação que circula a uma extrema velocidade e é muito fácil criar confusão, alimentar desinformação e contribuir para gerar o pânico com um comentário ou com uma simples partilha. Ainda que continue a achar que regras ainda mais drásticas sejam necessárias para impedir uma descontrolada propagação em Portugal (como aconteceu em Itália onde o governo se viu finalmente obrigado a tomar medidas coercivas), vejo sinais de luta, de esperança, de união, nos meus dois países.

Nasceram de facto, nos últimos dias, varias demonstrações de que por vezes a dor, o desespero e, claro, o medo são a única estrada para nos levar a lugares onde nunca teríamos chegado de outro modo. Assim, quando a terrível distância, a incerteza e o medo se começaram a tornar insuportáveis, Itália saiu à janela com o seu patriótico hino cantado a plenos pulmões e com a sua ópera lírica a sobrevoar os telhados. E num momento em que beijos e abraços se transformaram num «fruto proibido», com uma canção de Andrea Sannino, os meus queridos napolitanos cantam, cada qual da sua varanda: «Abraça-me com mais força!» («Abbracciame più forte!»)



Ver vídeo “Coronavirus, “Abbracciame più forte”: a Napoli si canta dai balconi per non restare soli”… (Aqui.)
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Ver vídeo “Maurizio Marchini cantando Nessun Dorma en su balcón por el coronavirus”… (Aqui.)
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Ver vídeo “Coronavirus, tra «Bella ciao» e «Inno di Mameli»: si canta sui balconi della Capitale”… (Aqui.)

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E porque a comunicação também pode ser não-verbal, às vezes, uma salva de palmas, vale mais do que mil palavras: como no caso do longo e merecido aplauso dedicado aos profissionais de saúde em Portugal que não podem, como muitos de nós, ficar em casa e que merecem, realmente, todo o nosso respeito e apoio.



Ver vídeo “Aplausos, em Portugal, em homenagem a todos os Profissionais de Saúde.”… (Aqui.)

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Neste tempo de crise, lembremo-nos de usar bem as nossas palavras: para informar, para aconselhar, para trazer conforto, para abençoar, para orar. São também as pequenas (grandes) mudanças que, todas juntas, farão a diferença.

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«Entre Gaia e Napoli», opinião de Raquel Lages Baptista

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A Raquel Lages Baptista é neta da Glória Lages, natural da freguesia de Ruivós no concelho do Sabugal. Nasceu em Gaia, estou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi fazer Erasmus para Itália e continuou os estudos de Comunicazione pubblica e d’impresa na Università degli Studi di Salerno. Um italiano maroto de nome Francesco «actualizou» os seus projectos de vida e divide, agora, o seu tempo entre Gaia e Nápoles onde é jornalista na empresa Inside Marketing.

A Raquel fez um percurso académico brilhante e é, sem surpresa, que podemos escutar as suas peças jornalísticas num italiano fluente e perfeito que nos enche de orgulho. Parabéns!

jcl

2 Responses to Coração dividido entre Gaia e Napoli

  1. José Carlos Mendes diz:

    Parabéns, grande Família Lages!
    E os meus respeitos para quem enfrenta tal «situação» de coração dividido.
    Vamos em frente – nas calmas (tanto quanto possível).
    Saudações sentidas.

  2. Angela Rita diz:

    Colega profissional y grande amiga. #vaicorrertudobem

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