Manifesto de um dirigente

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Quem diria que um Lobito, em 1971, do Corpo Nacional de Escutas viria a ser Dirigente, a 16 de novembro de 2019, na Fazenda do Dacosta, perto da cidade de Dundo, pela Assciação de Escuteiros de Angola. Obviamente sem o apoio da Junta Regional da Guarda, que publicamente agradeço, e de muitos irmãos escuteiros, dirigentes e fraternos, que sempre estiveram ao meu lado na concretização deste sonho. Dedico esta investidura ao Chefe Joaquim Alves Fernandes, irmão que sempre me ensinou e orientou na arte de saber ser escuteiro.

Manifesto de um dirigente

Manifesto de um dirigente

Recebido em audiência por S. Exa. Reverendíssima, o Bispo de Dundo, D. Estanislau Chindecasse, encaminhou-me para um agrupamento em formação, perto da zona onde actualmente vivo.

A chegada não podia ser mais entusiasmante, com a alegria dos escuteiros de Angola, a sentir que estes cabelos brancos, talvez lhes trouxesse a esperança de ter condições mais dignas. A sede do agrupamento é um descampado, rodeado de contentores, mas a alma escutista prevalece, porque a esperança é a ultima a morrer!

Concluído em Portugal o Percurso Inicial de Formação, surgiu a oportunidade de efectuar a investidura num outro país, mostrando que o Escutismo é sem duvida uma Fraternidade Mundial. As credenciais da Junta Regional da Guarda foram mais que suficientes para finalmente concretizar um sonho que perseguia faz décadas.

Só mesmo um escuteiro consegue avançar para um mundo completamente desconhecido, acampar num local que nem imaginava e uma cerimónia com muita honra e alguma diferença de Portugal.

Agradeço igualmente à Junta Regional da Lunda Norte a preocupação na minha integração, ao ponto, por exemplo, a investidura ter sido efectuada sobre a Bíblia, com as bandeiras da Junta Regional e da República de Angola, estarem hasteadas.

O lenço foi recebido ajoelhado e a cerimónia foi efectuada em formatura. Porém, depois veio a festa com musica africana cantada nas várias línguas nacionais de Angola, com o velhote português a dançar como podia. O «gelo» foi derretendo e os meus novos irmãos dirigentes, foram-se aproximando e pedindo selfies porque, na realidade, era um convidado inesperado para muitos.

Após a investidura

Após a investidura

Nesta actividade tive a honra de participar no 2.º INDABA Regional, onde o debate e a diferença de gerações se faz marcar, como noutros países. A serenidade dos mais antigos contraria o «sonho» da juventude. Mas a realidade é como é, e, sem duvida, que todos e todas, vivemos tempos de muita incerteza, o que dificulta planear qualquer actividade num prazo mais distante.
Outro tema em discussão é a influência da Igreja no seio do movimento angolano. Achei curioso, por exemplo, jovens dirigentes condenarem o divórcio e a vida marital de outros dirigentes. Mas o oposto também ouvi, no que diz respeito à abertura desta Associação a outras confissões religiosas, desde que cristãs.

Na realidade a aposta na educação que já tinha notado noutras vindas a Angola está a dar os seus frutos. A juventude pensa por si e não tem medo de dizer o que lhe vai na alma, mesmo aos mais altos cargos da Região, sabendo no entanto sempre respeitar os Irmãos mais velhos.

Sendo estrangeiro, nunca senti estar fora deste movimento escutista, e inclusivamente participei no debate, defendendo os cabelos brancos, porque sem sustentabilidade económica é impossível implementar seja o que for, nomeadamente formações onde, neste caso, grande parte dos formadores têm de vir de avião. E, no meu caso que até poderia ajudar com os meus conhecimentos, falta-me o CAP para ter aptidão para tal.

Não me posso sentir mais feliz com mais uma etapa da vida concluída com sucesso. E, por sorte, fiquei com a Primeira Secção, os mais novos, onde eles me pedem para mexer no meu cabelo porque é diferente dos africanos. O toque inicial quase que os amedronta, mas depois dizem que parece veludo. Toda esta vivência é impossível de descrever.

O facto é que o movimento fundado por Baden Powell me deu a mão numa fase de aventura da minha vida. E não é a primeira vez que ter sido escuteiro, em criança e jovem, me deu força e resiliência para os desafios que tenho tido ao longo deste percurso que chamamos vida.

Não pretendo com este manifesto dizer que a vivência escutista é a melhor «coisa» do mundo. Apenas digo é que no meu caso pessoal foi um sucesso na minha vivência e conduta como homem, esposo e pai.

E o mais enriquecedor é sentir que noutras partes do mundo os princípios são os mesmos, o que facilita, e muito, a vivência e trocas de experiências.

António José Alçada
Dirigente da Associação de Escuteiros de Angola

Fazenda do Dacosta (Dundo), 16 de Novembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Manifesto de um dirigente

  1. José Geraldes diz:

    Grande Kamba, fico feliz por verificar a boa continuidade da tua integração com os irmãos angolanos e poderes partilhar a tua experiência da escola da vida e de escuteiro, com os jovens, que te fazem sentir jovem, apesar dos teus cabelos brancos de “veludo”. Forte Abraço….há sapatos para dançares Kizomba, semba e danças tradicionais. Tudo bom para ti.

    • António José Alcada diz:

      Obrigado grande Soba. Como prometido estou a fazer o que sempre sonhei. A agradeço as portas que me deram incentivo a esta caminhada que espero longa. Tudo bom para ti…

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