Hoje mercantiliza-se o Natal

Fernando Capelo - Orelha - Capeia Arraiana - 180x135

Natal era época de encanto e dezembro mês de contentamento. Em dezembro o escuro arrolava e o frio queimava. Porém, sem impropriedade. Recuperava-se a clareza dos luares mas eram de breu as tempestades. As neves eram alvas mas revezadas por brancas geadas.

Presépios feitos com musgo das rochas

Presépios feitos com musgo das rochas

Na segunda semana de dezembro, principiava, em grande e jovial azáfama, a idealização do presépio. Colhiam-se os musgos das rochas. Queriam-se inteirinhos! Escolhia-se um pinho que deveria ser muito jovem e ramoso e aprontava-se o presépio, sob forma de colina, à entrada de casa. A cabana, para acoutar o Menino, ficava ao centro. O pinheiro sediava-se ao lado e sustinha a maior das estrelas douradas. Desenhavam-se os caminhos em terra branca por onde seguiam os reis magos. Sarapintava-se o musgo verdolengo com algodão a parecer neve. Os pastores e os rebanhos, de barro branco, adensavam-se na encosta simulada. Finalmente contemplávamos a nossa própria «obra de arte» como se ela tivesse vindo de um outro planeta.

No dia vinte e quatro, ao cair da noite, a fogueira era muito maior que os outros dias e realçava a abismal diferença entre temperaturas interiores e exteriores. À lareira cozinhavam-se as couves e o bacalhau.

Logo que o escuro tingisse o céu, já se ouvia o repique dos sinos. No campanário o rapaz mais velho alinhava os mais novos para o rebate. Junto à igreja um enormíssimo madeiro aquecia e empalidecia o largo.

No final da consoada a noite evidenciava o exercício de dar e receber mas, da troca, não constava qualquer excesso ou extravagância. Importava muito a intenção e quase nada o que se ofertava. Antes do sono os garotos, enfilavam os sapatos na chaminé à espera do Menino Jesus, não do Pai Natal. A religiosidade sobressaía e a mitologia inebriava os rostos que ostentavam felicidade. Tanto quanto a quentura da fogueira, o calor humano suscitava entusiasmos genuínos.

Mas o Natal de hoje é diferente do de antanho.

O nosso presente depõe o romantismo com exageros. Um mercantilismo soberbo assombra hábitos e tradições. Ronda-se, às vezes, o ridículo. Gasta-se o que se tem e o que se não tem a comprar inutilidades. Enfim, o Natal deixou de ser de coisas simples e de actos singelos. As palavras, afagos ou espontaneidades, capazes de enobrecer a pureza das relações humanas, foram substituídos por um consumismo delapidador da essência desta quadra.

Ainda assim, não me atrevo a desejar um Natal à antiga. Antes desejo um Feliz Natal e, se o estimado leitor se não importar, um pouco menos mercantilizado.

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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