Águas Belas – A Volta dos Reis

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Teve lugar, sábado e domingo passados (4 e 5 de Janeiro), a Volta dos Reis, a que também chamam da Santa. É uma tradição que se perde no tempo e sem interrupções, pela disponibilidade dos mordomos (Águas Belas e alternadamente Espinhal e Quinta do Clérigo) e pelo sentido religioso que tem o abrir a porta a Nossa Senhora.

A Santinha que entra em casa - Volta de 2020, 5 de janeiro, em Águas Belas

A Santinha que entra em casa na Volta de 2020 (5 de janeiro) em Águas Belas

A Santinha é um quadro com Nossa Senhora, o Menino, São José e os Reis Magos

Há uma narrativa ligada ao início da «Volta». Conta-se que todos os anos, por estas terras, desaparecia uma rapariga. A última, terá sido uma jovem que foi à fonte buscar água e desapareceu, sem deixar rasto. Procuraram-na, por todo o lado, mas ninguém mais a viu. Para ver se terminavam estes desaparecimentos, o povo prometeu dar, cada ano, pela festa dos Reis Magos, uma Volta pelas terras, onde tinham ocorrido desaparecimentos.

Como a distância a percorrer é grande, é feita em dois dias: no primeiro, a Santinha visita as casas da Sobreira, Quinta do Clérigo, Quarta-feira, Dirão da Rua e Espinhal; e no segundo, agora que já não vai a Vale Mourisco, de manhã, a seguir à missa, Águas Belas.

Nas casas, com a família reunida na sala, espera-se a Santinha – um quadro com Nossa Senhora, o Menino, São José e os Reis Magos – que um dos mordomos leva ao pescoço, por cima de uma toalha branca. Ao chegarem, dizem:

– Nossa Senhora entra nesta casa.
– Nossa Senhora é que cá queremos!
– Nossa Senhora lhes dê boas festas espirituais e temporais.
– E os senhores que tragam as mesmas!

O mordomo dá a Santinha a beijar, recebem a esmola, destinada às despesas da igreja, e deixam alguns cigarros – foi assim a promessa e ainda hoje se faz. Quando saem, voltam a desejar boas festas.

Há alterações ditadas pelos tempos: a esmola já não é em géneros; os mordomos já não fazem aquele jantar de festa, para os mordomos de fora e família; e nas ruas já não se vive aquele convívio habitual de novos e velhos a fumarem em grupo os «cigarros da Santa».

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«A minha terra é Águas Belas», crónica de Maria Rosa Afonso

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