Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (45)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja.
>> ETAPA 45 >> CUBA (9.ª Viagens).

Mapa de Cuba

Mapa de Cuba


II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 90

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1995

9.ª Viagem a CUBA

Entre 24 de Novembro (sexta-feira) e 10 de Dezembro de 1995

Curiosidades

Havia intervalos na escola, que aproveitei, conjugando com os feriados de 1 e 8 de Dezembro e fins-de-semana.
Consegui todos estes dias sem faltar à Escola.
Tenho muitas fotos desta viagem. Como não as legendei, não consigo identificar grande parte delas.

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>> 24.11.1994 >> Paguei 14$ de táxi do aeroporto para a casa da Elsita, onde fiquei pela segunda vez. Paguei 15$ do quarto. Foi a Elsita que me indicou o Fidel, em frente, onde podia comer. Estive com a Jolie, de 17, meio mulata.

>> 25.11.1994 >> Paguei 50$ num carro. Devo ter ido a Guayos (Sancti Spiritus), com a Mary, esposa do Fidel. Era a sua terra natal. Dormi em sua casa.

>> 26.11.1994 >> Paguei 20$ num carro para ir a Perea ver a Kirénia, juntamente com três moças de Guayos. Comi em casa dela. Dei-lhe 10$. As moças já tinham fome, pelo que lhes comprei uns chocolates. A Kirénia não gostou que eu partisse tão rápido com as moças.

Franklim com as moças de Guayos

Franklim com as moças de Guayos

>> 27.11.1994 >> Paguei 15$ num carro para Santa Clara, onde visitei o monumento ao Che com a Ânia Borrego, de Holguin, onde dormi com ela no hotel Santa Clara Libre, tendo pago 80$.

Franklim com a Ânia Borrego no monumento ao Che em Sta Clara

Franklim com a Ânia Borrego no monumento ao Che em Sta Clara

>> 28.11.1994 >> Paguei 25$ num carro para Havana. Novamente na Elsita. Passei o dia com a Ânia Borrego.

>> 29.11 e 30.11.1994 >> Estive com a Naimi, boa e séria.

Franklim com a Naimi no quarto da Elsita

Franklim com a Naimi no quarto da Elsita

>> 1.12.1994 >> Estive com a Onaissis, mulata. Paguei 180$ do quarto à Elsita, o equivalente a 12 noites, de 28 de Novembro a 9 de Dezembro.

>> 2.12.1994 >> Passei o dia na Elsita com a Liz Carmen, que conheci em viagem anterior, no Verão/94. Paguei de jantar 19,5$.

>> 3.12.1994 >> De manhã veio a Haidée, bonitinha, que havia conhecido no aeroporto de La Habana na primeira viagem. Estava muito magra, divorciada e tinha um filhito. Veio com a mãe. Atendi-as na sala. Paguei de almoço 10,5$ e de jantar 16$. Paguei 11,5$ na boite do Colina com a Betty, filha da Daisy.

>> 4.12.1994 >> Estive com a Aimée, vizinha da Elsita. Paguei 29$ de jantar.

>> 5.12.1994 >> Paguei 14$ pelo Jantar.

>> 6.12.1994 >> Gastei 33$ na discoteca.

>> 7.12.1994 >> Intimidades com moça do 1.º ano de Medicina.

A moça do 1º ano de Medicina, no jardim da Av. de Los Presidentes

A moça do 1.º ano de Medicina, no jardim da Av. de Los Presidentes

>> 8.12.1994 >> Estive com a Yamilé, boazinha e bonitinha. Fui a casa dela conhecer os pais. O taxista deitou fora o dinheiro cubano que lhe dei. Queria em dólares, mas era táxi amarelo para cubanos. Estive várias vezes com ela, mas acabei por desinteressar-me da Yamilé porque queria práticas sexuais em que eu não alinhava.

A Yamilé no quarto da Elsita

A Yamilé no quarto da Elsita

Franklim em casa dos pais da Yamilé

Franklim em casa dos pais da Yamilé

>> 9.12.1994 >> Fui à boite Las Bullerias com a Betty, filha da Daysi, que conhecera junto à Copélia, e amiga Joana. Gastei 14$ no jantar e 9,5 na boite. Gastei 8$ num carro para elas.

>> 10.12.1994 >> Gastei 10$ num carro para o aeroporto e 12$ de taxa de aeroporto. Partida para Madrid e Lisboa.

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Curiosidades

Gastei nesta viagem 938,5$=140.775$00, fora o avião e táxis em Lisboa.

Cuba apresenta em defesa do regime duas bandeiras: a educação e a saúde.

A educação foi, de facto, uma batalha ganha. Quase toda a gente tem o doceno, isto é, o 12.º ano. Muitos são os que têm cursos superiores ou médios (técnico médio em economia, em gastronomia, em enfermagem, etc.). O problema é que depois não há empregos compatíveis. Se cá nos queixamos disso, multipliquem esse problema por cinco ou seis vezes em Cuba. Lembro-me de no hotel Comodoro estar uma moça arquitecta a fazer as camas. Há muita gente em cursos superiores ou médios de teatro e cinema. Acabam os cursos e a quase totalidade não tem para onde ir trabalhar. Quem não chega ao 12.º ano ainda tem menos hipóteses. Na província vão chapear, como me diziam umas mocitas na praia de Varadero, oriundas das aldeias da província de Matanzas, quando lhes perguntava o que faziam. A resposta era: chapear, chapear, isto é, raspar a erva com uma enxada. Por sua vez, elas perguntavam-me: E tu comes bueno? Comer bueno era comer um bife ou outra comida que aqui consideramos normal. Elas comiam uns frigoles (feijões) ou arroz, com algum cheiro a peixe ou carne, por vezes, ou com soja na maior parte das vezes.

A saúde é também uma batalha quase ganha. Têm bastantes médicos, que são contratados por muitos países, como a Venezuela e até mesmo Portugal, contra petróleo, no caso da Venezuela, ou a troco de um salário melhor noutros países. O que deveriam ganhar no exterior não é tudo para eles. O governo cubano fica com boa parte do ordenado. Mesmo assim, ganham bem mais que em Cuba. Dei uma vez dois ou três dólares ao médico Pedro Caminero por me ter tratado no hospital Calixto Garcia. Tornou-se meu amigo e encontrava-me com ele várias vezes. Confessou-me que os dois ou três dólares que lhe dei era mais que o ordenado dele num mês.

Para termos uma ideia dos baixos salários e pensões, a avó da Yamilé de Sancti Spiritus recebia de pensão 69 pesos.

O governo não deixa sair do país os médicos, salvo com contrato. A qualidade do ensino da Medicina pode não ser a melhor, pelos nossos padrões. Eles baseiam-se mais na prática que na teoria. Não são, em geral, grandes especialistas, como se apregoa, mas são razoáveis. Uma moça chilena com um defeito numa perna que estava na praia do hotel Comodoro queixou-se dum médico cubano que a explorou e de quem apresentou queixa.

Os hospitais são razoáveis. O Hermanos Ameijeiras, em La Habana, é mais recente, de 1982, e serve bem, incluindo as salas de espera. Têm ainda os Policlínicos, semelhantes aos nossos centros de saúde do SNS. O problema é a falta de materiais. Uma vez precisei de ir ao dentista porque me doía um dente. Procurei a Faculdade de Odontologia, por trás do Calixto Garcia, onde, numa grande sala, atendiam o público. Fui atendido por uma jovem mas já com prática. Foi muito amável comigo e tratou-me bem, embora não tivesse resolvido o problema completamente. As toalhitas eram de papel de encomenda, mas as agulhas eram bem desinfectadas. Dei-lhe 1 ou 2 dólares e tudo bem.

Em Santa Clara fui um dia ao hospital ser consultado por um médico para ver como estava o meu estômago e fígado. Fizeram-me um tac e concluíram que tinha o fígado gordo. O resultado do tac fora inscrito num papel tipo de encomenda, mas o que me interessou foi o resultado. Era o primado da substância sobre a forma. Gratifiquei o médico com uma garrafa de rum.
As consultas são fáceis de marcar, já que têm muitos médicos. Medicamentos é que nem sempre há. Várias pessoas me pediram que lhes trouxesse medicamentos de Portugal. Levei umas caixas de medicamentos para a Yudi, que tinha uns tumores na cabeça e que lhe passaram. A mãe ficou-me sempre grata e dizia a toda a gente que eu lhe salvara a filha. Trouxe ainda medicamentos para a médica Aida e pomada Voltaren para a mãe do enfermeiro Juan Carlos. Em Cuba fabricam alguns remédios, algumas pomadas e aspirina. Esta é vendida a granel nas farmácias num cartucho de papel. O principal é que produza efeito.

Para os estrangeiros existe o hospital de San Agustín, onde se paga em dólares. Quando precisei de ir a hospitais ou ao dentista fui aos hospitais de cubanos. Na Páscoa de 2000 viajei para Cuba com um braço engessado devido a fractura do pulso. Quando achei que já tinha passado o tempo necessário para tirar o gesso, dirigi-me ao hospital Calixto Garcia perto do Vedado. Falei com uma enfermeira que me indicou o médico Pedro Caminero, a quem expus o meu problema. Como viu que era estrangeiro mas que falava bem castelhano, pediu a um colega ou enfermeiro do gabinete ao lado que me tirasse o gesso, sob o nome de Franklim Perez. Sob este nome, mandaram-me a outro gabinete ao radiologista, com quem falaram primeiro, para me tirar uma radiografia. Feito isso, como o pulso estava bem, tiraram-me o gesso. Gratifiquei-os com uns dolaritos e ficaram todos satisfeitos com o Franklim Perez. O Dr. Pedro Caminero disse-me que teria de fazer algumas massagens. Perguntei-lhe se as faziam ali. Indicou-me um enfermeiro do Hermanos Ameijeiras, o Juan Carlos, com quem falou para me atender. O Juan Carlos já havia trabalhado no Chile com contrato. Foi uma vez a casa da Edelsa, onde eu dormia, aqueceu água e depois deu-me uma massagem. O pulso parecia uma pedra. Como viu que em minha casa não havia condições para o tratamento, combinámos eu ir todos os dias de manhã ao hospital Hermanos Ameijeiras, onde ele trabalhava. Atendia-me no seu gabinete, pondo um colega já meio velhote, o Pancho, à porta, à espreita, não viesse a chefe.

Eu metia o braço num pote adequado com parafina quente e depois ele dava-me massagens. Uma ou outra vez a chefe apareceu. O Pancho avisava e eu sentava-me num banco, como se fosse amigo do Juan Carlos e tivesse ido conversar com ele. Depois de umas tantas massagens o pulso voltou ao seu normal. Gratifiquei o Juan Carlos com 20 dólares e o Pancho com 2$.

Perto da casa do Roca em Santa Clara havia um Policlínico. Fui lá mostrar-lhes o meu pé direito com a unha do dedo grande com micose que não saía, por mais tratamentos que tivesse feito. Receitaram-me umas pomadas que aviei na farmácia. Como as médicas eram conhecidas do Roca, atenderam-me bem. Gratifiquei duas médicas com umas cervejas em minha casa.

Quando acabavam o curso, os novos médicos vinham de todas as partes a Havana receber os diplomas das mãos do Comandante Fidel. Conheci muitas médicas nessas alturas e tive amores com várias.

Enfermeiros são em grande quantidade. Têm vários graus de enfermagem. Há cursos de um ou dois anos, como equivalentes ao 12.º ano. São uma espécie de enfermeiros auxiliares. Os verdadeiros enfermeiros têm curso superior. Os que me prestaram alguns cuidados eram bons profissionais. Conheci enfermeiras em grande quantidade e recebi carícias de muitas delas.

Os enfermeiros podiam sair do país, desde que convidados. A partir de certa altura o governo não os deixou sair mais, salvo com contrato, em que o Estado recebia uma parte do ordenado, tal como os médicos. Tanto médicos como enfermeiros, se quiserem emigrar, tinham de pagar o curso em dólares. Fica caro. Isso impediu-me de trazer uma ou outra médica para Portugal.

Resultados médicos, alguns com o nome Franklim Pérez

Resultados médicos, alguns com o nome Franklim Pérez

(Fim da Etapa 45.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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