A Erosão esquecida…

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Quando iniciei a minha vida profissional trabalhei no Instituto Superior Técnico (IST), de Lisboa, em conjunto com o denominado Grupo das Cheias de Lisboa, para estudar e minimizar o efeito das precipitações intensas que causavam cheias na Área Metropolitana de Lisboa, designadamente nos afluentes que foram sendo invadidos com urbanizações selvagens desde Oeiras até Vila Franca de Xira. Em 1967 ocorreram mortes, algumas dramáticas, dado o volume e a velocidade das torrentes terem arrastado pessoas e bens.

Erosão hídrica

Erosão hídrica

Agora em África, vejo que a maioria dos rios transportam elevada concentração de sedimentos, devido às tempestades tropicais, mas infelizmente também à «mão do homem», que continua a privilegiar o lucro em detrimento do ambiente. Falo obviamente das desmatações para o aproveitamento das madeiras e das minas de superfície, que igualmente deixam o solo à mercê destas intempéries.

As viagens que tenho efectuado pelo verdadeiro interior de África têm-me trazido recordações dos primeiros estudos de erosão hídrica que efectuei no IST. E, se naquela altura era um problema politico importante porque a capital estava ameaçada, agora anda no esquecimento dos estudiosos ambientais porque só é aflorado com os fogos florestais, principalmente em zonas de serra, e que normalmente acontecem com a maioria dos portugueses de férias.

O facto é que a erosão altera significativamente os regimes de caudais dos rios, bem como as próprias características do mesmo, nomeadamente o perfil longitudinal e transversal. As zonas ribeirinhas são muitas vezes surpreendidas com a subida das águas, afectando áreas cultiváveis e invadindo casas ou outras estruturas.

O conceito de bacia hidrográfica, a base para os estudos de erosão, anda escondido nos chamados Planos de Bacia, uma iniciativa do Estado mas que, julgo, teve uma recomendação legislativa prévia da União Europeia.

Obviamente que nós humanos necessitamos de desenvolver a nossa atividade económica e, qualquer intervenção no território, tem forçosamente impactes no ambiente. Mas há medidas que podem, e devem, ser tomadas, principalmente pelos promotores desses empreendimentos, para minimizar a causa que promove este flagelo. No caso das áreas ardidas a sociedade civil tem dado um enorme exemplo na plantação de árvores, pena é que muitas das vezes fora da época apropriada e outras vezes com espécies não adaptadas ao clima da zona intervencionada. Mas acima de tudo o gesto é louvável.

Ninguém nasce ensinado e, com o tempo e muitas idas para o terreno, é que fui aprendendo estes pormenores mais técnicos com as gentes do campo. Aqui também a minha preparação escolar foi quase nula, provando que a sabedoria popular ainda tem muito valor.

Mas de facto há outras medidas de minimização, com pequenas obras de engenharia, e que, muito raramente aparecem a concurso. Em Portugal, concretamente.

Existe a erosão costeira, provocada pela acção do mar, e que é igualmente uma preocupação dada a probabilidade da subida no nível médio e das tempestades que se têm vindo a agravar. Neste caso, à semelhança da erosão fluvial, tem uma forte componente de responsabilidade dos humanos, no que refere ao planeamento urbano, licenciando habitações sem atender às faixas de protecção. Obviamente com a entrada na União Europeia estes aspectos mais sensíveis passaram a estar legislados e hoje é quase impossível construir em zonas de dunas ou costeiras.

Mais uma vez é preciso sair do meu país para ver realidades que nos tocam e andam esquecidas. A erosão hídrica, ou mesmo costeira, é um aspecto muito importante que tem consequências com as alterações climáticas.

Manifestar, protestar e exigir é importante. Mas mais importante é no mínimo prever, e salvo erro, este tema anda por alguma «gaveta».

Porém, se estou enganado, então apresento desde já as minhas desculpas!

Rio Luachimo, 22 de Novembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

3 Responses to A Erosão esquecida…

  1. José Geraldes diz:

    Sempre oportuno a apontar o caminho para situações que carecem de medidas preventivas. Abraço.. José Geraldes

  2. Alex diz:

    Consciência ecológica
    Muito bem

  3. Cupi Baptista diz:

    Ja que falas do rio Luachimo, podemos desenvolver este raciocínio da cronica para promover mesa redonda no âmbito da nossa consultoria na EPASLN? CB.

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