Saudades de um bom cabrito

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Nesta minha estadia no estrangeiro, um colega angolano, convidou-me para provar o sabor do «cabrité», uma iguaria feita com cabrito assado na brasa, mas com uma envolvência tão real, que até assistimos à preparação do animal antes de ir para a grelha. Não deixa de ser uma forma inteligente, como me foi dito, para saber que não é «cãoté». O segredo está no molho, sem dúvida único, mas a qualidade da carne não se compara ao cabrito da Raia. Graças a Deus!

Saudades do cabrito raiano

Saudades do cabrito raiano

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Até hoje não provei um cabrito como o Raiano…

Agradecendo obviamente este amável convite provar o sabor do «cabrité». Tive a oportunidade de provar esta iguaria do Leste de Angola, sem contudo de me dar saudades dos tempos que ia aos Fóios saborear o cabrito de leite, único no mundo.

A bebida também não é a mesma. Aqui, no Leste de Angola é a cerveja, contrastando com a pureza do vinho tinto beirão, que ajuda a puxar pelo paladar da carne gostosa do cabritinho que pasta nessas terras mágicas.

Obviamente que um estrangeiro que nos visite nos Fóios deve preferir o cabrito da sua origem. Tal como é legítimo o contrário. E de facto comprovo que até hoje não provei um cabrito como o Raiano.

Tenho é pena que, nós portugueses, não saibamos promover o melhor que temos. E nestes países onde ainda existe alguma matriz cultural que nos identifica, os nossos produtos poderiam ser uma alternativa aos pratos tradicionais ou então, como faz o Comendador Nabeiro, pega nos produtos locais e transforma-os de forma a que os consumidores fiquem agradados sem deixar de ter subjacente a sabedoria lusitana. Facto é que em Angola todos gostam do triângulo do Comendador, nunca tendo sabido que em tempos este país era o terceiro maior produtor mundial. Num tempo em o Comendador se limitava a saltar à vara na fronteira com Espanha.

Se calhar o «cabrité» feito por um mestre raiano teria outro sabor, sem deixar de ser «cabrité». Os portugueses são mestres na culinária e fazem milagres nos pratos que confeccionam.

A trágica ladainha de um povo desgraçado só está efectivamente na nossa cabeça. As potencialidades que usufruímos são imensas, e um tal de Porter, quando cá veio e disse o que hoje se constata, o turismo e a gastronomia são «o nosso forte», cilindrou o desgraçado com fortes críticas, algumas bem mordazes, porque alguém se achava que ainda vivia no tempo de D. João II, e as nossas empresas até poderiam ser multinacionais de referência, como as saudosas Portugal Telecom, Grupo BES e tantas outras que nem me lembro.

Até os algarvios, no aeroporto de Luanda, têm um restaurante, num cantinho, e está sempre cheio.

Será assim tão difícil exportar cabrito, ou aproveitar os locais, e fazer uma iguaria diferente mas que nos honre com capacidade empreendedora?

Pois é. Não há subsídios comunitários. Talvez no próximo quadro comunitário. Mas com tantos Brexit´s vamos ter Esperança. Sagrada, como o Clube de Futebol do Dundo.

Cáceres, 13 de fevereiro de 2020.

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

4 Responses to Saudades de um bom cabrito

  1. José Geraldes diz:

    Boa sugestão. O pastel de nata, hoje internacional, também conheceu o mundo com uma sugestão do “Álvaro”.
    Talvez oportunamente possamos ir aos Fóios saborear o tal cabrito acompanhado com um tinto da terra.
    Abraço e boa estadia

  2. Antonio José Alçada diz:

    Obrigado ao meu amigo e minha amiga.

  3. Silvestre Rito diz:

    Um dos problemas é que cada vez há menos cabritos! um dia destes já nem nos Fóios conseguimos comê-lo! faz-me lembrar uma história que me contaram ,duns alemães que provaram borrego na zona da Guarda e gostaram tanto que encomendaram logo 1000 unidades para exportar para a Alemanha! mas onde estavam os 1000 borregos ? em lado nenhum! O nosso problema na área caseira é um problema de dimensão! Até nos Fóios já não se consegue comprar quase queijo caseiro! porquê? cada vez há menos para vender pq não há pastores! veja-se por Ex.º a Irene- nos Fóios,onde estive no sábado, chegou a ter 200 ovelhas e cabras; agora tem 25 ! esta é a realidade nua e crua, infelizmente!

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