Magia da contemplação

Fernando Capelo - Orelha - Capeia Arraiana - 180x135

O tempo vai sendo de primavera prematura, mais quente que fria, bastante húmida e muito verde. Nesta Serra que me acareia, as árvores parecem-me mais altas. Porém, as sombras das ramagens nunca frustram o sol. O renovo que atapeta os chãos, cheira a fresco e embevece.

Castro do Jarmelo

Castro do Jarmelo

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E há os pássaros que se arvoram donos da paisagem…

As encostas zigzazeiam-se de giestas em verde/cinzento contrastando com a cor forte das ervas renascidas. Só mais tarde, já primavera adentro, surgirão as maias de amarelo radical.

Destacam-se, ainda, outras tonalidades. Medram granitos pardos e musgos a pintar os muros de verde baço. Enfatiza-se uma minoria de pedras que se ficam em castanho claro exteriorizando o próprio âmago depois de recentemente mutiladas por mão humana.

A Serra não é, de facto, de verde absoluto.

E, claro, há os pássaros que se arvoram donos da paisagem. Sobrevoam horizontes, em bandos, com olhares esmerados insinuando interpretações do infinito. São de pluma escura e decalcam, no chão esverdeado, silhuetas ampliadas e andantes empenhados em chilreares de encanto.

Mesmo sem ter chegado a primavera, os dias vão-se reiniciando azuis e mornos. Refazem-se, a meio, algo quentes e doirados e fecham-se nas luminosidades do ocaso sendo, estas, frescas e avermelhadas.

Há, pois, por aqui, um meio mundo de luz e outro meio de vegetabilidade a decretar entretons.

E, nisto, se vão dilatando os dias, fomentando um sentir quase divino que se situa entre um prazer inveterado e a magia da contemplação.

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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