Um primeiro balanço desta missão

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Esta missão tem a duração de três anos. O objectivo é colaborar com a minha experiência de vida com organizações que lutam pelo desenvolvimento. Esta zona, como já escrevi anteriormente, tem o símbolo do Pensamento, e na realidade o quotidiano leva-nos a esquecer da importância da reflexão como forma de estar e contribuir para um mundo melhor. Reflectir leva-nos a ponderar e desta forma, a evitar o conflito.

O Primeiro Balanço

O Primeiro Balanço da missão em Angola

Talvez seja este o melhor ensinamento que já reaprendi: «Parar para pensar.» A figura mítica e «O Pensador», reflete a imagem da impotência perante um desiquilíbrio entre o ambiente e os interesses económicos. Mas esse pensamento é usar uma forma de contrariar, ou minimizar, este flagelo através da melhor qualidade do homem: a inteligência.

Só o próprio símbolo, a estatueta, represente por si a marca do descontatamento de que quem pisa este solo, não vê melhor vida. A passividade não é mais do que a paciência de esperar para que a distribuição dos proveitos seja mais equalitária. E acredito que com esta estratégia se irá conseguindo o que tanta gente almeja.

Neste primeiro balanço foi exatamente isso que aprendi. Este povo que me acolheu de braços abertos, admira o meu cabelo e os pelos dos meus braços, ensinou-me a importância de saber pensar, reflectir e confirmar aquilo que sempre me ensinaram: «Saber esperar!»

Embora a quadra natalícia todos queiram estar junto das suas famílias, tive a coragem de pedir à minha família de me deixar passar aqui o Natal. Não é só pelo calor, é também porque estas «famílias» me querem junto de delas, me querem oferecer o melhor que têm, me querem sentir como um «Messias» que, por ser diferente, social, aberto e tolerante, lhes trás a tal esperança de «O Pensador».

Por isso tenho de pensar como eles e elas, para que se sintam melhor. Só o facto de existir uma troca de experiências, enriquece-nos a todos e a todas, e no meu caso que o tempo já não pára, quase que é um rejuvenescer de sonhos que tinha em criança.

Tenho passado por locais que qualquer europeu fugia. Mas são esses locais que melhor sou tratado e respeitado. Quantas vezes me perco nestes bairros onde a saída parece um esconderijo. Mas há sempre alguém que se oferece para me ajudar. E nem pede recompensa. Basta o meu sorriso de um «obrigado».

Talvez seja esse aspecto que leva a quem anda esquecido aprecie. Ser reconhecido pelo bem que faz! E o reconhecimento não necessita forçosamente de ser um bem material! Para muitos e muitas haver o «amanhã» já é mais que suficiente para desfrutar da vida que Deus lhes deu. E curiosamente agradecem ao Divino por mais um dia.

Quando ocorreu a retirada dos portugueses das terras do Ultramar, já não eram Colónias como muitos sabem, tive uma missão, como escuteiro, no Aeroporto de Lisboa a receber e ajudar os compatriotas. Assisti a choro, desespero e revolta. Tinha nessa altura 15 anos.

No entanto aquelas imagens sempre me marcaram, não tanto pela «injustiça» mas mais pelo choque cultural. Quero dizer que o nosso modelo social, que nos sentimos bem, que nos identifica, não significa que outros povos, outras culturas o aceitem na totalidade.

O Pensador

O Pensador

«O Pensador» tem-me dito que: «Nem tudo o que o colono fez foi mau, e devemos continuar essas boas práticas.» E de facto, constato isso diariamente nestas terras longínquas, onde muita coisa foi implementada e curiosamente, no meu país, já desapareceram, por aculturação da União Europeia.

A moral da história é que a Cultura é o código genético de um povo. E se no meu país há diferentes realidades culturais, que vão desaparecendo por incapacidade da própria sociedade, um pouco por todo o lado, neste mundo, há costumes e práticas que o nosso modelo «Ocidental» não «encaixa» de todo.

E a arte, ou magia, é conseguirmos adaptar-nos e abrir a mente para entendermos e convivermos com referenciais diferentes. No fundo, abrir o pensamento!

Foram esses ensinamentos que o «Somanhonga» me ensinou. E por isso tenho-o com grande respeito e consideração.

Obrigado «O Pensador» e um ano de 2020 com muita felicidade.

Sachidongo, 7 de Dezembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

4 Responses to Um primeiro balanço desta missão

  1. José Geraldes diz:

    As primeiras figuras d’ O Pensador foram esculpidas nas oficinas do Museu do Dundo, ao final da década de 40 do século XX. Em 1947, por iniciativa da Diamang, a então Companhia dos Diamantes da Lunda, foi criado na povoação do Dundo um museu de arte tradicional e de colecções arqueológicas e etnográficas. Essa imagem é, hoje, uma figura emblemática de Angola, que aparece inclusive na filigrana das notas de kwanza, a moeda nacional. É considerada uma obra de arte nativa fidedignamente angolana

    Meu KAMBA António Alçada, um forte abraço e boa continuidade na tua integração angolana, junto de um “povo” irmão que sabe acolher com fraternidade e solidariedade.
    José Geraldes

  2. Isabel RICARDO diz:

    Parabéns e Obrigada, pela entrega ao Projecto!

    Sim, de facto surpreendeu-me quando a viagem de visita a Portugal foi marcada para o após e não o antes do Natal!! …

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