Um engenhoso chefe de posto

Um chefe de posto da antiga administração colonial portuguesa em Angola, servindo-se de um engenhoso esquema, gozou umas longas e serenas férias sem que os superiores se apercebessem da sua ausência.

N’Riquinha (Angola)

Estávamos na década de 1950, quando o chefe de posto de N’Riquinha, povoação isolada e inserida numa zona quase desértica do sudoeste de Angola, andava cansado de permanecer nas chamadas Terras do Fim do Mundo, sem ser substituído e sem ser autorizado a ausentar-se para gozar um período de descanso de que se achava merecedor.

Na região vivia-se com monotonia. Raramente havia visitas das autoridades administrativas e as obrigações verificáveis do infeliz chefe de posto resumiam-se ao envio de um relatório mensal com a descrição das suas rotineiras actividades. Dificilmente dariam pela sua ausência, pelo que engendrou um plano para se retirar por alguns meses.

Escreveu e assinou todos os relatórios para o período em que estaria ausente, ordenou-os cronologicamente e depositou-os sobre o tampo da secretária. Deu então instruções ao cabo de sipaios (guardas «indígenas» recrutados pela administração colonial) para que, no final de cada mês enviasse um relatório, seguindo a ordem estabelecida.

Confiante em que tudo correria bem, atravessou a fronteira de Angola com o Sudoeste Africano (hoje Namíbia), em direcção a Windhoeck. Dali seguiu para Joanesburgo, de onde voou para Lisboa, como um passageiro normal.

No início tudo correu bem em N’Riquinha, com o sipaio a cumprir zelosamente as instruções no envio regular dos relatórios. Porém, um dia, um vento repentino e muito forte entrou pela porta do escritório, fazendo voar os relatórios que restavam sobre a secretária. O sipaio recolheu-os do chão imediatamente, mas, não sabendo ler as datas, colocou-os em ordem casual. Em consequência, a entidade destinatária começou a receber relatórios com datas completamente incoerentes, ora adiantadas, ora atrasadas, o que causou enorme estranheza.

Mas, sabendo-se que o local era isolado e que o chefe de posto ansiava há muito por ser substituído, prevaleceu a ideia de que o homem estava «apanhado», e essa era a razão das datas trocadas nos seus relatórios.

O chefe de posto voltaria meses mais tarde ao seu lugar, sem que os superiores se tivessem apercebido da longa ausência.

Seria mais tarde vítima de si mesmo, quando, já na metrópole, se gabou da peripécia nos bares e tabernas que frequentava em Lisboa. A história espalhou-se e chegou onde o chefe de posto não desejava, sendo sujeito a um processo disciplinar, com respectiva punição.

Informação colhida do contributo de José Aparício para o livro «Geração do Fim», Lisboa (2007).

:: ::
Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»

Deixar uma resposta