Os meus 60Th

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Finalmente cheguei aos 60 anos. Tinha uma festa planeada em Paris, terra mítica do amor, mas em face das minhas novas funções, fiquei de serviço à espera que chegasse o bilhete electrónico para embarcar no avião. Mas «alguém» lembrou-se do velhote e enviou uma fada, negra neste caso, que me concedeu um desejo. Entrem então nesta aventura, de alguém que nada sente o tempo a passar.

Os meus 60th

Os meus 60th

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Puxo do meu castelhano puro e invoco o herói Viriato…

«Quero ser agente secreto!» Por esta a fada não esperava de todo. Mas o desejo foi-me concedido. De repente, na mala do computador, aparecem passaportes de todo o lado, com os nomes mais birarros, e pizarros, cartas de condução, cartões bancários, boletim de vacinas internacionais e um envelope. Em branco, o que aumenta o suspense!

A missão era bizarra (lá está!). Olivenza, era uma espécie de Palestina Ibérica. Território português ocupado pelo usurpador «castellano», visto que nem respeitaram a vontade dos extremenhos que pretendiam uma paz harmoniosa. A Espanha seguiu o caminho da velha Britania e «Saliu» da UE, contra a vontade de algumas autonomias, como foi o caso da Extremadura. A ponte da amizade nova, inaugurada com pompa e circunstância num passado de grande aproximação ibérica, foi abaixo outra vez. O caminho de Olivenza era por rio ou ar.

Com 60 anos jamais ser pára-quedista, pelo que optei pelos fuzileiros, sediados secretamente nas profundezas da antiga Aldeia da Luz, que na calada da noite e a remos me fizeram desembarcar na borda da meseta ibérica, entregando-me um papel com os horários possíveis para o meu regresso.

O objectivo era libertar um velho teimoso que ainda insistia que Olivenza, era Olivença, e nunca aceitou a presença castelhana na sua terra. A contenda vem desde o século XIX, após a libertação da ocupação francesa, em que por esquecimento, esta «Nueva Palestina», ficou no país vizinho. E dita família tem sido o porta estandarte da lusofonia há quase 300 anos. Como o tempo passa e tudo fica na mesma!

A siesta espanhola é um dos segredos da vitalidade daquele povo. E para trazer de volta o compatriota tinha de entrar na cárcere (não confundir com Cáceres!), disfarçado de fantasma, tipo sonho lusitano, e dar a entender à guarnição que teriam um pesadelo. Faltava-me a armadura, porque o regresso de D. Sebastião, nem o Sam Mendes se lembraria no próximo 007. Porém ainda era madrugada e tinha de fazer algo para elaborar um plano e também, passar o tempo.

Resolvo ver a mala do computador. Eram diversos passaportes, mas de noite era mesmo difícil de ver. No meio das opções encontro um havia com o nome de Lopez Pizarro. Era esse que escolheria se tivesse um cavalo. Enterrei os restantes, nas margens do seco Guadiana, tendo ficado com o «Permiso de Conducir» e um cartão de crédito (espero que funcione). Embora tenham saído, os espanhóis ainda mantêm a documentação europeia, devido às convulsões internas. A moeda é que voltou a ser a peseta com um câmbio óptimo para o Euro.

Começo então a caminhar pelos campos cultivados até que encontro um ancião desgrenhado e com barba por fazer, sentado num tronco de eucalipto, bem confortável e segurando estoicamente um cajado: «Onde pensas que vais português?» Como este meu amigo estava enganado! Puxo do meu castelhano puro e invoco Viriato o herói da «nuestra Extremadura». O ancião mirou-me com desconfiança, não deixando de me pedir tabaco. A saída da UE tem sido um pesadelo para esta gente. Só falta mesmo pagar imposto pedestre.

Por sorte ainda tinha tabaco de Angola, só que com sabor a mentol, ficando o meu anfitrião a olhar para mim com um ar ainda mais desconfiado. Não, nada disso, não era «maricon». Aliás com 12 filhos, era um verdadeiro cavalo varão. A questão é que em Angola para trocar dinheiro tinha-se de comprar algo, e o tabaco de mentol era ligeiramente mais barato.

Não muito convencido, o ancião afastou-se um pouco de mim naquele longo tronco deitado na margem esquerda, mas convidou-me a sentar. Em cada puxada fazia uma careta insultando a vida. O meu castelhano fluente possibilitou-me arranjar um amigo. O seu clube era o Real, tal como o meu, adorava o queijo «Manchego», tal como eu, o vinho, muito melhor que o português, aí torci o dedo para concordar, e as mulheres. As «Conchitas» eram a sua paixão. Deixaram-no na ruína!

Lembrando-me do Comendador, tive de contar um pouco da minha vida, naquele enquadramento obscuro. Fazia contrabando de pacotinhos de açúcar para o café. Tendo roças em Cuba, produzindo toneladas daquele quase pó branco (nada disso que pensam!!!), usando as potencialidades do Rio Guadiana para fazer entrar o açúcar clandestinamente em Espanha, já que em relação ao café, o problema está mais que resolvido.

O velho senhor sentia-se numa tourada. Mas o diabo do touro rodeava-o e ele não o apanhava. «Y donde estan?» Tinha dois pacotes no bolso… por sorte . Em língua chinesa dada a sua influência global. Obviamente tratava-se de uma pequena amostra.

Encostando a cabeça ao cajado, fecha os olhos e apelida-me de autentico aldrabão. Só poderia ser mesmo português. Nem sabia mentir!

Já me começavam a faltar argumentos. Também fecho os olhos com o lusco fusco do nascer do sol, nas minhas costas, até que lhe pergunto em tom bem firme: «Porquê?»

– Estou à espera há semanas de um português como tu para me levar à minha terra, o meu ou nosso País! Mas com uma história dessas, valha-me Deus! Foi com o vinho. Aqui ninguém prefere o vinho de castela ao Reserva Alentejano.

Olhou ainda para o meu relógio: «Francamente aqui é mais uma hora!»

O tom com sotaque de Camões levou-me a corar a face de vergonha. Só podia ser mesmo o tal homem. Mas como é que ele se escapou da prisão?

Com as Conchitas «pressupuesto». Pagou-lhes bem e desta vez o serviço incluía bebida. Mas com pó branco. Sim desse que faz dormir mesmo. Apanharam as chaves, abriram os portões e foi fugir para aqui. Daí o lamento da sua ruína financeira. A Lola é que lhe ficou no coração.

Para mim foi um balde de água fria. Agora que ia viver uma aventura, sai-me isto!

Mas o homem não se calava. «É melhor irmos andando, porque os guardas andam por aí. Se nos apanham já não há acordos de extradição!»

Acompanho-o com um ar deconsolado, carregando computador, equipamentos de escuta, telemoveis e a documentação do Lopez Pizarro.

Outra que me esqueci! Os meus documentos originais ficaram enterrados na areia. Sei lá onde!

Chegados ao ponto de encontro, os fuzileiros já desesperavam de tanto esperar. Tanto tempo. O fuso deles é o da NATO, seja lá qual for.

O certo é que desta vez zarpamos a motor e a alta velocidade a caminho da Aldeia da Luz, mas submersa.

No caminho o meu novo amigo questiona-me pelos papéis. Sim os documentos com a nova identidade que Portugal lhe vai atribuir.

Sim, claro, estão numa cova com outros documentos enterrados bem no fundinho na margem esquerda do Rio Guadiana, lembrava-me com amargura.

Resolvo então questionar: «Tem alguma ideia do nome? Deram-me tantos…»

A ansiedade toma conta de mim, aguardando expectante pela resposta:

– Claro. Alfonso de Lopez Pizarro, natural de Miajadas, Província de Cáceres!

Até aos 70th!

Festa adiada para os 70

Festa adiada para os 70

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Juromenha, 25 de Fevereiro de 2020.

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Os meus 60Th

  1. Alex diz:

    Coitada da fada madrinha.. Que susto. 😅
    Mas o argumento tá giro sem dúvida… E continuas a sonhar em ser agente secreto..

  2. Nelson Geada diz:

    Boa Alçada!!!! Bem escrito e melhor pensado!

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