À fala com… João Alves

À Fala Com... - © Capeia Arraiana

João Francisco Alves é natural de Pousafoles do Bispo onde nasceu em 1943. Emigrou com 19 anos a salto para França. Reformou-se, voltou para Portugal, amadureceu a ideia e resolveu investir nas suas origens. Para já arrendou durante dois anos com opção de compra a antiga fábrica de caldeiras e pellets de António Fernandes (Tó Chuco). O objectivo é produzir «caveaux», jazigos perpétuos, idênticos aos da fábrica onde trabalhou durante 18 anos em França. Idênticos não. O «caveau» de João Alves foi alterado com ideias suas e patenteado para Portugal e toda a Europa. A ideia está avaliada em um milhão e 700 mil euros e o investimento inicial no Sabugal deverá rondar um milhão de euros e empregar cerca de 50 pessoas no final do primeiro ano. Vamos conhecer melhor este empreendedor sabugalense…

João Alves com as patentes registadas para Portugal e Europa

João Alves com as patentes registadas para Portugal e Europa

João Alves tem duas filhas e cinco netos. É natural da freguesia de Pousafoles do Bispo no concelho do Sabugal. Foi para França, reformou-se, e voltou com vontade de investir na sua terra natal mais concretamente no Parque Industrial do Sabugal no Alto do Espinhal.

– Decidiu investir no Sabugal. A que se deve esta opção?

– Nasci em Pousafoles do Bispo. Emigrei para França, «a salto», com 19 anos para fugir à tropa. A minha mãe deu oito contos ao passador. Com o primeiro dinheiro que ganhei enviei-lhe de volta 10 contos. A minha vida em França foi igual à da maioria dos emigrantes portugueses. Comecei por trabalhar numa fábrica de fundição. Quando obtive a «carte de séjour» passei para a construção civil. Como tinha ambições pessoais, em 1965, matriculei-me num Centro de Formação Profissional. Fiz um estágio durante um ano e meio e no final fui avaliado por um engenheiro que me convidou para trabalhar com ele numa empresa que fabricava jazigos em cimento. Entrei como trolha e ao fim de 18 anos sai como director-adjunto de uma das cinco fábricas da empresa.

E sem se deter explica o que o levou a deixar a empresa…

– Um dia falei com o meu director-geral e disse-lhe que era tempo de alterar o sistema de fabrico a nível da segurança e do custo dos materiais… Ainda hoje recordo as suas palavras de resposta: «Muito bem João mas se eu vou defender junto da administração a sua análise e as suas ideias não há dúvidas nenhumas que vai ser colocado com outras responsabilidades e vou ficar mal visto.» Ao que eu lhe respondi: «Não quero nada disso, apenas necessito de uma folha branca que eu vou pedir a minha demissão.»

No mês seguinte saiu da fábrica, comprou uma bomba de gasolina desactivada e montou uma fabriqueta instalando-se por conta própria…

– Chamei o meu irmão e os meus sobrinhos para trabalhar comigo. Passados cinco anos, quando fiz 63, reformei-me e vim para Portugal para ficar mais perto das minhas duas filhas e dos meus cinco netos. Mas não consegui ficar parado e fui à procura de trabalho. Entrei numa empresa de construção civil – a Sotencil – como encarregado geral. Fiz um prédio de cinco andares em Oeiras e depois fui para Sines fazer oito prédios para a Refer.

Mas voltou a sentir-se com vida de emigrante, agora em Portugal…

– A minha cabeça estava sempre a pensar no que fazia em França. Iniciei o processo de licenciamento de uma patente para montar uma fábrica em Portugal mas estive quase sete anos à espera. A patente nacional foi-me concedida em 2016. Mas quis mais. E pedi a patente europeia que chegou agora há poucos meses.

Uma das patentes de João Alves

Uma das patentes de João Alves

– Mas em que consiste, concretamente, essa patente?

– Em França e outros países da Europa é comum construir jazigos ou sepulturas perpétuas em cimento abaixo do nível do chão. Têm uma peça para abertura e fecho que pesa cerca de 700 quilos. Mas cada vez que é necessário ter acesso ao interior tem de ser utilizada uma grua e isso não é nada prático. Assim, na minha patente estão registadas, em simultâneo, três funções: uma placa solar que alimenta uma bateria para mover a placa com apenas 125 quilos accionada por um comando manual e duas ventoinhas para renovar o ar através de um filtro de carbono. Portanto tudo isto é uma ideia minha, uma invenção minha que não existe a nível internacional e por isso a minha patente tem muito valor.

– E a que se deve a escolha do Parque Industrial do Sabugal no Alto do Espinhal para montar a fábrica?

– Na altura da escolher uma localização para a fábrica optei pela minha terra. Tive ofertas de terrenos na zona de Alverca mas implicava a cedência da minha patente pela qual me ofereceram um milhão e setecentos mil euros mas não era isso que me interessava. Na Câmara do Sabugal, há cerca de seis anos, ofereceram-me condições especiais para me instalar na zona industrial perto da Automecânica. Mas como ainda não tinha a patente aprovada entendi não aceitar. Recentemente voltei a falar com os responsáveis da Câmara do Sabugal e da ADES e analisámos várias possibilidades. Mas nenhuma tinha as condições que eu pretendia. Optei por arrendar a fábrica das caldeiras do Alto do Espinhal com opção de compra no final de dois anos. Neste momento estão dois empreiteiros a limpar e preparar o espaço. Os moldes vão ser-me entregues até ao meio do mês de Janeiro para arrrancarmos com a produção em Fevereiro de 2020.

– E encomendas?

– Temos compromissos e encomendas de clientes europeus para toda a produção nos primeiros cinco anos. A minha intenção é manter-me em Tarbes, alto dos Pirinéus, em França, com o escritório de vendas para toda a Europa e a fábrica no Sabugal. O transporte vai ser feito por camião e, no futuro, vamos equacionar a ferrovia. Já apresentámos maquetas em madeira em diversas feiras em Portugal e no estrangeiro…

…Mas explique melhor onde faz a diferença…

– Em Portugal e Espanha apenas há gavetões ou ossários. Mas na França, na Suíça e na Alemanha há muito que a opção é por jazigos ou «caveaux» (sepultura perpétua). A escolha dos familiares do defunto é de cerca de 85 por cento para caveaux, dez para crematórios e cerca de cinco por cento para jazigos tipo capelas. A peça que fabrico para o caveau, ou seja em profundidade é igual à que pode ser utilizada como capela à superfície.

– E quando vai iniciar a actividade?

– Em Janeiro vamos começar a produzir e fazer um pequeno stock para ter em armazém. Ao mesmo tempo vou fazer a formação inicial do pessoal nas máquinas em áreas tão diversas como electricistas com especialização em painéis solares, serralheiros e pedreiros. Os materiais utilizados são o cimento, areia, gravilha, ferro, placas solares e baterias.

– Pode-nos desvendar o investimento no Sabugal?

– No Sabugal o investimento deverá atingir o milhão de euros. Vamos fazer uma selecção e admitir um primeiro grupo para começar a formação. Até final de Março temos de ter cerca de 30 funcionários para permitir enviar dois camiões TIR semanais. No final do primeiro ano pretendemos ter cerca de 50 funcionários em permanência. Vamos nomear um agente por cada concelho para divulgar o nosso produto. Pode ser uma agência funerária ou um agente individual.

E a finalizar deixa uma certeza…

– Quero arrancar sozinho mas ando à procura de investidores com a condição de eu ser sempre o sócio maioritário. Temos de ampliar a fábrica para o triplo. Quero traçar o meu caminho sem ninguém alterar as minhas ideias.

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Todas as notícias de investimentos com criação de postos de trabalho para o concelho do Sabugal são muito bem-vindas. Assim seja o investidor capaz de concretizar o projecto. Para já estamos ainda na fase da «maqueta».

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José Carlos Lages

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