Zé, simplesmente!

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: Zé pertencia a uma família humilde. O seu tempo era passado atrás das ovelhas, calcorreando a serra d’Opa, em dias de sol tórrido ou com tempo gelado e chuvoso.

Talefe na Serra d'Opa no Casteleiro

Talefe na Serra d’Opa no Casteleiro

Mas uma noite tocou o sino a rebate e ninguém ficou indiferente…

Zé, não era um menino igual aos outros. Não brincava, não ia à escola e a sua comunicação era tímida e feita apenas através de alguns sons. Apesar disso era um menino – já rapaz – sorridente!

Lá em casa ninguém tinha frequentado a escola, nem tão pouco sabiam da sua existência…. A casa era extremamente pobre e exígua, onde faltava quase tudo. Contíguo à cozinha, onde todas as noites se acendia o lume, ficava um pequeno espaço, onde dormia o pai, a mãe e o Zé – o irmão, mais velho, já tinha dado o salto para França na noite de maior invernia que jamais tinha acontecido.

Por cá, o Zé continuava a saltar regatos, a calcorrear socalcos, fragas e veredas por entre giestas negrais, estevas, rosmaninhos sempre à procura da melhor erva para que as suas ovelhas. Mas, naquela noite de dezembro, de inverno severo, a mãe do Zé estava a ficar inquieta. A noite já algum tempo tinha caído e, nem o pai nem o garoto, tinham regressado a casa… O Zé estava perdido na serra!

A noticia rapidamente saltou de porta em porta. Zacarias da Encarnação – rapaz forte e pujante – em correria desmedida, subiu à torre da igreja e tocou o sino a rebate, chamamento a que ninguém ficou indiferente.

Enquanto as mulheres tomavam conta das crianças, os homens de lanternas de petróleo na mão, correram para a serra em direção ao sítio onde as ovelhas tinham sido avistadas durante o dia. A noite serrada e a chuva persistente, tocada a vento da serra multiplicavam, ainda mais, a desmedida tarefa…

Já tarde e com a serra povoada de pequenas luzes, sinal de que muita gente estava empenhada nesta tarefa, ouviu-se um grito que se amplificou por toda a serra D’Opa. Finalmente o Zé fora encontrado, gelado e cheio de fome! Caíra num buraco, rodeado de grandes fragas. A dificuldade em comunicar e a impossibilidade em sair de lá dificultaram cada momento do seu resgate.

Já com a manhã a anunciar um novo dia chegavam finalmente à aldeia, o Zé, seu pai, o rebanho e todos aqueles que participaram nesta heroíca manifestação de solidariedade humana. Desde então, o pai do Zé nunca mais se descuidou por lá e logo que o sol começava a rodar para poente juntava o rebanho e começava a conduzi-lo para o bardo, onde era ordenhado e onde pernoitaria até ao dia seguinte.

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«A Minha Rua», crónica de Joaquim Luís Gouveia

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