Anna? ou Marianne?

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

A morte da atriz Anna Karina constitui uma perda de mais um pouco de mim.

Anna Karina

Anna Karina

O filme da minha vida chama-se «Pierrot le Fou» de Jean Luc Godard, filme que vi dezenas de vezes ao ponto de saber quase de cor os diálogos entre Anna Karina/Marianne e Jean Paul Belmondo/Ferdinand/Pierrot.

Ainda hoje, ou ainda mais nesta fase da minha vida, relembro uma cena capital: Marianne ao longo do mar, só, e gritando até à exaustão: «Q´est-ce que je vais faire? Je sais pas quoi faire!»

Sim, estas foram sempre duas questões permanentes na minha vida: «O que é que ia fazer? Não sabia o que fazer!», que condicionaram o meu modo de estar.

Ansiar sempre por uma Marianne que me tirasse da minha pequena vida burguesa de Ferdinand e me transformasse num Pierrot louco!…

E bem sei que o acaso? o destino? já me deu algumas Marianne, em momentos diferentes da minha vida.

Se bem me conheço, é nesta luta de ultrapassar limites que os ciclos da minha vida se iniciaram, quase sempre por um estado de ansiedade, de inquietação que me levavam a um novo patamar… E em cada um desses patamares esteve quase sempre uma Marianne por quem me apaixonaria perdidamente.

Inquietar-me, sair da minha zona de conforto, arriscar, errar, voltar a arriscar, voltar a errar, optar por caminhos desconhecidos como se um mundo novo a descobrir me chamasse de repente.

Como a Marianne de Godard, questionar-me permanentemente sobre «o que fazer?», nunca sabendo a resposta, mas certo que essa resposta desconhecida estaria do lado de lá da porta por abrir, e que abrir a porta é que era lindo!… Como se Ferdinand ávido de se transfigurar, melhor, de renascer como Pierrot!

Todos, na sua vida do dia a dia, são um Ferdinand godardiano, sem saberem que, no seu íntimo, um Pierrot espreita pronto a revelar-se, fosse qual fosse a Marianne que o levasse a explodir e a renascer como um ser outro.

E esta Marianne sonhada era no filme de Godard a personagem inesquecível da Anna Karina!

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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