Sortelha – Monte de São Cornélio (1)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

O Monte de São Cornélio é uma elevação rochosa nos limites da povoação Quarta-feira, anexa da freguesia de Sortelha. Quem «trepa» até ao topo é agraciado com paisagens fabulosas num horizonte a perder de vista. Aproveitar este património histórico e natural para fins turísticos pode ser um pequeno (grande) contributo para o desenvolvimento regional.

Cumo do Monte São Cornélio

Cumo do Monte São Cornélio

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O nome e a lenda…

O monte com 1008 metros de altitude ganhou este nome por aqui ter andado por aqui São Cornélio a evangelizar, segundo a tradição popular, versão que acolheu a opinião de alguns.

O nome Cornudela é referido no Foral da Vila do Touro de 1220 servindo de demarcação do termo do concelho.

Joaquim Manuel Correia, o grande escritor sabugalense do século passado, defende noo seu histórico livro «Memórias Sobre o Concelho de Sabugal» (pág. 255):

«Diz-se que o nome lhe proveio de ter ali estado o Papa São Cornélio, o que é pouco verosímil. O que parece natural é que algum devoto ao edificar a ermida cujas ruínas existem no cume e sobre cujas paredes assenta o marco geodésico o dedicasse a São Cornélio, colocando nela a imagem desse santo.»

Parece-me uma opinião aceitável. São Cornélio foi Papa que viveu no século III, tendo falecido em 253 d.C. e não consta que tenha viajado para esta região.

Nas «Memórias Paroquiais, de 1758» (Arquivo Nacional da Torre o Tombo: Sortelha, Castelo Branco,- Memórias paroquiais, vol. 35, n.º 210, págs. 1513 a 1526), encontramos informações sobre o Monte São Cornélio, a lenda do santo e a capela:

«…E a capella de São Cornelio, que está feita de novo, e se hade colocar o dito Santo nella para Septembro que vem, no dia do dito Santo; Fica esta capella de São Cornelio no cume de hum monte, que para irem os materiais para se fazer se levou tudo às costas, por não poder lá chegar besta nem carro; e foi feita com esmolas, que athe os tempos prezentes esteve o Santo sempre em huma lapa; he muito milagrozo e advogado dos sezões, E concorre gente de varias partes, e ainda de fora do Reyno em romagem, como he de Espanha, que dista deste monte sette legoas. Disse que algumas vezes se tinhão levado o Santo da dita Lapa para a Capella de Santa Barbara, e que ao outro dia achavão o Santo outra vez na sua Lapa aos temporais, pois que quando chove também neva na ditta Lapa.»

Lapa onde terá aparecido o Santo

Lapa onde terá aparecido o Santo

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A lenda mantém-se: «O santo apareceu numa lapa a um rapaz, onde fazia bastante frio, chovia e nevava, trouxeram-no para a Igreja de Santa Bárbara, mas ele ia novamente para a lapa. Então as pessoas decidiram fazer-lhe uma capela e colocaram lá a imagem do santo.»

Em consequência o povo terá feito a capela com esmolas. No século XVIII, faziam romagem ao local pessoas de diferentes regiões, incluindo Espanha.

No lintel da capela existe a inscrição seguinte:

E
PELAACARId NO
ANNO dE 1754

É provável que corresponda ao ano da construção. Sendo assim, a capela de Santa Bárbara, situada no povoado, deverá ter sido construída antes.

O arqueólogo da Câmara Municipal do Sabugal, Marcos Osório, refere no artigo «Sortelha: segredos por desvendar» (pág. 25), que em 1811, num mapa das campanhas militares das invasões francesas no Sabugal, é assinalado o nome São Cornelho. Recordo de na minha infância ouvir diversas vezes esse nome, pelo que o erro poderá derivar do modo de falar do povo. Concordo que o nome deriva da fisionomia topográfica do local.

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

2 Responses to Sortelha – Monte de São Cornélio (1)

  1. José Carlos Mendes diz:

    António! Gostei imenso de ler… E sublinho também que na minha infância nunca ouvi falar de São Cornélio. Não: ali era, sim, o Cabeço de São Cornelho, claro. Uma simples e habitual corruptela popular que só dá mais gosto recordar. Repito: nem Monte nem Cornélio: era Cabeço e Cornelho. Que bonito, meu caro. Vamos em frente na promoção das nossas aldeias.

    • António Gonçalves diz:

      Amigo José!
      Também gosto de ler os seus artigos!
      Confirmo que o modo de falar do Casteleiro é o do freguesia de Sortelha! Estou convencido de que o antigo concelho de Sortelha precisa de um museu que tenha por missão a inventariação do património cultural da região, nos moldes que um dia escrevi.

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