Ecos de um percurso pelo Latim

Isidro Alves Candeias - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Feito o 2.º Ciclo Liceal, no Colégio do Sabugal, em regime de matrícula, frequência e exame, só voltei a este regime de ensino, digamos oficial, com a entrada na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa.

Livros de Latim do Curso Complementar Liceal

Livros de Latim do Curso Complementar Liceal

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O meu eterno Bem-Haja à Doutora Maria Teresa Mega Ferreira Azinheira…

Temos, desse modo, que o 6.º e 7.º anos (3.º Ciclo Liceal) e ainda o Ano Propedêutico, sucedâneo do Exame de Admissão ao Ensino Superior e percursor do atual 12.º Ano, foram preparados em regime voluntário, com avaliação, necessariamente, oficial.

Então, como agora, as disciplinas dos curricula, embora do mesmo peso na composição da nota final do ano ou curso, não se revestiam todas de igual complexidade na aprendizagem e na prestação do respetivo exame.

Tomemos, a título de exemplo, duas dessas disciplinas do antigo 7.º ano, a saber: «Organização Política e Administrativa da Nação», por um lado, e «Latim» por outro.

Relativamente à primeira, estudava-se o Manual, num ou dois meses, por vezes em menos tempo, sem necessidade de qualquer apoio de lecionação, fazia-se o exame no Liceu e dispensava-se da prova oral, não obstante só se dispensar com o mínimo de 16 (dezasseis) valores na prova escrita.

O mesmo se podia verificar, também, com Filosofia, em que estudando, mesmo sem lecionação e apenas durante um ano, o Compêndio de J. Bonifácio Ribeiro, conhecido pelo Bonifácio, ou os dois Livros de Augusto Saraiva, passava-se no Liceu Nacional da Guarda com 14 valores na escrita e manutenção do 14 na oral.

No que concerne ao Latim, o caso mudava de figura. Um aluno via-se grego para conseguir dominar, literalmente falando, a «Initia Latina» e o «Latini Auctores», dos 6.º e 7.º anos, com uma Gramática de Casos, Declinações, Verbos Depoentes e outras complicações, ainda que apoiado num «Erudimini» (Exercícios de Latim) e, necessariamente, com recurso a lecionação.

Livro de  Sonetos «Perennis Lingua» e os «Lusíadas»

Livro de Sonetos «Perennis Lingua» e os «Lusíadas»

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Em obediência ao título, que encima os presentes «Ecos», passemos, então, ao percurso pela disciplina de Latim, subjacente ao lema:

Ver-se grego para passar a Latim

Decorria o ano letivo de 1973/1974, quando, no início de janeiro de 1974, entendemos prosseguir a caminhada liceal, com as cadeiras de Francês e Latim, em regime voluntário.

Alguém nos indicou uma excelente Professora, com Licenciaturas em Românicas e em Clássicas, disponível para a lecionação fora do meu horário de trabalho e do seu horário escolar em Colégio Particular e também com disponibilidade para os sábados, o que assentava, na perfeição, ao pretendido.

Foi magistral no ensino do Francês, com sucesso compatível alcançado, mas o que nos motiva no presente percurso é a história da cadeira de Latim, a fazer ou a tentar fazer em seis meses de explicações, duas vezes por semana, de janeiro a junho, consistente na matéria de dois anos letivos, 6.º e 7.º anos.

Começou a Dra. Maria Teresa por nos apresentar o programa da matéria e as regras de avaliação da disciplina, que desconhecíamos por inteiro.

Dado o pouco tempo para a lecionação/aprendizagem, foi entendido privilegiar-se a prova escrita, embora com algumas incursões pelas lições dos Compêndios.

Se conseguisse nota que permitisse ir à oral, teríamos, depois, oportunidade e necessidade de preparar, não as trinta lições, para o Júri de Exame escolher a que entendesse para a prestação da prova, mas apenas três ou quatro lições, e seria essas relação a entregar ao Júri, para o mesmo poder escolher uma delas.

As regras estabelecidas, soube então, consistiam, efetivamente, na entrega de uma relação de trinta lições, mas, atendendo ao facto de ser já casado e a trabalhar, a tempo inteiro, poderia, eventualmente, o Júri aceitar a reduzida relação e passar-me no exame, se viesse a provar merecê-lo.

As regras eram estas, a estratégia, em caso de êxito na escrita, era a enunciada, a sorte protege os audazes e o «Destino a Deus pertence».

Estávamos, então, longe de pensar que no dia 25 de abril desse ano de 1974 iria acontecer um Revolução no País, com alterações em muitos campos, designadamente na nota mínima de escrita para dispensa da oral, no 3.º Ciclo Liceal, ou Curso Complementar Liceal, que, pensamos, seria, então, de 14 valores.

A nota mínima para a dispensa, pelo menos nesse ano, passou de 14 para 10 valores e o 12, alcançado na escrita, devido mais à proficiência da Professora do que ao valor do aluno, parece ter caído do Céu, o que acaba por dar razão ao dito de que o «Destino a Deus pertence».

A Doutora Maria Teresa voltou, mais tarde, a ser muito útil em Português do 7.º Ano e Língua e História Pátria, Francês e Grego do Ano Propedêutico, este apenas lecionado em Programa de Televisão, pelo que para aprender o Grego, mesmo como disciplina de iniciação (não requerendo, portanto, conhecimentos anteriores) o aluno ainda se veria mais grego do que para aprender o Latim e, daí, o meu eterno Bem-Haja à Doutora Maria Teresa Mega Ferreira Azinheira.

Mais duas breves referências ao Latim, para dizer:

1.º Que em janeiro de 1973, a então minha namorada e hoje mulher de há 46 anos, me ofereceu, do Pe. Clemente de Oliveira, o «Perennis Lingua», Livro de Sonetos, de vários Autores Portugueses, com a sua tradução para Latim;

2.º Que em março de 1992, o saudoso e insigne humanista Prof. Nicolau Firmino me ofereceu, com uma imerecida dedicatória, um exemplar de «LVSIADAE», edição latina dos «Lusíadas», pelo acima referido Frei Clemente de Oliveira, de que ele, Nicolau Firmino, foi Editor.

A Obra está editada em Latim, mas do seu «Praefationis Instar», em português, podemos respigar o primeiro e o último verso do Poema, sendo…

«As armas e os barões assinalados;
Sem à dita de Aquiles ter inveja,

…o alfa e o ómega de um poema que, se começa pela exaltação do Homem português, termina com a memória de um símbolo universal: Aquiles, impulsivo, mas heróico; arrebatado, mas sensível aos rogos de um «pai».

São muitos os Provérbios Jurídicos em Latim e muitas mais as expressões nessa língua, dita morta, mas bem viva para expressar, com grande verdade, compreensão e propriedade, o que, muitas vezes, as línguas vivas não conseguem.

Trá-los-emos nuns próximos Ecos.

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Ecos, crónica de Isidro Candeias

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