Sortelha – Roda dos enjeitados

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: SORTELHA :: :: A Roda dos Expostos de Sortelha existiu entre 1783 e 1855. Um pedaço de História que está empacotado numa caixa de plástico, pertencente ao Arquivo Municipal de Sabugal, esperando que sejam desvendados mais alguns mistérios.

Santa Casa da Misericórdia de Sortelha, ilustração de José Serpa - 2019  (publicada em 16/02/2019)

Santa Casa da Misericórdia de Sortelha (Ilustração: José Serpa, 16-02-2019)

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Roda dos Enjeitados de Sortelha existiu entre 1783 e 1855

As crónicas da miséria das gentes de Sortelha são muitas ao longo dos séculos. Em 1608, no Registo de Óbito de António Machado, o vigário refere que era Juiz dos órfãos. Este documento pode ser consultado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Livros de Registos de Mistos de Sortelha.

No reinado de D. Maria I, o desembargador Pina Manique, Intendente Geral da Polícia, reconheceu oficialmente a instituição das Rodas, pela circular de 24 de maio de 1783. Era a legalização dessa prática. Alegava-se o elevado número de infanticídios. Por outro lado, foi uma forma do Estado reconhecer a importância económica dessas crianças para o desenvolvimento do país.
Pode reler… (Aqui.)

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Livros de Registos de Mistos de Sortelha

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Livros de Registos de Mistos de Sortelha

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A Roda dos Enjeitados, em Sortelha, existiu, pelo menos desde 1783, como mostra do documento seguinte:

«Maria que foi exposta na Roda dos Enjeitados de Sortelha com hum escrito que dizia que vinha por batizar e que tinha nascido no dia vinte e hum do mez de Dezembro e foi batizada por mim Reverendo João dos Santos vigário desta Parochial Igreja de Santa Maria das Neves desta villa de Sortelha em o dia vinte, e trez do dito mez e era de mil settecentos e oitenta e três anos, em casa por mostrar perigo de vida, e lhe pus os Santos Óleos, e fiz mais cerimónias que manda o Ritual Romano em os trinta e hum dias do mez de Dezembro da era de mil settecentos e oitenta e três anos de que forão testemunhas presentes estavão e comigo asignarão António Gomes da Costa e José dos Santos dia mez e era ut supra.
António Gomes da Costa José dos Santos, O Vigário João dos Santos.»

A avaliar por este documento primeiro chamou-se Roda dos Enjeitados, passando posteriormente para Roda dos Expostos.

Com a extinção do concelho em 1855, esses serviços foram transferidos para a do Sabugal.

Há cerca de um ano chamei a atenção para a existência, no Arquivo Municipal de Sabugal, do conjunto de documentos com o título «Sortelha: Livro 2.º Matrícula dos Expostos 1819-1823», em elevado estado de degradação. Em vésperas de Natal, passei por lá e informaram-me que estava para restauro. Com o documento hoje publicado adensa-se a suspeita de a referida caixa de plástico pode conter informação relevante, para a história do antigo concelho de Sortelha, de um período de cerca de cinquenta anos.

– Quem são os responsáveis por esta situação?

Provavelmente a culpa vai morrer solteira! Os sucessivos responsáveis autárquicos vão lavar as mãos como Pilatos!

Se a publicação dos meus artigos contribuiu para a decisão de restauro, então já valeu a pena!

«Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.» (Fernando Pessoa.)

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

One Response to Sortelha – Roda dos enjeitados

  1. José Antunes Fino diz:

    Preservar a nossa identidade e salvaguardar a memória dos nossos antepassados é um desígnio que a todos nos devia tocar. Infelizmente, a quem essa tarefa incumbe e, em primeira mão, deveriam providenciar, são os primeiros a negligenciá-la. Oxalá, este valioso património não esteja irremediavelmente perdido!

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