Um espanhol em Sortelha

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: SORTELHA :: :: A história que tenho para contar demorou cinquenta anos a construir. É uma boa lição contra a intolerância e xenofobia.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos de Batismos de Sortelha

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos de Batismos de Sortelha

Era meados de agosto de 1970, enquanto acompanhava o meu avô, guardando as vacas e as cabras, aproveitávamos as sombras para descansarmos e hidratarmo-nos. Entretanto pergunta-me:

– Chegou alguma carta dos tios?
– Escreveu o meu padrinho de batismo que está em Angola, mas não o conheço!
– Como se chama o seu padrinho?
– Era espanhol. Já morreu, vivia nas Caldeirinhas e chamava-se Aurélio.

Reparei numa curiosidade: os afilhados recebiam o nome dos padrinhos. Partindo deste momento, aparentemente insignificante, não imaginava que, após cinquenta anos, haveria de ser capaz de juntar as peças para contar a história!

Nas décadas de 1850 e 1860 foram realizados, em Sortelha, diversos assentos de batismos de netos de Lucas de Paulo e Andréa Munhós, de Alameda; Cidade Rodrigo, Espanha. Juntando a informação recolhida no Arquivo distrital da Guarda e, online, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo consegui construir o quadro seguinte:

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De todos eles o padrinho foi o «ilustríssimo Fernando Soares Pinto Mascarenhas». Dois exemplos:

Arrabalde Terêncio filho legítimo do primeiro matrimónio d’ambos de José Francisco António e de Vicenta de Paulo, naturais do lugar d’Alameda, Bispado de Cidade Rodrigo, Reino da Hespanha, e hoje residentes nesta Villa de Sortelha, Bispado da Guarda, neto paterno de Pedro António e de Sebastiana Vaz e materno de Lucas de Paulo e de Andréa Munhós do supra dito lugar de Alameda, nasceo no dia nove de Fevereiro de mil oito centos e cincoenta e oito e foi por mim solenemente baptizado no dia quatorze do mesmo mez, foi padrinho o Illustríssimo Fernando Soares Pinto Mascarenhas, e tocou por procuração deste Mendo da Fonseca. Para constar faço este termo, que assigno. Sortelha, dia supra. O Vigário Firmino da Costa Pacheco. Joze + Joaquim Joze Mendes.

Aurélio filho legítimo de José Francisco António e de Vicenta de Paulo, neto paterno de Pedro António e de Sebastiana Vaz e materno de Lucas de Paulo e de Andréa Munhós todos naturais do lugar d’ Alameda no Reino da Hespanha, nasceo nesta freguezia, aonde seos pais atualmente residem, em vinte e quatro de Novembro de mil oitocentos e cincoenta e cinco, e foi solenemente batizado em dous de Dezembro do dito ano, foi padrinho Fernando Soares Pinto desta Villa, e testemunhas as abaixo assignadas. Sortelha, dia mês e anno ut supra. O Vigário Firmino da Costa Pacheco.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos de Batismos de Sortelha

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos de Batismos de Sortelha

O Aurélio (nascido em 24 de novembro de 1855) recebeu o apelido Esteves e, em 1878, casou com Libânia do Nascimento, da Bendada, que era irmã da minha bisavó. Ou seja, o espanhol era tio e foi o padrinho de batismo do meu avô e de todos os seus irmãos. Sei que estes viveram nas Caldeirinhas. Dos testemunhos recolhidos oralmente desconhece-se em absoluto qualquer ligação familiar a Espanha! No entanto, estou convencido da existência de descendentes na freguesia de Sortelha, sendo alguns deles meus parentes.

– Que razões terão levado este casal espanhol (Lucas de Paulo e Andréa Munhó) a fixar-se na freguesia de Sortelha na primeira metade do século XIX?

– Poderão ser políticas ou fugido da justiça por ter cometido um crime. As informações reunidas indicam que o Lucas de Paulo terá sido pastor na quinta da Corredoura, onde certamente encontrou refúgio.

Na segunda metade do século XIX e princípio do XX vieram espanhóis de diferentes regiões trabalhar para as minas! A verdade é que os descendentes disseminaram-se entre a população da região e hoje ninguém associa qualquer pessoa a essa família espanhola.

Se aproveitássemos alguns refugiados para combater a desertificação na região o resultado poderia ser o mesmo!

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

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