Colaço… um Senhor Padre

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Tive a sorte de o conhecer num contexto fora do comum. Não era seu paroquiano e, para além disso, um perfeito desconhecido. Um dia fui-lhe bater à porta. A reunião foi difícil de marcar, mas depois de alguma insistência da minha parte, acabou por acontecer. Estava a nascer a Fraternidade Nuno Álvares no Fundão, e para além da grande ajuda do Chefe Regional José Sebastião, era necessário a «bênção» da Igreja. Coube-me a mim a tarefa de reunir com ele: Jorge Colaço, Arcipreste do Fundão.

A despedida do Padre Jorge Colaço

A despedida do Padre Jorge Colaço

Reconheço que não foi fácil convencer o Padre Colaço a abençoar o futuro Núcleo da Fraternidade Nuno Alvares (FNA). Era um homem convicto e sabia o que queria. Falava com eloquência e procurava a distância.

Estudou-me dos pés à cabeça e, durante a conversa, procurava encontrar alguma contradição. Queria ter a certeza que estava a falar com a pessoa certa e entender se a FNA poderia trazer alguma vantagem à Paróquia.

A conversa passou-se em fevereiro de 2016, e estava-se nas vésperas do Conselho Nacional, que iria alterar os estatutos, onde uma região teria de ter no mínimo cinco núcleos ao contrário dos três que naquela data ainda abriam a possibilidade de criar a Região da Guarda.

Eu estava muito tenso. O tempo corria contra mim. Mas o Padre Colaço pensava essencialmente se a FNA era um movimento que interessasse ao Fundão. Cada pergunta que me fazia era uma resposta muito bem refletida. Como num exame.

Na realidade o que o preocupava era criar mais um movimento. Um movimento «despernado» dos restantes. O seu grande objetivo era que todos colaborassem entre si e não seguissem um rumo desnorteado.

Não sendo do Fundão, tive de pensar nas cores que defendia. E de facto a FNA procura a convivência com os outros movimentos escutistas, e não só. Dei-lhe o exemplo das atividades do ambiente, onde se juntam escuteiros de outros movimentos e até associações ligadas a causas ambientais.

Falei-lhe nas procissões na Covilhã onde a FNA e o CNE vão lado a lado.

Percebi então que no Fundão havia o movimento das Guias de Portugal. E sentia mágoa de não as verem mais vezes com o CNE.

Assumi o compromisso que tal não iria acontecer, e o próprio envolvimento do Chefe Regional no processo, era para já uma garantia, de que os movimentos andariam de mãos dadas.

O facto é que o acabei por convencê-lo e até pensou numa sala para a futura sede.

Convidei-o para ser o Assistente, mas deixou a resposta em suspense. Apenas agradeceu e deixou as «portas» abertas ao futuro Núcleo da FNA.

Passados estes anos acredito que esta conversa apenas serviu para confirmar aquilo que sabia. Sem dúvida que deve ser um homem que estuda bem os assuntos antes de os discutir. Eu apenas servi para confirmar o que pensava ou mesmo para tirar alguma dúvida.

Mas o que mais me surpreendeu, passado mais de um ano depois desse encontro, creio que em outubro de 2017, encontra-me num restaurante. Levanta-se e vem-me cumprimentar.

Para mim foi mais que uma honra, foi um reconhecimento de que aquela conversa não ficou no esquecimento.

Por isso, nesta hora de despedida do Sr. Padre Jorge Colaço, como pároco do Fundão, presto-lhe a minha homenagem como uma das pessoas mais interessantes que conheci, e que sem dúvida, mais contribuiu para que a FNA no Fundão, seja um movimento reconhecido por todos.

Tal como muitos e muitas desejam, boa sorte e felicidades, para um homem que deixa marcas por onde passa. Mesmo que muitos e muitas não gostem!

Grândola, 9 de setembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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