A angústia de uma partida

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Tenho esse direito, pelo menos assim o entendo, manifestar a angústia de partir. Mas de facto a vida resume-se um pouco à contagem do tempo e não somos insubstituíveis. Todos gostam de receber um abraço, um cumprimento, tal como no desporto, mas de facto na vida profissional não é assim. De facto, não nos podemos esquecer que também somos pagos, e umas vezes melhor, outras pior, vamos cumprindo com as nossas tarefas. Para quem nunca saiu do seu espaço julga que onde está é o pior dos piores. Mas enganem-se. A vida profissional, levada a sério, é bem dura seja onde for. Até nas Caraíbas!

Cá vou eu mas desta vez por alguns anos

Cá vou eu mas desta vez por alguns anos

Chegou a hora de, finalmente, concretizar um sonho que tenho desde que comecei aminha vida profissional. Ter um contrato fora do país durante uns anos. Sempre adorei trocar experiências com outras culturas e, nesse aspeto, tive a felicidade de o fazer em Portugal, onde esses contratos me marcaram todos pela positiva. Um deles até tive um prémio que só entendi mais tarde.
Obviamente não vou entrar em detalhes. Este texto apenas pretende transmitir que um homem com 60 anos ainda tem a coragem de ir para o desconhecido. Não é o salário, nem as mordomias. É sentir a realidade de outros povos que vivem deforma diferente. E nesse aspeto devo muito à minha saudosa mãe o incentivo de viajar e conhecer o mais possível. Entender as culturas de outros povos enriquece-nos a vivência quotidiana. Um problema para um português não o será para um russo, ou malaio, ou até brasileiro.

Aliás o Brasil foi dos sítios que mais me fascinou. Para além de falarmos a mesma língua aprendi a expressão: «Viver um dia de cada vez.» Cá também se diz, mas lá é bem mais real. Aliás a moeda brasileira, o real, é um autêntico paradoxo. Porque na realidade quem precisa não a tem!

Nos 22 países que visitei aprendi sempre algo de novo. E os cursos e especialidades que tirei não se comparam à riqueza do que tenho aprendido nestas viagens, ao ponto de me ter tornado escritor, ou cronista, se preferirem. Em grande parte delas tenho um diário do que vivi, senti, das dificuldades porque passei e das amizades que acabamos por perder.

E nesta experiência que me aguarda irei fazer o mesmo. E os textos na Capeia serão emoldurados de outro colorido, onde se verá miséria, riqueza e problemas como nós também cá temos.

A amargura vem no contrabalanço. Deixamos os amigos, a família, a bica, o bitoque, o arroz doce beirão, e a jeropiga. E mesmo com as novas tecnologias, que nem sempre funcionam, e nos tornam mais próximos, nunca é a mesma coisa. Mas no regresso também é verdade que o reencontro é mais forte e mais unido. E de tanto viajar, sei bem que a «minha alegre casinha» é o melhor que tenho.
Ao contrário de muitos, irei ocupar os tempos livres em voluntariado. Felizmente há missões católicas e já está combinado um encontro, agradecendo, mais uma vez, ao António Alves Fernandes os contactos que me forneceu. O pior que fazemos é contar os segundos no fim de semana a ver televisão, a beber uma cervejinha, a deambular nas ruas sorrindo para os desconhecidos.

Assim sinto-me útil e cumpro mais outro objetivo: ajudar quem efetivamente precisa, onde não há Segurança Social, nem Serviço Nacional de Saúde, mas há vontade de viver e lutar para um mundo melhor.

A palavra-chave é sempre a mesma: equilíbrio. Em garoto o açúcar, o arroz, os feijões eram pesados numa balança de equilíbrio. Mas este equilíbrio é bem mais difícil, o que nos obriga a pensar, esforçar e efetivamente sentir-nos úteis à sociedade.

O curso que tirei em Lisboa, designado por FGPE, marcou-me de uma maneira que me tornou noutra pessoa. Mesmo não o tendo concluído, deixei vícios e hábitos que tinha e comecei a olhar a vida de uma forma mais espiritual que material.

E de tanto lutar por uma oportunidade destas, acabaram por surgir várias, dando-me possibilidade de escolher «o fato» à minha medida. O FGPE deu-me o substrato que me faltava: acreditar no amanhã, e que nada é impossível.

Temos é que fazer por isso!

Um até breve.

Aeroporto da Portela, 18 de outubro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to A angústia de uma partida

  1. Ricardo Fernandes diz:

    Felicidades amigo! Nesta fase da minha vida os outros países são só para turismo. Abraço

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