Águas Belas – Forno comunitário

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

O forno de Águas Belas foi recuperado e ganhou a placa de «forno comunitário», o que realmente foi. Mas, muitos estão longe de imaginar a sua importância, no tempo em que toda a gente aí cozia o pão. Cozer o pão, era um acontecimento, cheio de rituais e cuidados, para que tudo corresse bem e saísse bom.

Forno Comunitário de Águas Belas

Forno Comunitário de Águas Belas

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No forno o pão crescia e tomava cor…

De quinze em quinze dias, desamuava o forno. Para o primeiro forno, era preciso um bom carro de giestas e piornos e, às vezes, nem chegava. Depois, seguiam-se, as fornadas, dia e noite, para o forno não arrefecer, até todas as famílias cozerem. De cada vez, podiam cozer quatro ou cinco famílias, conforme o que cada uma cozia; havia famílias com muitos filhos que coziam muito pão.

Quase sempre se cozia o pão com as mesmas parceiras, num trabalho sincronizado de mulheres e homens. As mulheres amassavam, ao mesmo tempo, para que, pela mesma hora, o pão estivesse finto. Quando se confirmava isso, as mulheres começavam a tender e os homens a preparar o forno.

Colocavam lenha (cada família levava um bom feixe) dentro do forno e deitavam-lhe o lume; mexiam-na, de um lado para o outro, com um ranhadouro, até as paredes e o teto ficarem brancos, sinal de que estava quente; puxavam o borralho, com um rodo, até à porta; e varriam-no, com um varredouro.

Entretanto, os tabuleiros do pão tendido, já tinham chegado. Começava-se, então, a meter o pão, à vez, até toda a gente terminar. O pão tinha de ir marcado, um sinal feito na massa, um pauzinho ou outra coisa, para se saber, depois, a quem pertencia.

No forno, o pão crescia e tomava cor; quando parecia cozido, tirava-se um, batia-se-lhe, por baixo e, se estivesse cozido, dava logo um som clarinho; se fosse um som pesado, tinha de se voltar a meter e esperar que cozesse bem. Quando se tirava, a dona agarrava-o, com um pano nas mãos, para se não queimar, punha-o no tabuleiro e embrulhava-o.

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«A minha terra é Águas Belas», crónica de Maria Rosa Afonso

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