Para lá do desdém humano

Fernando Capelo - Orelha - Capeia Arraiana - 180x135

Acordei cedo, hoje, e cumpro, já, o meu velho hábito de tentar adivinhar o dia.

para lá do   desdém  humano  ainda fica  a fidelidade canina

Para lá do desdém humano ainda fica a fidelidade canina

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O nunca não existe!

Espreito pela cortina franzida e, na estreita disponibilidade da talisca, leio o nevoeiro que me faz presumir um défice de sol.

Ao aproximar-me da janela, confirmo a névoa cinzenta/gelada tecida na espessa rede de minúsculas gotas, quase sólidas. Prevejo um regelo capaz de congelar olhares.

Não sinto necessidade de explicar a Serra porque ela é percetível sem elucidações.

De pouco me vale comentar o frio porque, sabe-se, ele mora, intrinsecamente, no inverno montanhês.

Finda esta forçosa análise gritou-me a mente:

– Nunca vi uma manhã assim!

Mas logo caí em mim:

– Qual nunca? O nunca não existe!

E repreendi-me:

– A manhã não se vê. Sente-se.

Mas, reparando melhor, antevejo, na neblina, um vulto andante. Esperei, na expectativa de confirmação. Um velho pedinte, quase anão, iniciava o seu peditório diário coxeando, curvado em frente, seguido, nos calcanhares, por um cão esquelético. A vulnerabilidade do quadro e a presunção da muita pobreza aleadas à sensação de frio alheio arrepiaram-me neste nascer de dia. Concluí murmurando:

– Se a sociedade permite a indigência é porque a antepõe à equidade.

Aproximei-me, depois, lentamente, do espelho. Queria ter a certeza de que os meus olhos me olhavam. Lá estavam eles, castanhos e indiscretos, como que a inquirir-me sobre o mendicante que alimentava um cão piranga com sobejos de esmolas. E sim, respondi-lhe. Fui-lhe dizendo que, para lá do desdém humano ainda fica a fidelidade canina.

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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