Hoy Ceuta es nuestra

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Com tanta agitação peninsular lembrei-me de vos contar um pouco da importância de Ceuta na nossa política externa. Muitos ainda se lembram da sua conquista, ainda mencionada na História de Portugal, mas poucos sabem como foi entregue, a quem e porquê. Voltando ao imaginário, que me apraz com muito gosto, vou contar-lhes o dia em que Ceuta deixou de pertencer ao Reino de Portugal e dos Algarves. Imaginem a cara do Alcaide-Mor quando chegou a armada espanhola.

Bandeira e Escudo de Ceuta em 1415

Bandeira e Escudo de Ceuta em 1415

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Ceuta passava para Espanha e Olivença voltava para a soberania nacional

Mesmo durante o período filipino, ao que consta, houve sempre uma simpatia do Alcaide-Mor de Ceuta à coroa de Espanha.

Porém, no Tratado de Lisboa, assinado em 13 de Fevereiro de 1668, entre Portugal e Espanha, sob mediação Britânica, para a tão desejada pacificação peninsular, Espanha reconhece finalmente o Reino de Portugal, mas com a moeda de troca de Ceuta passar a pertencer a Espanha, mas Olivença (vejam lá!) voltar para a soberania nacional. Dada a amizade já demonstrada pelo Alcaide-Mor de Ceuta e de muitos ceutenses, Portugal não levantou grandes objecções, dada a panóplia de problemas que tinha no Brasil, e noutras regiões do globo, porque a herança espanhola foi bem pesada.

O trabalho dos Britânicos, apesar da sua notabilidade, também teve factura: um casamento, neste caso a irmã do Rei D. Afonso VI, filhos de D. João IV, com o Rei Carlos II de Inglaterra, tendo sido, curiosamente, das rainhas mais notáveis da Grã-Bretanha, a Rainha Catarina de Bragança. Obviamente que por detrás desta vitória diplomática, houve o pagamento do dote por parte da coroa portuguesa à britânica. Enfim, tudo gente boa!

Estando em pelo século XVII, não havendo telefones nem meio de comunicação rápidos, o Alcaide-Mor de Ceuta, continuava a sua vida de excelência longe da pátria lusa e das atribulações com Espanha. Os vizinhos mouros pouco trabalho lhe davam.

O segredo da paz naquele longínquo e isolado território era mantido com «tráfico» de enchidos e aguardente para os vizinhos africanos, produtos mais que sancionados pela religião muçulmana. A entrada dos produtos era feita oficialmente como chá das Índias. Mas o ditado de que «o fruto proibido é o mais apetecido» era o sucesso da paz que reinava por aquelas bandas.

Na realidade, a guarnição parecia mais um hipermercado de produtos verdadeiramente nacionais do que propriamente um forte defensivo. Inclusivamente os canhões e restante armamento já andava arredado das tarefas diárias do pessoal, em prol do real comércio português.

Estava então Sua Ex.ª o Alcaide-Mor de Ceuta a preparar uma nova encomenda, dada a preocupação de manter o stock, quando o guarda informou que se aproximava uma frota espanhola considerável.
Mesmo sendo um «amigo de Espanha», o numero de embarcações deixou-o apreensivo, e veio-lhe à memoria de que «de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento». A preocupação de lhe acabarem com o negócio quase que o deixava em pânico. Uma armada assim, não abonava nada de bom.

A prudência lusa é na realidade um dos bons aspectos do nosso código genético, e nada melhor que os receber com pompa e circunstância. A ferrugem que hoje os canhões ainda mantêm, já vinha desses tempos. Serviam apenas para ornamentar a fortificação.

O comando espanhol desembarcou, mas com uma bagagem assustadora. Os espanhóis, nestas missões, trazem tudo: presunto de Teruel, uma armaria impressionante, vinho, comida e toda a logística para o culto católico romano, com imagens de santos, santas e da Virgem del Pilar.

O nosso Alcaide, assustado e apreensivo, convidou o seu homólogo para uma recepção de boas-vindas no «seu» castelo. O espanhol observava com detalhe a decoração e pouco dizia. Até que lhe entrega um documento lacrado. A noticia não podia ser pior.

A tragédia grega abatia-se em Ceuta, com o mais que provável fim das iguarias lusitanas, o abandono dos namoricos com as mouras, e o pior de tudo: regressar a Lisboa!

Percebendo a gravidade da situação ainda colocou em questão algumas palavras do texto, mas o espanhol rapidamente esclarecia. Ceuta era agora território da Coroa Espanhola, Ponto.

O Alcaide rapidamente se apercebeu que o seu pequeno império iria terminar. E voltar para Lisboa… «jamais».

Dispunha ainda de alguns dias onde a transição se iria progressivamente materializando. A revolta da guarnição lusa não se fez esperar. As namoradas iam ficar em terra, porque não havia lugar na embarcação que Lisboa entretanto enviou para repatriar os seus soldados. E sendo mouras, tinham forçosamente de se converter à Fé Cristã.

O facto é que quando a mesma chegou havia pouca gente com vontade de voltar. Grande parte converteu-se ao Islão e foi viver para o Norte de África com as suas amadas, havendo ainda a vantagem de optarem por mais algumas.

Quanto ao Alcaide-Mor, contra todas as expectativas, também não sentia vontade de ir, tendo mesmo referido que não embarcaria. O Capitão da Nau ficou estupefacto: «Excelência, não vai porquê?»

Simples, muito simples. A amizade com os espanhóis, no tempo dos Filipes, acabou por dar os seus frutos.

No verso da tal carta, vinha um convite do Rei de Espanha para que se mantivesse como Alcaide-Mor, dada a paz que tão sabiamente mantinha com os seus vizinhos.

Não restava à nau portuguesa senão regressar com quem efectivamente queria.

Quanto ao nosso ex-Alcaide, manteve o seu negócio.

Só que agora tinha de ser com produtos espanhóis. Nada que não se resolva!

Dundo Velho, 18 de Janeiro de 2020

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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