Assaltos…

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Estava‐se numa cidade do Interior deste território de grandes heróis nacionais, que quase diariamente são condecorados pelas instâncias superiores da República. Vivia‐se num ambiente pacífico, sossegado e sem alarmismos sociais, convivendo alegremente comunidades de etnia cigana, refugiados, estudantes africanos, imigrantes, turistas e locais…

Assalto à Casa do Benfica na Covilhã (Foto: Record)

Assalto à Casa do Benfica na Covilhã (Foto: jornal «Record»)

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Assalto aos núcleos locais dos clubes grandes

Passavam dias, meses, anos, sem registos de incidentes de grande monta, numa paz social de fazer inveja a outras localidades onde a palavra crime era a mais badalada.

Se noutros centros urbanos as autoridades, apesar dos muitos malfeitores, dormiam a sono solto, naquele nem precisavam de se levantar da cama, tal era o sossego.

Mas, um dia, o povo acordou sobressaltado, os alarmes ecoavam por todas as praças, pracetas, largos, avenidas, ruas, becos e azinhagas, pois a cidade estava a ser alvo de diversos assaltos. Os amigos do alheio, depois de aturado estudo, tinham resolvido atacar os núcleos dos chamados clubes grandes. Se as sociedades desportivas movimentavam milhões, dinheiros a rodos, talvez as suas sucursais tivessem os seus vulneráveis cofres repletos de metal.

Nada melhor do que meter mãos à obra…

No núcleo vermelho, dizem os lesados que conseguiram arrombar a porta principal com um pé de cabra e entrar. Vasculharam todas as gavetas e cofres, só lhes faltou ouvir o hino da agremiação e os ecos dos muitos golos que a equipa marca nas balizas adversárias. Lá levaram perto de um milhar de euros, que o tesoureiro distraído não foi depositar, umas bebidas generosas e alguns maços de tabaco. Caso fossem presos sempre teriam material para apagar as mágoas e matar o vício.

No núcleo verde, com os alarmes desligados, como desligada está a equipa de futebol do campeonato, entraram por uma janela, tipo Romeu e Julieta e, do local do crime, retiraram umas escassas
três centenas de vinténs, além dos prejuízos causados.

Tanto numa agremiação desportiva como na outra, não há director, dirigente ou treinador que possa afirmar que se tratou de um roubo de Igreja ou do tamanho da Torre dos Clérigos.

Seguiram o seu plano de actividades ou caderno de encargos: roubos nos escritórios de advogados, rebuscando as pastas e os forros das togas a fim de encontrarem notas de elevado valor. Só que os causídicos, que são seus defensores nas barras dos tribunais, sabem muito bem onde esconder os milionários honorários, bem trancados em bancos ou a arejar em paraísos fiscais.

O trabalho foi árduo e, para dar tréguas ao esforço, resolveram assaltar uma pastelaria, sempre se saboreava um pastel de natal com um café. Um parco mas merecido festival gastronómico. Confortados, de barriga cheia, ainda se abasteceram de tabacos e garrafas de bebidas.

Uma semana depois destes acontecimentos, houve grande aparato junto da Casa de Justiça, equiparam‐se 25 elementos de segurança, «forças anti-motim», e três cães pistoleiros. O povo assistia atónito, uns afirmavam que o tribunal também tinha sido assaltado; outros, num optimismo sem grande convicção, diziam que os larápios já estavam a ser ouvidos pelo meritíssimo.

Dissiparam‐se as dúvidas. Afinal a «comitiva» era para um casal de burlões, que se passaram por funcionários da Segurança Social.

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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