Um trabalho prático de ter sido escuteiro

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Nesta minha missão foi necessário recrutar um conjunto de voluntários para efectuar um cadastro de possíveis consumidores de água. Efectivamente, em muitos países, o acesso à designada água potável ainda é uma dor de cabeça, mas nada melhor do que ter uma estimativa da população potencialmente consumidora. Não sendo propriamente um especialista neste tipo de trabalhos, o facto de ter sido escuteiro, permitiu-me com alguma facilidade orientar este grupo de jovens no terreno, fazendo uma selecção natural através do aumento das dificuldades até se alcançar o objectivo.

Trabalho prático no terreno com a juventude

Trabalho prático no terreno com a juventude

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Esta missão é um trabalho para a comunidade…

Foi necessário ir para o terreno e entender a realidade de alguns bairros, de como consomem água. Para isso elaborou-se uma ficha de cadastro, com algumas questões, e com os dados obtidos desenvolver-se uma base de dados que permita entender qual o numero de potenciais consumidores e como, de facto, têm obtido a água para o seu quotidiano.

A ideia partiu de um colega, convidando-se alguns alunos de uma escola, que estiveram em férias escolares, tendo-se dado formação de base no sentido de entender as diferentes realidades socio-económicas. Um bairro urbano organizado é diferente de um bairro urbano antigo e bem diferente de um bairro onde prevalece o desordenamento. E as questões a colocar também são diferentes.

Nos casos onde existem problemas sociais, devido ao desemprego que afecta parte significativa da população, nota-se um modo de vida de subsistência não muito diferente dos tempos antigos em Portugal, onde as zonas predominantemente rurais, tinham 10 e mais filhos, nada faltava e viviam o dia a dia. Curiosamente aqui é muito parecido. A população encontra o seu próprio caminho de sobrevivência, conseguindo com muito esforço manter uma vida honrada.

Esta experiência tem sido muito enriquecedora para todos, e felizmente, já entraram na equipa orientadora jovens estagiários licenciados que também começam a observar que uma cidade tem várias realidades, seja aqui, como noutro local.

Não deixa de ser louvável quem procura padrões de excelência para as suas populações, mesmo sabendo que a tarefa é bem difícil e num contexto realmente diferente do Europeu ou do Norte da América. Mas como a água é vital para todos e a mobilização de jovens sem dúvida é um excelente contributo, a experiência os irá marcar para o resto da vida.

Tal como nas actividades escutistas, é feita uma avaliação no final de cada jornada pelos próprios voluntários, que fomentam e potenciam o enriquecimento do projecto. Ao contrário do que muitos europeus julgam, aqui em Angola, os jovens pensam por si e não temem dizer o que pensam.

O sistema de patrulhas, que tive a honra de aprender, foi implementado. Há um coordenador que tem a missão de orientar os colegas nas ruas, ou arruamentos, que lhe são destinados através de um mapa, entregue no inicio da actividade. Nessa patrulha há também uma equipa de pintura que «casa» o numero da ficha com a habitação.

As patrulhas são designadas pelos Bairros e, entre elas, procuram ir mais além no numero de fichas cadastradas, sendo que a equipa orientadora valida a qualidade da informação, chamando no período de avaliação a atenção dos voluntários que não efectuaram o preenchimento como pretendido. Cabe ao coordenador ir ajudando os colegas com mais dificuldades, para que o projecto seja global.

O facto é que se vai notando uma melhoria continua na informação recolhida, no numero de habitações cadastradas por jornada e na selecção natural dos candidatos. Quem efectivamente não está interessado vai desistindo, porque a própria patrulha vai incrementando o seu próprio ritmo de trabalho.

Ao contrário do que se pensa, não há prémios. Esta missão não é um concurso, mas sim um trabalho para a comunidade.

A única garantia que os espera, para os que chegarem ao fim, é um diploma de Voluntário, que talvez um dia possa servir para os seus Currículos.

Kamakenzo, 4 de Fevereiro de 2020.

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Um trabalho prático de ter sido escuteiro

  1. António Alves Fernandes diz:

    Parabéns…irmão escuteiro. Correm-te nas veias esses ideias.Um abraço de Portugal e do Fundão – Aldeia de Joanes.

  2. Antonio José Alçada diz:

    Obrigado meu irmão Escuteiro e grande amigo. Deus te abençoe

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