Casteleiro – Medidas antigas para sólidos e líquidos

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Hoje trago em repetição algo que me fascina mesmo: que termos eram usados na medida de sólidos, de líquidos… e até da moeda – naqueles tempos heróicos da minha meninice? Espero que valha a pena recordar isto tudo… É um pouco longo, mas «necessidade obriga»: temos de ter a paciência de ler tudo, está bem?

Balança Decimal - Capeia Arraiana

Balança Decimal (Foto: D.R.)

Medidas para líquidos - Capeia Arraiana

Medidas para líquidos

Como se mediam antanho a bebida, os líquidos? E a moeda como era referida? Os sólidos, a batata, o grão… como se pesavam – melhor, como se indicava o peso, por exemplo, da batata colhida ou da que se ia vender?

Há palavras que hoje trago aqui mais uma vez – e que os mais novos nem sequer conhecerão… Só por isso, já vale a pena arriscar ser colocado na prateleira das velharias…

O tempo dos «mil réis»

No acto da venda do vinho ou da compra de batata de semente, os indicadores de peso e de medida não eram em geral os mesmos que hoje usamos.

Até a moeda que circulava era outra – o escudo – e disso ainda quase todos se lembram, embora para muitos de nós hoje já não seja simples a conversão, tal foi o domínio do euro…

E, coisa mais séria, a geração anterior à minha ainda tinha muito presente o real (moeda do tempo da Monarquia, como se sabe) e cujo plural é réis. Ou seja: 1 real ou 10 mil réis…

Hoje, faz-me confusão quando alguém ainda fala em «contos» ou em escudos porque o meu cérebro já não está aí. Nem pode com poupança de energias e adaptação.

Imaginem então, quando eu era miúdo, ouvir os pais e tios e vizinhos entenderem-se não em escudos mas falarem de «tantos mil réis».

Claro… uma pessoa habitua-se e nem dá por ela.

Mas quando se chega à escola ou se sai da terra para estudar… e depois se volta, já fazia muita diferença, embora a relação decimal fosse mais clássica e simples do que esta «actual» relação de 200 (escudos) para 1 (euro) ou de 1 («conto») para 5 (euros).

Medidas para sólidos como grão, feijão, arroz, etc. - Capeia Arraiana

Medidas para sólidos como grão, feijão, milho, etc.

Medir os sólidos…

As designações das medidas usadas para os sólidos (centeio – «pão» –, batata, milho, etc.) são as que seguem. Pelo menos as principais, que serão aquelas de que me lembro melhor. Exemplifico logo a que mais se aplicavam, para melhor entendimento ou rememoração.

– Uma arroba de batata = 15 quilos.

– Um alqueire de pão ou um meio ou uma quarta de pão – metade de um meio, um quarto – sempre relativamente ao alqueire, claro.

– Um alqueire, eram mais ou menos, 14 litros.

Cabaz de sardinhas - Capeia Arraiana

Cabaz de sardinhas

Um quarteirão de sardinhas

Mas usavam-se formas menos rigorosas de «medir» certos produtos, em situações determinadas. Por exemplo: uma carrada de lenha se fosse no carro de vacas; uma carga de lenha se fosse na burra; um alforge de produtos da terra, assente na albarda da burra; uma saca de milho ou uma fatcha de palha (um feixe), um cesto ou uma cesta de batatas… Eram medidas nada exactas mas bem certas para os agricultores desse tempo da minha infância.

Para nós, crianças, era perfeitamente natural e rigoroso ir à senhora que tinha laranjas e as trocava e trazer uma cesta de laranjas em troca de uma cesta de batatas…

Outra medida, a onça, essa, já não se usava. Mas ainda se falava e até ainda hoje se fala de «uma onça de tabaco». E, do velho arrátel, já nem se falava naquele tempo.

Outra medida, a onça, essa, também já não se usava. Mas ainda se falava e até ainda hoje se fala de «uma onça de tabaco». E, do velho arrátel, já nem se falava naquele tempo.

Uma nota ainda: pelo menos três das palavras que leu têm origem etimológica no árabe. Falo do almude (al-mude = «medida de grãos»); do alqueire (al kayl = bolsa de carga no dorso dos animais, sempre com determinado peso, mais ou menos sempre o mesmo); e do alforge (al-khurj = «sacola»).

Quanto aos objectos-medida: o alqueire era feito de madeira; o almude era de latão; o alforge, de tecido.

Bilha-Medida antiga para vinho, leite ou azeite - Capeia Arraiana

Bilha-Medida antiga para vinho, leite ou azeite

Para os líquidos…

Parece-me que para os líquidos (a água, mas, sobretudo, o azeite e o vinho) era mais variada a nomenclatura popular alusiva às medidas. Até porque pelo meio havia as medidas da pinga, quer na adega quer na tasca – e isso era coisa muito, mas muito séria…

Assim, aquelas de que me lembro ficam aí adiante registadas.

A água era transportada em cântaros. Mas essa medida não tinha rigor – porque a água não tinha valor económico propriamente dito a esse nível. Era essencial a água no poço ou na mina – mas para regar as terras e não para as trocas ou vendas.

Já com o vinho ou o azeite, a coisa era diferente. O azeite, tanto quanto me lembro, era medido e referido em alqueires (é estranho, mas acho que era assim):
– Este ano, colhemos trinta alqueires de azeite.

Bilha e pote

E para o azeite, sempre ouvi falar de «bilha» e de «pote».

Para o vinho, havia uma panóplia de medidas, desde as pequeninas como o copo de três até às «gigantescas» como a pipa (que podia ir aos 300 ou 400 litros, pelo que me lembro). Seguiam-se: a Pipa, o Pipo (mais pequeno), o Barrico (mais pequeno ainda). Havia outra palavra, mas menos usada: barril. Talvez portanto «barrico» fosse apenas uma corruptela popular dessa outra palavra (barril).

Na tasca e para pequenas vendas falava-se de uma Garrafa, um Quartilho ou Meio-quartilho de vinho e, ao balcão (de madeira, claro, quando o havia), bebia-se um belo de um copo de três…

Pelas vindimas, falava-se de «uma dorna de uvas» – quando se colhiam os cachos. A dorna servia para o transporte mas também para pisar, esmagar a uva, a fim de fazer o vinho.

Para a compra e venda de vinho, as medidas mais usadas eram: um almude (um pouco mais de 16 litros) e um cântaro – metade disso.

Já agora: quando comecei a crescer e a perceber as coisas, sempre me fez impressão que não lavassem as uvas: era colher, meter na dorna e vai disto… O que vale é que por um lado, o mosto ao ferver «desinfectava-se» e, por outro, a Mãe Natureza, em Setembro, mandava quase sempre umas chuvinhas antes da vindima…

E a moeda?

Quanto à moeda, faço uma referência rápida e procuro um circuito temporal, quase histórico. Os nossos pais e avós ainda falavam em «mil réis». Um escudo eram mil réis. Réis é o plural de real, a moeda em vigor e circulação no tempo dos… reis.

Dez marreis, ou melhor: mèrréis / real / réis. Cem mil réis.

Embora vinda do tempo da monarquia, esta forma de referir a moeda veio com a geração anterior à minha até ao fim do escudo, substituído pelo euro em 1999.

Antes de nós, tinha havido também o vintém. Mas já não tinha outro uso que não fosse para jogar à «raioula», sobretudo nas tascas…

A moeda de base em circulação era pois o escudo, cuja centésima parte era o centavo. 10 centavos eram um tostão, 10 tostões, um escudo.

O símbolo do escudo (que não consta no teclado dos computadores) era mais ou menos o seguinte: $. Mas com dois traços ao alto e não apenas um. Este, que vem no teclado, é o do dólar americano.

Outras palavras e expressões do tempo:
– um conto (os mais antigos diriam: «um conto de réis») = 1000 $;
– um cruzado – palavra mais antiga, mas que ouvia muitas vezes: quatro tostões.

Mas as palavras «real» e o seu plural «réis», embora antigas, eram ainda muito usadas. Quem não se lembra? Os nossos pais e tios falavam assim:
– Fui à loja do Tó Pinto e deixei lá quase 20 mil réis…

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

4 Responses to Casteleiro – Medidas antigas para sólidos e líquidos

  1. António Augusto Gonçalves diz:

    “Alqueires de vinho”!
    Alqueire seria para os cereais.
    Mas o mais importante é que torna-se necessário inventariar este património e preservá-lo para memória, como já sugeri.
    Um abraço!
    António Gonçalves

  2. José Carlos Mendes diz:

    Caro AG, na minha terra, que eu saiba, o alqueire foi sempre para sólidos – só que o feijão, por exemplo, media-se em litros… Sei lá… Era isso que se dizia e negociava-se nessa base…

  3. José Carlos Mendes diz:

    Sinceramente, desconheço a razão de tanta curiosidade de tantas pessoas em virem ler este texto tão simples. E o assunto até nem me parece muito atractivo. Então porquê manter-se como 1º dos 5 mais lidos? Só encontro uma explicação: como uma imagem vale por mil palavras… e como as ilustrações inseridas pelo nosso amigo JC Lages são de grande atracção, ele fez destas ilustrações um verdadeiro «show» de imagem e dinâmica (quase)… temos de lhe agradecer a ele a arte e a dedicação demonstrada mais uma vez e sempre.
    Obrigado, JCL. Nunca as mãos te doam (nem os olhos,nem o cérebro, claro). Abraço.

  4. Manuel Luís Nunes diz:

    Recordar é viver!… Parabéns pela crónica! Felicito-o por nos recordar os tempos da minha meninice! Continue e oxalá a memória o incentive a trazer até ao público em geral « modus vivendi» dos nossos antepassados!

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