Casteleiro – Modos de falar que adoro

José Carlos Mendes - Orelha - Colaborador - Capeia Arraiana - 180x135

Cada aldeia tem as suas expressões e os seus modos de dizer. Adoro recordar o que sempre ouvi na minha infância no Casteleiro. Modos de dizer, entoação, pronúncia… Sinto o dever de salvaguardar o que puder… Espero que se ria ao tentar ler como eu escrevi.

 As pessoas que assim falavam hoje estão no Lar...

As pessoas que assim falavam hoje estão no Lar…

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Como o povo falava…

Não tenho melhor tarefa do que esta de recordar para ficar para sempre o que vi e vivi quando era menino de 6 anos.

Sempre me dediquei a duas coisas: perceber os porquês destes modos de falar e tentar descobrir de onde vêm as palavras que o Povo usava e as pronúncias tão especiais que sempre ouvia – e que só percebi mais tarde que nos livros não era assim que as coisas se diziam e escreviam. Ainda assim, não há nada melhor do que registar para memória futura como era que o Povo falava e o significado das suas expressões tão especiais.

Ficam aqui alguns casos, mais uma vez.

Marrano no curral – sabe o que era?

Agora já quase não há, pois acho que ninguém se dá ao trabalho. Mas… sabe do que falo?

Não se tem um porco lá no curral, o que lá está é um marrano. (…) Com a matança do marrano tinha-se alimento para meses: a carne, os ossos, os enchidos. Carne gorda e costeletas. Presunto e carne assada. E todo o filão das morcelas, tchòriças, farr’nhêros, butchêras, palaio, chouriço de ossos»…
Modos de falar e de dizer que adoro.

Leia muito mais… (Aqui.)

Como se apodavam pessoas e comportamentos?

Nisso, então, há um rol imenso de adjectivações e de modos de fixar de forma rápida um mundo de análise dos comportamentos alheios. Eis alguns, apenas meia dúzia para se ter uma ideia:

– Tchafesga das grelhas – pessoa pouco desenrascada.

– Seveja – invejosa, pessoa que se tivesse uma coisa de que gostasse se isolava para gozar o momento: «Está ali toda seveja com a boneca».

– Lindrisca – que se mete na vida alheia, que quer saber tudo e anda sempre a «cheiretar».

– Lambelha / melhor: limbelha – mulher metediça, sempre a entrar onde não é chamada. Andar ao despique – andar à disputa, em, competição.

Mandongo – mulher mal amanhada, mal vestida. Mas também servia para qualificar certos comportamentos desagradáveis para o «orador» ou a «oradora».

Rebaldêra – pouco fiável, que se mete em tudo e que pode ir ao ponto de caracterizar uma pessoa que facilmente entra em propriedade alheia para se abastecer.

Veja se entende estas frases fortes:

Aquilo é que é um pantchanas – é um tipo enrascado.

É uma tchoca – é uma porca, pouco limpa no que faz.

É um patchácolo – é um pàtó, um parvalhão que não é rápido a perceber e a actuar.

E esta?
«Arremend ó tê pano e chegará-t ó ano.
Torn ó àrremindar e tornará-t a chegar!»

Procurei transcrever correctamente a sonoridade das palavras – única forma de ser rigoroso nestas coisas.

Chega. Para a semana há mais, para não fartar ninguém.

Boa semana!

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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