Depois da Tempestade… a Bonança

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Passaram-se dias a fio a falar das inundações provocadas pelas depressões Elsa e Fabien, com imagens desoladoras das pessoas afectadas pelas cheias do Mondego na zona de Montemor-o-Velho, com diques, certamente mal construídos, a rebentarem e a alagar milhares de hectares de terra, afectando as casas dos moradores ribeirinhos, os gados e as sementeiras e colheitas futuras. Os moradores tiveram de abandonar à pressa as suas casas, fugindo para casas de familiares ou amigos. Os gados perderam as suas pastagens, ficaram isolados em pequenos paredões, sem comida, tendo alguns perdido a vida. Os prejuízos apurar-se-ão mais tarde.

Cheias no Mondego em Dezembro de 2019

Cheias no Mondego em Dezembro de 2019

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Portugal tem falta de água?

Crónicas são as cheias do rio Tejo que alagam as terras do Ribatejo e cortam estradas que impedem os moradores de comunicarem com os de fora ou procurarem alimentos nos mercados habituais, substituindo carros ou bicicletas por barcos. Por serem crónicas, os moradores já se habituaram a elas e estão prevenidos para o que der e vier. Os prejuízos, no entanto, sucedem-se com o alagamento de casas e ruas na Barquinha e outros lugares.

Barragem do Alqueva no Alentejo

Barragem do Alqueva no Alentejo

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Tempos antes, não se falava senão na seca extrema no Alentejo e Algarve, já crónica, com gastos de milhares a transportar água para as pessoas e gados na zona de Mértola, Évora, e outras localidades. Os prejuízos nas colheitas são enormes e muito gado morre por falta de pastagens. Veja-se a recente recolha de cavalos pela GNR de uma herdade alentejana, onde esses animais passeavam de costelas à vista e alguns apodreciam nos terrenos, porque o dono já não tinha com que os alimentar. Noutras zonas de Trás-os-Montes e Beiras, nomeadamente Viseu e Bragança, a seca era moderada, contabilizando-se a percentagem de água que cada barragem ainda guardava, cada vez a diminuir mais e a fazer aumentar mais as preocupações dos moradores à sua volta, dependentes delas para beberem eles e os seus gados e inquietos com o alimento que dariam aos seus animais. As uvas secam muitas vezes por falta de água, perdendo-se, assim, o fruto de muito trabalho.

Na televisão passaram durante dias imagens do rio Ponsul sem água e com muitos peixes mortos. A culpa era atribuída a Espanha, que não debitava o caudal de água acordado com Portugal, como se eles fossem parvos em dar-nos a água de que precisavam. Não sabem que de Espanha nem bom vento nem bom casamento. Pois bem, juntem mais isto: de Espanha também não boa água. Só enviam a má água que eles não precisam por demasiada e que nos vem alagar a nós. Bem nos recomendavam eles: Apanhem a que nasce e corre nos vossos rios! Eles sim, fizeram a tempo o trabalho de casa. Ligaram os vários rios entre si por meio de canais e conseguiram transformar a zona de Múrcia e Almeria, entre outras, de desertos em zonas irrigadas, de locais para rodarem filmes de cowboys em pomares que exportam frutos e legumes para Portugal e outros países da Europa. Portugal o que fez? Continuou à mercê da Providência que regula a Natureza. Se chove muito, a água segue o seu caminho natural para o mar. Se não chove, fazem-se procissões a pedir a Deus que mande chuva para estes pobres pecadores, mesmo ateus que sejam. E, às vezes, Deus atende-os com pena destes desgraçados preguiçosos. A propósito, lembro-me duma vez aí por 1960, no Outono, ter havido uma seca prolongada em que a água faltava e os lavradores não podiam lançar as sementes à terra por tão seca estar, prenunciando-se um ano agrícola terrivelmente mau. Eu frequentava na altura o Seminário de Évora. Com os colegas fomos convocados para uma procissão a pedir chuva a Deus. Esta foi muito concorrida de povo e altas individualidades locais. Íamos de velas acesas junto do arcebispo D. Manuel Trindade Salgueiro, atrás do andor do Senhor dos Passos, creio. Tantas orações e cânticos se ouviram a pedir chuva que Deus os atendeu e enviou uma trovoada de se lhe tirar o chapéu, que nos deixou encharcados que nem pitos, como se diz aí no Sabugal. A procissão teve de se apressar para a Sé, onde um pregador agradeceu ao Omnipotente a graça concedida. Pois é, desta vez obteve-se a graça e veio chuva mas, como diz o ditado, fia-te na Virgem…

Já não é nova esta situação de seca. Os gados da zona do Sabugal sempre praticaram transumância para a zona do Campo (a zona da Idanha) no Verão, por falta de pastos. No Alentejo, já a personagem de Bernardim Ribeiro, no século XVI, se queixava: Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para longes terras… Foi para longes terras para junto de uma ribeira apascentar o seu gado. Que se tem feito para evitar as secas e cheias? Nada ou quase nada.

Portugal tem falta de água? A resposta está na abundância dela nestas cheias. Para onde foi e continua a ir essa enorme massa de água? Para o mar, que não precisa dela, porque tem muita, e não para as populações e gados que tanto precisam dela.

Abul-Simbel é um complexo arqueológico que foi transladado do seu local original devido à construção da barragem de Assuão no rio Nilo

Abul-Simbel é um complexo arqueológico que foi transladado do seu local original devido à construção da barragem de Assuão no rio Nilo

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Já várias vezes chamei a atenção para este facto, inclusive nas descrições das minhas viagens. Numa delas a Marrocos, em 1969, descrevi os quilómetros de canais que atravessavam o norte deste país para regar os campos, em contraste com a inexistência deles em Portugal. Com essa obra, Marrocos produz muitos bens agrícolas para o seu povo e que também exporta, como melões, tomates e outros. No mesmo ano visitei Israel, país quase desértico, mas que os israelitas transformaram em pomares de citrinos e em Kibutsims onde crescem cereais, batatas, legumes, etc. Com que água? Aproveitando a pouca que cai dos céus.

No Perú, em Machu Pichu, pude apreciar a obra descomunal de levar água de bem longe para os píncaros da montanha. Na terrazas do norte das Filipinas apreciei o hercúleo trabalho para construir socalcos com água para plantar arrozais, que necessitam de muita água. Iguais terrazas vi há dias pela TV na China para o mesmo fim. Estes povos puseram mãos e engenho nas obras e resolveram os seus problemas há séculos. Exemplos a seguir pelos portugueses, se quiserem resolver os seus.

Portugal importa grande quantidade de milho e trigo dos Estados Unidos, de soja do Chile (creio), de aveia, não sei donde, de carne de vaca, da Argentina e Brasil, de porcos da Espanha, Holanda e Dinamarca, até mesmo batata e outros legumes, não obstante também exportar algumas couves para a Holanda, Alemanha e Reino Unido provenientes da zona de Torres Vedras. E poderia enumerar muitos outros produtos que são importados, quando poderia produzir muitos desses produtos cá. Bastava que fizesse a irrigação dos campos. Felizmente fez-se o Alqueva, calando a voz dos Velhos do Restelo que afirmavam que a barragem nunca se encheria. E, milagre dos milagres, encheu-se logo no primeiro ano, tendo resolvido o problema da falta de água em boa parte do Baixo Alentejo.

Barragem do Sabugal no rio Côa

Barragem do Sabugal no rio Côa

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E por que não resolveu esse problema na Beira Alta com a barragem projectada no rio Côa em Vila Nova de Foz-Côa? Porque descobriram que uns pastores de há milhares de anos resolveram gravar nas pedras das encostas do Vale do Côa uns desenhos dos seus animais que pastavam nas margens do rio, vindos das suas terras distantes, onde não havia água. Ou seja, já sentiam nessa época a seca. Não conhecem os nossos ministros e engenheiros o que se fez aos monumentos egípcios tão antigos existentes junto ao rio Nilo para construir a barragem de Assuão? As rochas foram cortadas em grandes blocos e transportadas às toneladas para local ali perto mais elevado, em Abu Simbel, onde as águas do Nilo não chegam. Salvaram-se os monumentos, que são visitados por milhões de pessoas, entre as quais eu, grande fonte de rendimento para o Egipto e fez-se a barragem, que produz energia para todo o país, contribuindo para o bem-estar das populações e modernização da indústria e economia, para além de abastecer de água as populações e seus animais e regar enormes extensões de terra que produzem muito do que o Egipto precisa. E cá? Não se fez barragem e as gravuras são visitadas por umas magras centenas de pessoas. Chama-se a isto não se saber adaptar às circunstâncias e aos tempos.

Os homens podem adaptar-se a tudo, mas os animais dizem que não. Construiu-se uma auto-estrada no interior da Beira, mas teve de se gastar bom dinheiro extra para abrir viadutos para passagem dos lobos. Parece que estes não gostam de lá passar. Quiseram fazer uma via férrea ou auto-estrada no Alentejo mas, com medo dos ambientalistas que temiam a extinção duns ratos que ali viviam, não se fez e gastou-se grande soma para contornar os ratos, que não se sabiam adaptar a outro lugar, na opinião dos ambientalistas. Mas os humanos tiveram de adaptar-se na nova aldeia da Luz, alagada a antiga pelo Guadiana, ao construir-se o Alqueva.

Nas Beiras quis-se fazer também uma auto-estrada mas a esta teve de se lhe modificar o percurso, com os custos inerentes que nunca são baratos, porque ali havia uns lagartos ou lagartixas que não podiam mudar de lugar, segundo os ambientalistas. Gastam-se rios de dinheiro em estudos de impacto ambiental sempre que se pretende fazer uma obra necessária às populações para ver se não há habitat de ratos, lagartos, lagartixas, formigas, gaivotas e outras aves nos locais dessas obras. Mas, tratando-se de humanos, que se adaptem a outro local… Ouviram o que disse o Ministro do Ambiente ao visitar as zonas inundadas pelo Mondego? As populações daquelas aldeias têm de se mudar para outro lugar! Não disse que seria necessário fazer obras para as proteger das inundações. Não. Têm de se mudar!

Felizmente fizeram-se algumas outras pequenas barragens, como a da Senhora da Graça no Sabugal, que dá possibilidade aos moradores do concelho de produzir pastos para os seus animais e abastecer as suas casas. E ainda alimenta a ribeira da Meimoa, regando os campos da Cova da Beira. Já se vêem manadas de vacas e rebanhos de ovelhas perto do Casteleiro e nas Peladas (Colónia Agrícola), por exemplo, dando vida à região com a fixação de agricultores e pastores. Era isso que poderia acontecer com a barragem de Foz-Côa ou outra mais abaixo no Côa, para abastecer os concelhos de Pinhel, Figueira de Castelo Rodrigo, Meda, Trancoso, Almeida e outros mais a sul e promover a agricultura e a pastorícia nessas terras.

Água vai ser o petróleo do século XXI

Água vai ser o petróleo do século XXI

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O nosso primeiro-ministro anunciou recentemente que seria desta que iria avante a construção duma barragem há muito projectada num ribeiro junto de Alpalhão. Vamos ver se é desta! Já tive ocasião de dizer que se a ribeira de Fronteira teve água para engolir um carro com duas pessoas e algo de semelhante aconteceu em Castro Verde, porque não fazem barragens para recolher essa água, calando de vez as vozes agoirentas dos que dizem não serem rentáveis tais barragens porque nunca encheriam. Para estes é mais rentável deixar morrer à sede pessoas e animais e deixar desertificar meio país. Nem sequer umas charcas alargadas se fazem no Alentejo para reservatório de água para os gados. Talvez até já tenham recebido subsídios da CEE para esses trabalhos. Mas, foi mais fácil comprar grandes carros para mostrar que eram ricos. É assim a maneira de pensar deste povo!

O nosso governo está eufórico porque em 2019 há um excedente orçamental de 539 milhões de euros em certo dia, passando mesmo a 640 milhões logo a seguir. Era preferível ter algum défice mas ter os hospitais bem apetrechados de médicos, enfermeiros, medicamentos e aparelhos. Era preferível construir novas barragens onde a água é necessária. Basta ligar alguns rios de norte a sul por canais, nem que tenham de criar-se estações elevatórias. A água viria das regiões do norte onde chove mais para as do sul, com maior seca. Evitavam-se furos profundos no Algarve a captar água que já é salobra, com sal. Temos engenheiros capazes de fazer isso. Dêem-lhes trabalho a eles e a muitos portugueses que só vivem de subsídios.

Não há dinheiro, dizem, e o país teria de se endividar, sendo a dívida externa já muito elevada. Lancem obrigações do tesouro para os portugueses com bom juro líquido de uns 4 por cento e verão como aparece o dinheiro para as obras, sem endividamento externo. Vejam lá se as obrigações do SL Benfica ou do FC Porto não esgotam! Ou então, procurem parcerias público-privadas a juro decente e não a 15%, que as empresas portuguesas de construção também precisam de obras. Aproveitem enquanto a CEE vai comparticipando. Mas não levem anos entre os estudos de viabilidade, os concursos e as decisões.

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«Quadrazais», opinião de Franklim Costa Braga

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