A Caminhada de «O Pensador»

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Esta foi a primeira actividade que realizei aqui em terras do interior de Angola, com a participação de perto de 80 jovens, dos 14 aos 22 anos. O percurso foi preparado pela equipa de avanço, onde estava eu e mais três jovens. A extensão era de cerca de 20 quilómetros e terminava num dos rios onde o agrupamento de escuteiros poderia tomar um banho refrescante.

Os novos «Pensadores»

Os novos «Pensadores»

O tema era «O Pensador», figura mítica do povo «Tucowé» que outrora pisava estas terras. Aliás, desde o Paleolítico, que esta região africana é habitada pelo homem. O objectivo era em cada posto os jovens responderem a uma questão, levando-os a reflectir, ou pensar, na importância da vida e também no papel dos seus antepassados como identificação desta cultura milenar.

Quando vim a primeira vez a Angola, a estatueta de «O Pensador», deixou-me fascinado pela simplicidade e significado. Qualquer um de nós a identifica facilmente e entende a mística que a envolve: um ancião curvado de cócoras com as mãos na cabeça.

Achei por bem propor este tema que foi consensual no seio da equipa de avanço. Foram escolhidos sete postos onde estavam questões sobre escutismo e também sobre «O Pensador», num contexto de reflexão.

Caminhada «O Pensador»

Caminhada «O Pensador»

As perguntas estavam destinadas às secções, visto que a formação de um jovem com 14 anos não é a mesma de um jovem com 18 ou 19 anos.

A dificuldade do percurso era média. Não pelos declives, mas porque havia um troço de rio que se tinha de passar, não havendo qualquer ponte ou pontão. Pese embora a profundidade fosse na ordem dos centímetros o facto é que, ou molhavam os pés, ou pediam a algum automobilista que os ajudasse. O escuteiro tem de ser criativo na forma de ultrapassar as dificuldades.

O facto é que todos chegaram ao destino, a «velocidades» diferentes, e também não foi difícil encontrar os papeis com as questões, que em cada posto, estavam escondidas. Foi colocada sinalização de pista com giz, nas vias asfaltadas, e nas zonas de terra com um pau ou pedra.

Mas como não há bela sem senão, no regresso cai um chuvada tropical, deixando-nos todos molhados , mas sem deixar por isso de manter viva esta «alma» de aventura que nos caracteriza. São dificuldades que fazem parte da vida e ajudam esta juventude a encarar, desde muito novos, as contrariedades que irão, seguramente, encontrar ao longo da vida.

Resumindo foram cerca de 40 quilómetros efectuados, com sol, chuva, banho, boa disposição e acima de tudo com aprendizagem. O ambiente fora de casa, ou da escola, propencia a juventude a aprender novas valências.

Felizmente, na fase final do percurso, apareceu uma «alma» caridosa numa carrinha que ajudou a trazer os mais novos, cantando canções escutistas africanas, em língua portuguesa e também na língua nacional, neste caso o «Cokwé». O coro era de tal forma que ninguém que andava na rua ficava indiferente.

Efectivamente estas atividades enriquecem-nos, tanto a jovens, bem como aos próprios adultos, tornando os fins de semana mais atractivos e proveitosos.

Tem sido de tal forma que já nem sido vontade de ver televisão.

Agrupamento Santos Anjos da Guarda, 30 de novembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to A Caminhada de «O Pensador»

  1. José Geraldes diz:

    Boa descrição do passeio que até meteu água (da chuva). Estás em casa.
    Forte Abraço.

  2. Alex diz:

    Já começaste a aprender o Cokwé?

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