Queres ganhar o jackpot? Dorme na auto-estrada

António Pissarra - Raia e Coriscos - Capeia Arraiana

Conta-se uma anedota atribuída a Oliveira Salazar, para ilustrar a sua suposta avareza. Diz mais ou menos o seguinte: «Chega um dos seus colaboradores próximos, todo esbaforido e ao mesmo tempo ufano da proeza que acabara de cometer. Pergunta Salazar: Por que vens tão ofegante? Resposta: Em vez de vir no autocarro, vim a correr atrás dele e assim poupei 25 tostões!! Retorquiu o antigo Presidente do Governo: Ora, grande proeza; tivesses vindo a correr atrás de um táxi e poupavas cinco escudos!!!»

É só fazer as contas: A23 é mais cara que a Auto-Estrada  Lisboa-Cascais

Exercício realizado em 2014 sobre o valor das portagens e o que deveria ser admitindo não SCUT
e equidade no custo/quilómetro

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É só fazer as contas: a A23 é mais cara que a Auto-Estrada Lisboa-Cascais…

Vem este preâmbulo a propósito das anunciadas reduções no pagamento de portagens, nomeadamente nas ex-SCUT, que, por definição eram «sem custos para o utilizador». A verdade é que no âmbito do resgate a Portugal, a cargo da Troika, várias foram a medidas que o Estado Português teve que implementar, a maioria altamente penalizadoras para o Povo Português, mas, como é costume, quando há coisas boas para distribuir não é igual para todos e quando as há más também não. Infelizmente, e o desenvolvimento assimétrico do País assim o demonstra, o Interior recebe sempre menos e acaba a pagar mais.

Como em tempo tive oportunidade de demonstrar, com uma regra de três simples, numa ida da Guarda até Lisboa, ou a inversa, ficava mais caro o custo do quilómetro na A23 que no troço da A1 de Torres Novas a Sacavém. Era igualmente mais caro que na auto-estrada para Cascais, região onde, pelos vistos, vivem as pessoas mais carenciadas do País e onde não há transportes públicos.

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O próprio exemplo é a demonstração como a introdução de portagens nas SCUT foi altamente prejudicial
para o Interior já tão castigado

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Escusado será inventariar aqui os imensos prejuízos que a introdução das portagens trouxe ao Interior. Por exemplo os muitos naturais que vivem e trabalham em cidades do Litoral e que vinham com regularidade «à terra» tiveram que «deitar contas à vida» e passaram a vir só por motivo de força maior ou nas épocas festivas mais importantes. Também as empresas sentiram nos seus orçamentos esse adicional custo da interioridade.

Como atrás referi, quando chegou a hora de cortar, no Interior foi «a torto e a direito», eliminando serviços, desinvestindo noutros; e para castigar os cidadãos e as empresas foi «pela medida grande», como o demonstra o caso das portagens.

Quando os partidos «enchem a boca» com a emergência de fazer alguma coisa para salvar o Interior e se observa que, muitas vezes, o que se diz não passa de boas intenções e meros paliativos, pensava-se que, de uma vez por todas, se encarasse o assunto de frente com medidas que, efectivamente, se fizessem notar, não somente nos soundbytes informativos, mas numa mudança clara e concreta de paradigma. Afinal, os descontos que se anunciam não são muito diferentes da anedota de Salazar e somente fazendo vida na auto-estrada se notaria algo de substantivo na despesa com portagens.

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«Raia e Coriscos», opinião de António Pissarra

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