O Zé Lopes

António Alves Fernandes - Orelha - Capeia Arraiana - 180x135

Estava na época sazonal da apanha da azeitona na Cova da Beira: redes, bate‐palmas, vibrações nos troncos das oliveiras e filas intermináveis para o Lagar Cooperativo. Foi neste cenário, que a maioria dos nossos governantes nunca viveu nem conheceu, em que recebi a triste notícia do falecimento do José Lopes – o nosso querido Zé Lopes. Mas recuemos no tempo para conhecer o percurso do Nosso Homem.

O actor José Lopes morreu, sozinho, numa tenda, sem meios para se sustentar (Foto: D.R.)

O actor José Lopes morreu, sozinho, numa tenda, sem meios para se sustentar (Foto: D.R.)

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Deu tudo aos outros e acabou sem nada…

José Manuel Lopes nasceu a 31 de Março de 1958. Casapiano, frequentou o curso de Antropologia Social, mas cedo se interessou pelo Teatro, participando como actor em diversas peças, entre elas «Os Negros», de Jean Genet, com encenação de Rogério de Carvalho, «Vida e Morte de Bamba», de Lope de Vega, com encenação de Luís Miguel Cintra ou «Epopeia de Gilgamesh» com tradução de Pedro Tamen e encenação de Adolfo Gutkin. Esteve presente no Festival Internacional de Teatro de Lovaina na Bélgica com a peça «Eu, Antonin Artaud» e no Festival de Teatro de Sitges (Barcelona) com uma peça encenada por Adolfo Gutkin dedicada ao mito de Drácula. Colaborou ainda com Luís Miguel Cintra na docência da disciplina de direcção de actores na Escola Superior de Teatro e Cinema.

Enquanto actor de Cinema, preferiu sempre trabalhar em produções independentes: filmes como «Adeus Lisboa» de João Rodrigues, «Interrogatório» de Maria Mendes e José Pedroso ou «Longe» de José Oliveira, seleccionado para o importante Festival de Locarno. Ainda tive o prazer de contracenar com ele, eu como figurante, no filme «Guerra» do mesmo José Oliveira, na saudosa casa «Amigos do Minho» em Lisboa. Também na música, o Zé Lopes era um excelente tocador de viola (ainda
muito novo já acompanhava o Zeca Afonso) e um profundo conhecedor e pesquisador da musicalidade ancestral do nosso povo. Quem não se lembra de «Ir e vir ao mar e talvez não voltar»?

Conheci‐o há cerca de uma década nos primeiros «Encontros Cinematográficos» realizados no Fundão. Recebi‐o, junto a outros companheiros das lides cinematográficas, na Quinta da Nave de Cima em Aldeia de Joanes. Depressa criei empatia com ele, sempre divertido, curioso e pronto a ajudar. Lembro‐me que, apesar das tertúlias cinematográficas se prolongarem pela noite dentro, ele era o primeiro a levantar‐se. Muitas vezes eu acordava e já estava à minha espera para me apoiar na «reforma agrária», juntava‐se a mim na rega ou ajudava‐me a transportar fruta. Quando os «Encontros» terminavam, a minha Esposa preparava‐lhe sempre um «lanchinho» para uma semana. Voltava todos os anos, amava o Fundão, dizia a sorrir que era o seu «Paris Texas» e o último reduto de resistência cultural no país.

Várias vezes o apanhei a beijar o chão que pisamos e nunca mais esqueci esse gesto simbólico. Ficava todo arrepiado, lembrava‐me o Papa João Paulo II quando chegava pela primeira vez a um
país. Confrontado com tão dignificante atitude, explicou‐me que dada a generosidade das gentes da Beira, este local lhe estava para sempre no coração e beijava a terra como forma de
agradecimento.

Muitos outros encontros se seguiram em Aldeia de Joanes, no Fundão e em Lisboa. Não posso esquecer a sua disponibilidade para se deslocar à Associação Desportiva Cultural e Recreativa de Aldeia de Joanes, para abrilhantar musicalmente, com a cantora Marta Ramos, a apresentação do meu livro «O Nosso Homem». As suas actuações foram um verdadeiro sucesso nessa tarde memorável em Março de 2017.

A vida proporcionou‐lhe aplausos nos palcos de Teatro, nas salas de Cinema, nos convívios culturais, mas também se atravessou com muitos espinhos: um divórcio muito complicado, uma precariedade que afecta os verdadeiros artistas que não se vendem por «dá cá aquela palha», um desemprego de longa duração, o fado português de o mérito artístico não ser reconhecido, a doença e a pobreza extrema.

Durante muito tempo recusou, com a altivez de um príncipe, qualquer espécie de ajuda e, quando a obtinha, logo a distribuía por quem mais precisava. Era pobre (não de espírito) mas distribuía
generosidade como um Rei. Estava doente mas perguntava sempre pela nossa saúde. Deu tudo aos outros e acabou sem nada…

Aos 61 anos, este andarilho da cultura foi encontrado morto na tenda onde dormia (desde que a segurança social lhe cortara o rendimento mínimo), nos arrabaldes de Sintra, junto a uma estação
de comboios… Não se sabe a hora nem o dia em que tal facto aconteceu. Dizem que morreu de causa desconhecida…

Já não volto a ver o Zé Lopes a beijar as terras da Cova da Beira, a tocar, a representar, a dar‐me um apertado abraço, a «animar a malta». Irei vê‐lo vivo nos ecrãs do cinema. Nas artes e na cultura o Zé Lopes nunca morre, assim como no coração dos seus companheiros e daqueles que tiveram o privilégio de o conhecer.

Zé Lopes, Homem Livre, descansa em Paz.

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

2 Responses to O Zé Lopes

  1. João Manuel Nunes e Seana diz:

    Descansa em PAZ, AMIGO !

  2. Antonio José Alçada diz:

    Um texto fantástico que toca uma realidade triste. Somos um povo que raramente acarinha os seus heróis, aqueles que defendem esta cultura que nos diferencia dos outros povos. Histórias como às do Zé andam por todos os cantos de Portugal. Um país que não defende a sua arte, a sua cultura e a quem se dedica de alma e coração a está causa, não pode entender o desenvolvimento social

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