Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (47)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja.
>> ETAPA 47 >> TIVOLI.

 Tivoli em Quadrazais, na cerca da casa da mãe do Franklim, com este ao lado

O Tivoli em Quadrazais, na cerca da casa da mãe do Franklim, com este ao lado


II – VIAGENS CÁ DENTRO – ANOS 90

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1993

O TIVOLI NASCEU EM REGUENGOS DE MONSARAZ

Viagem Profissional a Monsaraz

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Esqueci-me desta viagem em inícios de Outubro de 1993 a um monte alentejano da região de Monsaraz para o conhecer e poder dar parecer favorável à avaliação que dele fizeram os sócios de uma sociedade a constituir, cujo capital seria realizado, em parte, pela entrada de bens em espécie, neste caso a herdade em questão. O artigo 28.º do Código das Sociedades Comerciais obrigava, neste caso, a ser dado um parecer favorável por um Revisor Oficial de Contas, que era o meu caso.

Lá fui eu com um dos sócios e calcorreámos a propriedade, boa parte cheia de estevas. O quinteiro, ou dono da propriedade, tinha alguns cães, entre eles uns dois ainda bébés, de raça fox terrier de pêlo liso, já com o rabo cortado. Mostrando eu interesse num destes, o meu acompanhante, em acordo com o dono, ofereceu-mo. E lá o trouxe eu o Tivoli no carro numa caixa, ainda cheio de carraças.

Ao chegar a Lisboa tirei-lhas todas, não sei se com um banho ou catando-o à mão. Tive de o alimentar a leite ainda durante algum tempo. Tornou-se meu amigo. Foi crescendo e foi revelando a sua doçura para com os humanos, sobretudo crianças, e a sua bravura para com os cães e quaisquer outros bichos. Atirava-se a cães maiores que ele, como pastores alemães ou serras d’estrela.

Levava-o comigo para a praia da Costa da Caparica, onde corria que nem um desalmado atrás das gaivotas, dando saltos que nem macaco para as apanhar. Por mais que o chamasse durante essa sua tarefa, não me obedecia. Por ser desobediente, um dia um carro deu-lhe uma pancada na rua perto de minha casa em Lisboa. Felizmente só ficou magoado, sem nenhum osso partido. Se via um miúdo a jogar a bola ou a brincar com um carro eléctrico, tentava apanhar a bola ou o carro e saltava-lhe ao peito para lhe tirar a bola, o que o assustava. Uma vez um inglês veio em direcção a ele para lhe dar com um pau porque ele corria atrás dum seu miúdo, pensando que lhe queria fazer mal. Tive de intervir e explicar que não fazia mal ao miúdo.
Se via um cão, desatava a correr para ele de modo agressivo. Quando o prendia na praia ao meu pé, escavava grandes covas na areia. Tanto escavou que alguma mosca da praia lhe picou e apanhou leishmaniose, de que viria a morrer anos mais tarde, apesar de eu o medicar.

Num quintalito da minha casa da Costa descobriu, não sei como, umas ratazanas. Matou-as e nunca mais lá vi nenhuma.

Jogava à bola comigo, ia buscar os paus que atirasse para longe, fazendo que não mos dava quando lhos queria tirar e agarrava-me as calças e puxava na brincadeira. Se lhe punha a trela, mordia-a e ficava dependurado dela se eu o puxasse para cima. Em pequeno roeu-me algumas coisas, entre as quais um patinho que havia comprado no Paquistão.

Levava-o à caça. Muito gostava ele de pôr as patas no tabliê e ir todo esticado à frente.

Se estava com outros caçadores, tinha de o segurar para não morder os cães dos colegas e tinha de andar numa ponta.

Em casa, à noite deixava-o no balcão quando eu ia dar aulas. Ladrava aos cães que sentia na rua, incomodando os vizinhos, a ponto de eu ter encontrado uma bola de carne no balcão, certamente com veneno para o matarem. Um dia, ao regressar da escola, encontrei-o no sofá, quando eu o tinha deixado fechado no balcão. Tinha conseguido empurrar para cima o estore da janela que dava para a sala, roendo mesmo uma das travessas, e saltou para dentro.

Quando vinha da rua ia sempre cheirar o fundo das minhas calças para saber se tinha tocado nalgum cão. Não gostava nada que eu fizesse festas a outros cães. Teve lutas com um cão dum vizinho de cima, a quem ele ladrava sempre que o sentia descer as escadas ou na rua, apesar de ser mais corpulento que ele. Levava-o muitas vezes aos terrenos onde agora passa a Avenida dos Lusíadas, junto ao velho estádio do Benfica. Mal o largava, desatava a correr que nem louco. Lobrigou ao longe um outro cão. Desatou em correria desabrida atrás dele. Este meteu-se no carro do dono que tinha a porta aberta. O meu Tivoli não respeitou a propriedade alheia e enfiou-se também no carro. Tive de correr bem para o tirar de lá e evitar chatices com o dono do cão e do carro.

Ao lado do meu prédio morava um advogado meu conhecido de antes de eu vir morar para ali, que tinha um cocker. Enquanto eu conversava com o meu amigo, o Tivoli não respeitou amizades de donos, pegou-lhe por uma orelha e quase lha esfarrapou. O dono do ferido não gostou. Eram estas cenas que me irritavam e me faziam pensar em dá-lo.

Em pequenito fez chichi uma vez atrás do sofá. Bati-lhe mas, mesmo apanhando, tinha sempre a tentação de fazer o mesmo nesse local. Tive de mudar os tacos nesse local. Desconfio que lhe cheirou o chichi que uma vez fez a cadela fox terrier de pêlo encaracolado, a Nica, que a minha ex tivera nos últimos tempos lá em casa.

Na rua fazia as suas necessidades sempre junto ao tronco das árvores ou entre as ervas e nunca nos passeios, o que me aliviava de ter de apanhá-las.

Era lindo! De focinho preto compridito, com uma mancha fulva, corpo branco com pintas pretas e uma mancha preta no lombo, patas compridas que o ajudavam na corrida e orelhas pretas sempre esticadas!

O problema era onde o deixar quando eu saia nas minhas frequentes viagens. Cá dentro, ainda o levei até Guimarães, tendo dormido dentro do carro. Levei-o outra vez a Elvas. Perguntei ao dono da pensão onde o poderia atar no pátio e ele autorizou que o pusesse na casa de banho do meu quarto.

O Tivoli ao colo do Franklim em sua casa

O Tivoli ao colo do Franklim em sua casa

Em casa gostava de dormir em cima do sofá na sala, que sofreu muitos arranhões, como se pode ver numa das fotografias.

Quando eu ia em viagem, uma vez ficou na minha mãe em Quadrazais. Irrequieto como era, um dia saltou o muro para o quintal do vizinho, emigrante em França. Minha mãe teve de pedir a um familiar daquele que lho fosse tirar do quintal. Doutra vez minha mãe pediu a uma prima em Quadrazais que lho guardasse no seu quintal. Passava o tempo atrás da sua cadela. Por umas duas vezes ficou em Alcobaça em casa de minha irmã. Ainda o deixei uma vez pela Páscoa num canil junto da estrada que vai de Fernão Ferro para as praias de Sesimbra. Como era mau, não podia ficar com os outros cães e a dona do canil nunca mais o quis lá.

Cheguei a pensar em dá-lo. Felizmente, na cerca da fábrica de rações dum cliente meu, perto da Lourinhã, o guarda da fábrica, que também era caçador e tinha cães, propôs-se guardar-mo junto dos seus, mas numa casota sozinho, dada a sua agressividade para com os outros. Foi aí que morreu em 2001, vítima da sua doença, enquanto eu estava em Cuba. Tive pena dele, mas aliviou-me da preocupação de encontrar onde o deixar.

Uma das minhas filhas, a Ana Rita, que não o conheceu mas viu a sua fotografia, gostou muito dele. Como gosta de todos os animais, sobretudo de cães, a ponto de ler tudo sobre estes animais e conhecer as raças e seus hábitos, já me pediu dezenas de vezes que lhe comprasse um cão. Apesar de eu gostar também de cães e ter sido criado com eles em casa de meus pais em Quadrazais, não lhe satisfaço a vontade por me lembrar dos trabalhos que passei com o meu Tivoli.

Cães não são para ter em apartamentos. Precisam de um quintal ou uma quinta onde possam correr.

Tenho algumas fotos dele desde pequeno, algumas comigo na caça, mas não sei onde param. Vou apresentar apenas duas não muito significativas.

(Fim da Etapa 47.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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