Do Sabugal à Senhora do Almortão

Fernando Capelo - Orelha - Capeia Arraiana - 180x135

O dia prometia sol. Propus à família a saída pela manhã. A primeira etapa seria no Sabugal. Depois logo se veria. Partir sem destino sempre me fascinou. Seduz-me o odor do enigma mas o Sabugal sabe-me a amizade…

Capela da Senhora do Almortão

Capela da Senhora do Almortão

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A capela acomodava a Santa que virava costas a Castela…

Iniciámos, portanto, a viagem rolando lentamente, achando a planície, sondando-lhe a serenidade.

Prezo, sim, a montanha mas tão pouco subestimo o vale. Aliás, julgo que ambos se completam mutuamente.

Chegados ao Sabugal impôs-se a «bica» matinal seguida de um olhar de relance ao castelo alourado de sol. Depois foi o espreite ao rio revestido de um verde que se refletia.

Na verdade a vontade de prosseguir coagia-nos. O dia era, sem dúvida, de digressão.

Retomámos, então, o giro para sul espreitando aldeias, casas e laranjeiras. Apreciámos pomares a desabrochar e acácias em flor. Olhámos planuras e polemizámos a nacionalidade de montes distantes.

Subitamente, alcançamos o Santuário da Senhora da Póvoa onde o mítico e o religioso se misturam. O templo, bem cuidado, sitia-se num amplo espaço que evoca infinitas romarias. A ambiência traz-nos à memória Nuno de Montemor e o seu romance «Maria Mim».

Mas o tempo não perdoa e, lesto, agraciou-nos com a chegada do meio dia e com um calor de espertar. Foi, por isso, um ver se te avias até à Meimoa onde o restaurante «Calhambeque» nos serviu um lombo no forno de se lhe tirar o chapéu. À saída um homem de meia idade, de tez enegrecida de sol e de trabalho, indagou:

– De onde são vossemecês?

– Vimos da zona do Jarmelo.

– Ah… então são meus vizinhos.

– Não me diga! O senhor é de lá?

– Não, não… sou, aqui, da Meimoa.

A chalaça suscitou-nos breve sorriso e um consentâneo comentário:

– Muito bem. Isso é que é falar.

Chave na ignição e toca a surdir até Idanha-a-Velha verificar o berço da «egitaniedade». A arcaica Catedral liderava um incontável contexto histórico.

Enquanto isto já o sol indiciava declínio denunciando escassez de tempo para quem pretendesse visitar a Senhora do Almortão. Vencida a curta encosta, ainda com ar de dia, obtivemos a riba do monte, sitio de lendas e murteiras, lá onde sobressaia, harmoniosa, a ermida. Tutelada pelos arcos graníticos de um sóbrio alpendre a capela acomodava a Santa que virava costas a Castela cumprindo o desejo do poeta cantor.

Fechámos, por aí, o nosso soalheiro passeio. O regresso já foi de escuro porque o breu da noite caiu num ai.

Adofeiras de Monsanto tocam e cantam «Senhora do Almortão»…

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to Do Sabugal à Senhora do Almortão

  1. Belo texto! Delicioso caminho. Vou pesquisar esses lugares para saber mais.

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