84.º encontro ex-bancários do Fundão e Covilhã

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Neste espaço temporal do início da segunda década do ano 2020, realizou-se o 84.º Encontro dos ex-empregados do Banco Pinto e Sotto Mayor das agências do Fundão e da Covilhã. Realce-se o grande número de encontros já concretizados, graças à dinâmica e persistência das respectivas direcções e de todos aqueles que sempre marcam presença ou justificam a sua falta.

Antigos funcionários do Banco Pinto e Sotto Mayor do Fundão e Covilhã

Encontro de antigos funcionários das agências do Fundão e Covilhã do Banco Pinto e Sotto Mayor

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Hoje o cliente é algo anónimo, desconhecido…

Num programa pré-estabelecido anualmente, este encontro decorreu na Quinta da Nave de Cima em Aldeia de Joanes, Fundão, num final de fevereiro a dar-nos indicações de que a Primavera se está a aproximar. No entanto, o nosso povo, em adágio popular, avisa que «Fevereiro quente traz o diabo no ventre».

Qualquer observador atento chega à rápida conclusão de que estes ex-bancários mantêm a amizade e a solidariedade dos tempos do exercício da sua profissão.

Já esqueceram as matemáticas dos números e as más condutas de algumas gerências que nem sempre respeitaram o trabalho de homens que não eram máquinas de fazer dinheiro.

Num território maravilhoso, de históricos tempos dos Templários e dos Romeiros de Santiago, entre a Serra da Estrela e a Serra da Gardunha, também são esquecidos os muitos ruídos e as hipocrisias de muitos dos palradores televisivos.

Este encontro, além da convivência, da amizade, da lembrança dos que já partiram e dos doentes, tem também outras componentes fundamentais: a social, a gastronómica, a cultural e a musical.

No campo gastronómico, a ementa escolhida é uma caldeirada setubalense e a respectiva sopa de massinha.

Na área cultural, uma visita guiada da responsabilidade do admirável animador cultural, Pedro Silveira, à Casa do Barro, na freguesia do Telhado, do concelho do Fundão.

Durante hora e meia, são percorridos todos os espaços de memórias da olaria: diversas salas cuja temática assenta no artesanato, a matéria prima do barro e os molhos de lenha, os objetos e os rostos dos oleiros… Uma aldeia que nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado tinha cem olarias artesanais de apenas um proprietário. A maioria das famílias vivia do trabalho dos oleiros, cujos produtos eram vendidos em mercados e povoações situados entre o Rio Zêzere e o Tejo.

Um dístico lembra-nos as palavras do escritor José Cardoso Pires: «Sem memória, esvai-se o presente.»

A parte final da visita leva-nos ao espaço poético de Albano Martins, nascido na Quinta do Boi, na freguesia do Telhado, sinalizada pelo nosso guia. Numa parede lemos muitos poemas. Transcrevo estes dois:

«Há um melro que faz o ninho na minha memória
Ouço-o agora
Canta a flor das giestas e cerejeiras
Traz emoldurados os meus dezoito anos.»

e…

«Um dia voltarei à morada das papoilas
Colher versos vermelhos que semeei na seara
Um dia o vento está maduro.»

Desta vez vamos ouvir um ex-bancário que, pela primeira vez e a convite do Victor Antunes do Fundão, marca presença no encontro. Arménio Dias Videira, natural e Alquerubim, Albergaria-a-Velha, casado no Telhado. Diz-nos que trabalhou trinta e três anos no BPSM, pertencendo ao quadro técnico e mais tarde ao diretivo. Durante alguns anos desempenhou funções na área da formação, dando diversos cursos a colegas candidatos à gerência bancária. Este facto une-o a diversos companheiros bancários. Esta actividade de formação foi extensiva a Angola, Moçambique e Cabo Verde. Diz que, a nível de agências inter-regionais, não tem conhecimento de que exista uma associação ou organização como esta. Estes encontros são muito salutares e importantes e devem ter continuidade enquanto as pessoas tiverem qualidade de vida.

Em Lisboa há um pequeno grupo de bancários que se reúne regularmente para um almoço, mas sem a dinâmica desta associação.

Também se refere ao passado: «Ao contrário do que se faz hoje, havia uma personalização no atendimento muito ligada ao cliente. Hoje o cliente é algo anónimo, desconhecido, embora no Interior do país a situação seja ligeiramente diferente.»

Pelo segundo ano consecutivo, Jerónimo Mateus, músico e compositor do Grupo Cro-Magnon, abrilhanta o dia com as suas canções e diz-nos que é uma ideia salutar esta rapaziada reformada, que tantos anos trabalhou em conjunto, criar raízes que se vão perpetuando. Estes encontros são natais desta família bancária.

É com muito prazer que participo porque muitos destes funcionários bancários, além de me conhecerem, lembram-se muito bem do meu pai. Como cliente daquele banco sempre o trataram com muita dignidade e apreço. Ainda hoje, passados tantos anos, me perguntam: «Como anda o seu pai?»

Já o sol se esconde no poente, lá para o lado de Lavacolhos, e ainda se canta «A Tasca da Estação», música e letra de Jerónimo Mateus.

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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