Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (04)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja.
>> ETAPA 4 >> MARROCOS.

Franklim Costa Braga - Viagens de um GlobeTrotter - Capeia Arraiana

Franklim Costa Braga – Viagens de um GlobeTrotter – Capeia Arraiana


II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

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1966

Viagem a MARROCOS

2.ª viagem – Entre 1 de Abril e 11 de Abril de 1966

Curiosidades
Já fui cinco vezes a Marrocos.

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Atravessei Marrocos no sentido Oeste-Leste de Tânger a Oujda, na fronteira da Argélia, e também no sentido Norte-Sul de Ceuta a Agadir. E não desci apenas pela costa. Também visitei o interior. A primeira vez que visitei Marrocos foi no meu 3.º ano da Faculdade, em 1966, com o prof. Luís Filipe Tomás, numa excursão de estudo dos alunos de História, nas férias da Páscoa. Eu era de Românicas mas, como era amigo havia anos do prof. Luís Filipe e seu aluno na disciplina de História da Expansão Portuguesa, também fui, bem como mais três colegas minhas de Românicas – a Helena Abreu, a Maria Alpoím e outra de quem não recordo o nome. O João, o Guerreiro, a Isilda e a Matilde, que viria a ser esposa do Dr. Sousa Franco, eram alguns dos alunos de História que faziam parte do grupo. Havia também um casal – a Salete e o Salvado. Ele, mais velho, era jornalista do Diário de Notícias. Acho que fez uma reportagem sobre a viagem e até ofereceu um exemplar aos participantes nela. Se me deu algum exemplar, não sei onde pára. Acompanhou-nos o prof. Cunha, de língua árabe.

O grupo visita o souk de Azamor - Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

O grupo visita o souk de Azamor – Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana


O grupo de Românicas em Arzila Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

O grupo de Românicas em Arzila – Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana


As meninas e os rapazes marcaram lugar nos hotéis. Eu e o Luís Filipe levámos uma tenda de campismo, um saco de rações de combate compradas no Casão Militar e dois vergas de tinto. As rações incluíam sandes e peras de conserva, entre outros produtos. Algumas vezes, outros quiseram servir-se das nossas rações. E o vinho era pretendido também por outros, como o Guerreiro. Logo na primeira povoação marroquina em que parámos, comemos o almoço num jardim. Não tínhamos copo para o vinho. Pedimos um num café. Fizemos menção de oferecer vinho a uns velhotes. Um tanto agastados, ou escandalizados, responderam:
– Nosotros?!

Franklim em Azamor - Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Franklim em Azamor – Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana


Visitámos Arzila, Larache, Alcácer Quibir, Volubilis, Moulay Idriss, Fez, Meknés, Rabat, Casablanca, Azamor (ver foto do grupo no souk e eu junto de mulheres marroquinas), Mazagão, actual El Jadida, e a sua cisterna portuguesa, Safim, Marrakesh, Asni, Tetouan e Ceuta. Não garanto que tenha sido por esta ordem. Ou seja, visitámos os lugares onde a presença portuguesa foi marcante.

Fontenário de Fez - Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Fontenário de Fez – Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana


Franklim montado num camelo - Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Franklim montado num camelo – Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana


1.4.1966 – Saímos pelo Posto de Ficalho e creio que aguardámos barco em Algeciras dentro do autocarro.

2.4 – Entrámos em Ceuta vindos de Algeciras. Demorámos aí pouco tempo, já que voltaríamos lá no regresso. Mas o tempo foi suficiente para comprar uma Canon, que havia de deixar em Itália, ao entrar à boleia para um carro e ela ficou na estrada dentro dum pequeno saco marroquino de cabedal trabalhado.

Devemos ter seguido para Tânger, onde visitámos a grande Mesquita de Sidi-Bu-Abid. Aqui começou um mundo diferente com homens trajando albornozes e djellabas, com a cabeça coberta por turbantes de diversas cores, e mulheres de cara tapada com lenços de seda, apenas se vendo os olhos. No entanto, não deixavam de ser mulheres, usando pinturas caseiras nos pés, já que na cara não se viam.

3.4 – Seguimos até Marrakesh, onde visitámos o mercado, com os vendedores de água-aguadeiros, de que comprei um boneco, que nos reportavam para um século antes, época em que aguadeiros galegos faziam esse trabalho em Lisboa. Encantadores ou manejadores de serpentes, tocadores de tambores e flautas e toda a panóplia de produtos marroquinos, dos cobres aos cabedais, frutos, entre eles as laranjas, que lá chamam portuguesas, talvez por terem sido os portugueses a introduzi-las lá, e assadura de espetadas, com o mosquedo a toda a volta e a poeirada da terra batida.

Os manejadores de cobras, que no-las punham ao pescoço para a fotografia, faziam-nos crer que estávamos noutro mundo, embora receosos de sermos mordidos ou com simples nojo. Comprei aí duas guimbras. Não menos conhecida é a sua mesquita La Kutubia, com o famoso minarete. Era proibido tirar fotos às pessoas, sobretudo a mulheres e crianças.A estas por superstição de, quem as visse, fazer recair mau agoiro sobre elas.

As mesquitas com seus minaretes constituíam também atração pela novidade. O mesmo poderei dizer da construção das casas, a profusão de objectos de cobre, a moeda – o dirham – que nos obrigava a fazer contas cada vez que apreciávamos qualquer artigo, coisa estranha para quem só conhecia o escudo e a peseta. As medinas imensas, as mesquitas, a vozearia dos altifalantes daquelas a chamar à oração, eram outras novidades.

4.4 – Dormimos em Asni (ver foto), idos de Marraquesh, onde não pudemos dormir. Não sei o que se passou com a marcação de hotéis. Já noite, fomos dormir ao albergue da Juventude da aldeia de Asni em plena montanha do Atlas, a uns bons quilómetros da cidade. No caminho, fugindo aos faróis do autocarro, vimos muitos cohotes. O local era bonito, com um ribeiro a correr montanha abaixo, em cujas águas geladas nos lavámos na manhã seguinte.

Carimbo de entrada em Asni - Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Carimbo de entrada em Asni – Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana


Em Asni - Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Em Asni – Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana


5.4 – Visita de Alcácer Kibir, numa planície de searas onde, junto da estação de caminho de ferro, estava uma placa que assinalava o local da trágica batalha para os portugueses, cujo rei D. Sebastião ali desapareceu, dando lugar ao mito sebastianista. Também visitámos Meknés, com a sua magnífica Porta de Bâb Mansour, do séc. XVII. Perto de Meknés fica a cidade de Moulay Idriss, onde havia um centro de leprosos, que muito me impressionaram pelo seu aspecto, algo novo para mim. Mas antes visitámos Volubilis com as suas ruínas romanas em maior quantidade do que em Portugal, o que me impressionou, sobretudo o Capitólio. No contacto com o campo tivemos ocasião de ver paisagens típicas com palmares, camelos e dromedários.

Lembro-me de ter visto um camponês que lavrava um campo ter parado o trabalho, virado para Meca, de joelhos, a rezar a Alah, curvando-se, como se estivesse a fazer ginástica. Era o meu primeiro contacto com a vida dos muçulmanos.

6.4 – Visita de Fez, do fontenário (ver foto), da masmorra onde esteve preso o Infante Santo pelo mau resultado do ataque português a Tanger, e uma oficina de trabalho do cobre, onde o Luís Filipe se encontrou com um professor local.

7.4 – Em Azamor visitámos a fortaleza e o souk (ver foto), em Mazagão, actual El Jadida, a cisterna, um belo exemplar da arquitectura portuguesa, com uma muralha portuguesa também famosa. Em Rabat visitámos a fortaleza feita pelos portugueses, as muralhas da cor do barro de que foi feita, com buracos para o barro poder respirar e impedir que não secasse. Técnicas militares que os portugueses dominavam bem! Explicaram-nos que o barro, para ser consistente, teria de ser misturado com palha, tal como se faz com as casas de adobe.

8.4 – Em Casablanca acampámos num jardinzito retirado do centro da cidade. Eis senão quando vêm apressuradas umas tantas colegas apavoradas, que nos quartos havia uns marroquinos debaixo das camas. Tivemos de as abrigar na tenda.

9.4 – Entrada em Ceuta. Visitámos a igreja de Santa Maria de África e o comércio, já que se tratava de venda de produtos isentos de taxas. Claro que, em todas as cidades, os souks eram alvo de visita por nossa parte, como turistas ávidos de fazer compras.

10.4 – Era Domingo de Páscoa. Saída para Espanha. Visita de Sevilha, com assistência a uma tourada.

11.4 – Entrada em Portugal por Elvas.

(Fim da Etapa 04.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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