Geada Pinto – agradecimento póstumo

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Conheci Geada Pinto no dia em que fiz dez anos. Naquela época, as aulas começavam a sete de outubro, dia do meu aniversário. O encontro foi breve e sobreveio pela manhã, na portaria do Colégio do Outeiro de São Miguel por ocasião do meu ingresso como aluno interno no primeiro ano (agora quinto). Meu pai, fornecedor habitual de lenha, havia solicitado à direção contacto negocial e aproveitou a coincidência para proceder à minha apresentação.

Cónego Geada Pinto (Foto: D.R.)

Cónego Manuel Geada Pinto (1929-2019) (Foto: D.R.)

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Privilegiados os que puderam beneficiar dos seus ensinamentos

Após curto diálogo, senti-me entregue mas sem poder auspiciar a verdadeira influência que aquele homem de batina preta, colar branco e olhar envolvente iria ter sobre mim.

Na verdade, Geada Pinto era sacerdote conforme acabava de espelhar mas viria a revelar-se eminente professor, orientador dedicado e diretor competente. Enfim, no Colégio do Outeiro de São Miguel, ele era quase tudo, resultado prático da sua sabedoria ímpar.

No exercício da docência, não se ficava pelos bons alunos. Votava-se também aos menos dedicados. Esses eram a terra inculta que necessitava ser amanhada. A todos aplicava a frescura de uma hierarquia peculiar que, sem conter rijeza excessiva, não abdicava de absoluto respeito.

Na falta de um qualquer professor, Geada Pinto substituía-o. Era portentosamente conhecedor das diversas matérias e era, ainda, capaz de, enquanto explanava, enroscar uma lâmpada ou proceder a um pequeno arranjo. Parecia, às vezes, absorto, viajando por estranhos assuntos mas não sem ir advertindo os alunos em desempenho:

– Vai, vai falando que eu estou a ouvir-te. Olha que o Napoleão escrevia mais de uma dúzia de cartas ao mesmo tempo!

Perante as esfarrapadas desculpas que, de quando em quando, nos afligiam a mente, mal abríamos a boca já ele esclarecia:

– Sim, sim, eu já sabia. Não precisas de te explicar tanto.

Tinha, para nós, um atendimento diário e permanente. Recordo o reservado consolo que um dia me dedicou após um desaire em matemática:

– Não gostas nada de números, rapaz. Mas também não precisas que eles te acompanhem a vida toda. Tens de lidar com eles enquanto isso for fundamental. Depois, segue o teu gosto.

Era assim. Dava confiança. Inspirava auto-estima. Com ele aprendia-se. Cada instante era um pequeno dote.

Para mim, representa, ainda hoje, todos os professores. Talvez por isso me desgostem as reiteradas e infundadas críticas à generalidade dos docentes.

E, sim, privilegiados foram todos aqueles que, um dia, puderam beneficiar dos seus ensinamentos.

Neste momento de indisfarçável vazio, após o seu recente desaparecimento, permitam-me que exteriorize, aqui, o meu póstumo agradecimento.

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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