Um pesadelo de Ano Novo

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Com estas viagens longas, e atribuladas, tive um pesadelo de todo o tamanho de 30 para 31 de dezembro. Fiz cerca de 8.000 quilómetros, com escalas e dormidas, sendo uma delas em zona de tiroteio nocturno, concretamente no Bairro de Cazende, na periferia de Luanda.

Pesadelo de Ano Novo

Pesadelo de Ano Novo

As festas na Beira, na realidade, são rijas, longas e fartas…

Estava então num ano longinquamente futuro, velho e cansado, rodeado de netos e netas, genros e filhos adoptivos, graças ao coração de ouro da minha Carla que entendeu já quase com setenta anos acolher um grupo de meninos africanos que entretanto cresceram e, obviamente, descenderam.

Resumindo, a casa abarrotava de gente, risos, dores de barriga, constipações, miúdos pendurados em candeeiros e em cima das prateleiras dos móveis, bem como uma correria de quem ajudava e o ripanço de quem nada fazia.

Eu que sempre sonhei com serões intelectuais, em silêncio, a ouvir jazz ou música clássica, vejo-me num meio de um tumulto familiar, em que poucos, na realidade, se entendiam. Felizmente nada tinha que ver se eram adoptados, ou não, mas o facto é que sentia-se uma distância de mentalidades.

As festas na Beira, na realidade, são rijas, longas e fartas. E no Natal, em que compreensivelmente os genros e noras me toleram, sinto que no Ano Novo vontade não lhes falta de se pirarem e deixarem os velhotes em sossego.

Mas a Matriarca tudo faz para agradar a «gregos e troianos» e esforça-se em diplomacias para que todos e todas se sintam bem, incluindo o velho esposo.

No meio deste cenário, surge um neto da ala africana, que sempre gostou de mim. Desde pequeno sempre entendeu o desespero do avô de querer falar «com os deuses», como ele dizia, e vinha frequentemente ter comigo por sentir que estava estrategicamente «dentro… mas fora».

O garoto, hoje já com 20 anos, abordou-me e perguntou porque era tão «diferente» da avó.

Expliquei-lhe que as famílias a dada altura têm dores de crescimento, e quando crescem muito, principalmente para os conjugues (casados ou não, porque isso hoje não é relevante), torna-se um sacrifício todos os anos a repetição da comida, conversas, ciúmes, invejas, da pedinchice à avó e o espírito do núcleo duro inicial, compreensivelmente vai desaparecendo. Infelizmente não há atores de teatro ou cinema, porque em cada ano organizavam uma peça diferente e o «espectáculo» talvez até tivesse mais interesse.

O garoto com o seu olhar meigo, de africano, disse: «O avô na realidade é diferente mas não é indiferente!»

Acabei por acordar com estas palavras sentido o coração a bater a alta velocidade.

Não sei se tenho sorte, ou azar, em ter um pequeno núcleo duro. No entanto, em garoto chegámos aos 50 nestas festas natalícias, com ano novo incluído. Mas efectivamente as celebrações acabaram a tempo com o desaparecimento da primeira geração. E desta forma guardo saudade desses tempos compreendendo que agora, as novas gerações, não conseguem reproduzir esta mística dos nossos antepassados.

Os tempos não ajudam a harmonia familiar. O materialismo substituiu a vontade mágica do encontro da família. A conversa é no «Whatsapp» ou no «FaceBook» ou, os mais avançados, por telepatia.

As prendas eram recolhidas na manhã do dia 25, na hora do pequeno-almoço, depois do Menino Jesus ter descido pela chaminé da cozinha, madrugada fora, e prendado quem efectivamente merecia. Normalmente quem tinha negativas no 1.º período era penalizado, mas as avós lá diziam que ainda havia mais dois períodos para recuperarem. Só tinham que trabalhar para isso!

É importante que os mais velhos entendam que estas realidades desapareceram, mas procurem respeitar as diferenças, não impondo o seu território, esta nova cultura dos presentinhos, e se sacrifiquem muito para que estes grandes clãs possam efectivamente conviver (entender bem o ciúme), de forma a que, tal como eu em pequeno, guardem a recordação.

Talvez o primeiro passo seja mesmo não dar importância ao que vamos oferecer mas sim o que temos efectivamente para dar!

Feliz Ano

Covilhã, 1 de Janeiro de 2020

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Um pesadelo de Ano Novo

  1. José Geraldes diz:

    Costuma-se dizer (…os sábios) – QUANTO MAIS DOU, MAIS RECEBO. Abraço. José Geraldes

  2. Alex diz:

    Sem dúvida.. Será que a Carla vai adoptar mesmo uma tribo? A Covilhã dos judeus renovada pelos africanos.. Uma ideia engraçada
    Auguri.

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