E tudo o vento levou!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Aqui em África os Salões de Beleza são simultaneamente cabeleireiros e barbeiros. Não deixa de ser um facto curioso porque, por estas bandas, normalmente os espaços são diferenciados por género. Mas no caso do cabelo é uma excepção. Mas ainda há outro dado relevante. O cabelo do europeu é bem diferente de um africano. Por isso a estória de hoje é sobre a minha aventura de cortar o cabelo. A primeira vez que o faço fora do meu país.

E tudo o vento levou

E tudo o vento levou

Normalmente os compatriotas fazem uma gestão de tempo para cortar o cabelo nas suas terras natais. Mas eu pretendo nesta missão experimentar a vivência do quotidiano e, como tal, achei que deveria cortar o cabelo, porque o entusiasmo das crianças em querer fazer festas também foi desaparecendo, em face da normalização do relacionamento. Hoje já não sou um estranho nem tão pouco diferente dos outros dirigentes.

Então achei que deveria ir ao Salão de Beleza perto da minha casa. Tal como nos bairros de província, estes locais também são pontos de encontro, só que de jovens, visto a sociedade angolana ser maioritariamente de gente nova. A entrada de um europeu, com o cabelo branco mas bem comprido, fez assustar logo o jovem, talvez com 20 anos, que teve o «azar» de lhe aparecer tal cliente. Mas depois do choque efectou o protocolo, com a colocação do babete e ele próprio de um avental vermelho – «Então como deseja?» – Sabia que lhe exigir um corte europeu seria uma diabrura, tendo então sugerido que cortasse como estava habituado.

A primeira dificuldade foi a tesoura. Efectivamente o cabelo europeu, mesmo fino, em grande volume é uma autentica dificuldade para uma tesoura muito provavelmente comprada na loja chinesa mais próxima. Mas mesmo assim, o jovem fez um esforço notável de tentar pôr o meu cabelo parecido com uma «carapinha». E conseguiu!

Antes de avançar com a máquina, perguntou-me se queria a cabeça rapada. Respondi-lhe que sim, porque achei que seria mais rápido.

No entanto o jovem surpreendeu-me com a sua arte de cortar o cabelo. Usando vários pentes na máquina, como um ritual, o cabelo foi desaparecendo lentamente. Subitamente lembrei-me da fronteira e do Espaço Schenguen. Estando careca poderia ficar à porta da Europa. Com tanta segurança informática a foto com cabelo daria logo alarme.

Pedi então ao rapaz que me deixasse um ligeiro «tapete». Sem qualquer problema ou desagrado, e sempre em querer agradar o cliente, o jovem ainda com mais esforço procurou satisfazer o meu pedido. O resultado está à vista, mas acima de tudo, o mais importante, foi o incentivo que tentei dar ao barbeiro para conseguir o desafio. Tal como eu, era a primeira vez na sua vida que cortava cabelo a um europeu.

Mesmo tendo durado mais de uma hora, não faltou a laca (para dar brilho), o pó talco e uma esponja para limpar a cara dos cabelos brancos que, pela primeira vez, sujavam aquele estabelecimento.

O custo para um europeu era efectivamente baixo e achei, dado o esforço, compensá-lo.

Mesmo não sabendo manejar o TPA, isto é o pagamento automático, levou-me ao vizinho para comprar produtos que necessitava. No fundo, o pobre jovem não entendeu que o lucro acaba no vizinho, mesmo sendo um mini-mercado que vende produtos essenciais.

Mas o sorriso da despedida valeu tudo o resto. Mesmo careca e com as orelhas a abanar, senti a sua alegria de ter ganho o desafio.

E já agora caros compatriotas, não vale a pena esta preocupação. Mesmo que vão pôr a escrita em dia no barbeiro lá da terra, ponderem este meu desafio, porque para além de refrescar as ideias, este penteado dura mais tempo, sendo por isso uma poupança.

Cenrralidade do Mussungue, 17 de Dezembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

One Response to E tudo o vento levou!

  1. Alex diz:

    Uma grande poupança para ti caro amigo. Mas, tenho que discordar contigo sobre o facto das tesouras cortarem com mais esforço o teu sedoso cabelo… Uma carapinha é bem mais forte, disso podes ter a certeza 💪😄👍😘

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