A minha primeira visita real!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Não pensem que só na Europa há pequenos estados dentro de um estado. Refiro-me a pequenos, mesmo pequenos como Christiana, em Copenhaga. Neste caso, no municipio do Chitato há um reino, curiosamente apelidado da Fortuna, em honra a um antepassado nosso que muito fez por cá. A visita foi de estado. A delegação foi recebida num contexto profissional, mas não deixou de respeitar o protocolo real, como por exemplo não podia ter o chapéu do meu humilde fardamento, nem podia de deixar de ter a atenção de presentear, uma pequena atenção, a Digníssima Majestade. Aliás sem o respeito por tão distinta personagem, seria impossível, de todo, fechar este encontro com uma foto para a posteridade.

Com um abraço de Xa - Muteba

Com um abraço de Xa – Muteba

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Pela primeira vez vejo um verdadeiro monarca…

A comparação com Christiana é talvez descontextualizada, mas a autonomia de decisão e de poder é muito semelhante ao Reino da Fortuna. A visita foi de estado, num contexto de que este Reino fosse abrangido pelo Sistema de Abastecimento de Água, facto que obviamente nem foi contestado porque sensatez e respeito pelo ambiente são preocupações deste monarca.

A conversa foi afável, divertida e entusiasmante. Aliás o Rei era um «gentleman» e tinha protocolo com segurança. A chegada à sala de visitas passou por várias etapas. O primeiro contacto foi com o Chanceler da Coroa. As comunicações eram via rádio em frequência encriptada. No fundo nada melhor que prevenir do que remediar!

Depois um compasso de espera, um pouco longo no Django que ainda serve de tribunal do Reino, ficámos sentados tendo a oportunidade de visualizar alguns objectos que memorizam um passado longínquo e mais presente. O espaço era acolhedor, limpo e arrumado, não deixando de transparecer alguma humildade contrastante com as casas reais europeias. Porém dispunha de luz eléctrica facto notável em terras longínquas e esquecidas.

Finalmente luz verde e andámos uns metros por um emaranhado de casas e travessas. Era fundamental não ficarmos com memória de como chegar ao Paço, e talvez por educação, não fomos de olhos vendados.

Os aposentos reais ainda estão em construção dado um recente acordo estabelecido com o Governo Provincial da Lunda Norte. Mas mesmo no meio do improviso, a sala de visitas tinha dignidade!
A receção foi emocionante. Pela primeira vez vejo um verdadeiro monarca, embora sob a bandeira soberana da República de Angola. Tinha conhecimentos vastos, e não escondeu a sua Fé Cristã sem esclarecer especificamente a Igreja que professava. Mas salientou o papel de um compatriota nosso que muito fez pelo Reino, nomeadamente a construção de algumas infra-estruturas básicas, o Senhor Fortuna, ficando em sua homenagem o Reino da Fortuna.

A conversa decorreu em língua portuguesa, mostrando, Sua Majestade, que falava fluentemente, e correctamente (mas sem acordo ortográfico), o dialecto que os lusitanos por cá deixaram, ficando-se com a ideia que até é uma «ponte» de entendimento entre as diversas culturas nacionais de Angola.

Sobre o objectivo da visita, não podia correr melhor. O pretendido foi atendido, e com um sorriso orelhudo, ou seja, de grande simpatia, acolheu a nossa pretensão.

Na sala pairavam várias fotos de personalidades importantes, como por exemplo o actual Presidente da República de Angola, onde também o visitou nestes humildes aposentos, e o Sr. Governador da Lunda Norte, onde o monarca o presenteou-o com o amuleto da sorte para este ano de 2020.

O acordo bilateral foi selado com esta foto, deixando todos logo, com uma memória de saudade.

Afinal, Sua Majestade, abona com um Reino de Fortuna, que nem sempre é um bem material.

Fortuna, em italiano é sorte, e neste caso bem precisa.

Saurimo (Lunda Sul), 27 de Janeiro de 2020

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to A minha primeira visita real!

  1. Alex diz:

    E foste feito cavaleiro do Reino dada a importante missão?

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