Cacadas

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Para a ti Gervásia e para todos os habitantes do Casteleiro, Carnaval era o tempo das «Cacadas». O silêncio da noite era o momento ideal para este tipo de brincadeiras, algumas delas de mau gosto.

Crespúsculo da noite

Crespúsculo da noite

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Muitas eram as brincadeiras, bem distantes das de hoje…

Passo a explicar: ao anoitecer e quando as famílias se preparavam para acomodar o estômago e descansar, ao som do chamamento «Ó da Casa!», eram surpreendidos por grupos de crianças que lhes deitavam pela casa fora, cântaros velhos cheios de lixo ou então nozes, sinal de que os da casa eram odiados ou queridos por estes. De imediato estes punham-se ao fresco, de modo a que não fossem reconhecidos, e, nas noites seguintes, pudessem repetir tais proezas.

Quem não tolerava as «Cacadas» era a ti Gervásia. Com o cair da noite começava o seu desassossego, com a criançada a infernizar-lhe a alma. Enquanto uns a perseguiam desde a Rua do Forno, onde morava, até ao chafariz de então, situado num plano inferior do Largo da Praça, ostentando um tanque em granito, de dimensões generosas e duas abundantes bicas que só davam sinal de alguma fraqueza já no pino do Verão, outros enchiam-lhe a entrada da casa com pequenas pedras, caldeiros e potes velhos, recolhidas nas redondezas impedindo, desta forma, a sua entrada.

O peso do cântaro, meio-cheio meio-vazio, acentuava as suas débeis forças dificultando, ainda mais, o percurso de regresso. Ao chegar, o azedume e a ira assumiam o apogeu, gritando e mal dizendo aquela garotada, «sem pai nem mãe, que mais não fazem do que infernizar-me a vida».

– Como podia a ti Gervásia gostar desta tradição?

À época, nesta e noutras ruas fervilhava vida. Desde os primeiros raios de sol até que o crepúsculo da noite se aproximava, crianças e adultos davam cor e dimensão à aldeia. Muitas eram as brincadeiras, bem distantes das de hoje… mas onde a criatividade e o engenho criavam e recriavam cenas e quotidianos muito próximos da realidade de então.

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«A Minha Rua», crónica de Joaquim Luís Gouveia

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