Um saber que não tem tempo

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

O senhor Herculano Jacinto, cigano há oitenta e três anos, tal como orgulhosamente fazia questão de afirmar enquanto torcia e retorcia o seu bigode farfalhudo, preparava-se para mais uma manhã de exibição da sua arte.

Herculano Jacinto

Enquanto o sol invadia o seu aposento, outrora uma pequena garagem onde mal cabia um automóvel, o senhor Herculano Jacinto sentia-se como peixinho na água, na arte de manusear as vergas de salgueiro que, pouco a pouco, iam ganhando a forma de um lindíssimo açafate ou, como tínhamos visto antes, de uma cesta ou mesmo de um garrafão.

Efetivamente dava gosto ver o desembaraço com que entrelaçava as brancas varas de salgueiro. Enquanto isso, explicava-nos minuciosamente que os salgueiros e os vimeiros só se dão em terrenos com muita água, junto aos ribeiros. De imediato, sem usar a expressão “alterações climáticas” soube teorizar muito bem sobre os efeitos da seca, nos lameiros que já não há, nos ribeiros e ribeiras que estão secas e da escassez de comida para os animais que começa a ser preocupante.

Em termos de conclusão enfatizou o discurso para dizer que, depois de cortadas, as varinhas finas de salgueiro e vime têm de ser descascadas e secas. Para facilitar o seu manuseio elas eram fervidas conferindo-lhe assim maior elasticidade e remata à sua maneira “corta-se a verga, descasca-se, ata-se aos molhos e põe-se a secar. Depois, para ficar mais macia e ser mais fácil a sua utilização, molha-se muito bem, é só isto, não custa nada!”.

Obrigado senhor Herculano Jacinto por esta lição de vida. Graças a si e a pessoas como o senhor este saber e arte, de um tempo remoto, continua a persistir nos nossos dias.

Joaquim Luís Gouveia – Casteleiro

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Joaquim Luís Gouveia

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