O regresso…

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Um dos valores da cidadania é sermos gratos para quem profissionalmente ou voluntariamente se lembra das nossas fragilidades, das nossas necessidades físicas e psicológicas ou até morais.

Museu Romano POROS, em Sicó

Quando se recebem afetos, competências de serviços de saúde ou outros, quando nos acompanham, nos estimulam, só há uma atitude a tomar, manifestar gratidão a todos esses agentes.
Infelizmente ainda há quem pense que o culto deste valor está sujeito a imposto de mais valias. Com o apoio de um irmão escuteiro segui com destino a Condeixa-a-Nova, à Casa de Saúde Rainha Santa Isabel das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Foi uma ajuda voluntária, sem hipocrisia, sem estar à espera de contrapartidas. Uma colaboração direta, espontânea, de um homem de boa vontade, que acabou de fazer a sua boa ação.

Casa de Saúde Rainha Santa Isabel

Numa sociedade tão competitiva, com receios, sem valores, e ainda com tantos muros erguidos e caminhos fechados, não admira que os níveis de doenças do foro mental cresçam diariamente e muitas delas sem o acompanhamento adequado.
Em Condeixa-a-Nova, há uma Instituição preocupada em dar uma melhor resposta a estes problemas, estando lá os guindastes para alargamento desta Unidade de Saúde, criando assim mais espaço para acolher com qualidade e humanidade Pessoas que carecem deste tipo de apoio. Ontem como hoje os mesmos objetivos nas diversas unidades de tratamento, o melhor acolhimento e assistência, as mesmas afetividades, ambiente ocupacional, espiritualidades… Nos espaços que percorro, lembra-me os tempos da minha recuperação, encontro num dado corredor um enorme placar com a mensagem natalícia individual, enquanto em outros placares não foi esquecido o Dia Internacional das Pessoas com Deficiências.
Entre abraços, beijos e cumprimentos não dei pela manha passar, chegando rapidamente a hora do almoço numa movimentada churrasqueira a preços populares.
Enquanto saboreamos o repasto nem conseguimos estar descansados. As notícias só nos falam e dão imagens de greves e mais greves, de todos os ministérios e outros serviços públicos fazendo-nos lembrar os famigerados tempos do PREC (Processo Revolucionários em Curso), em que as greves aparecem mais que míscaros em pinhais da Cova da Beira.
Despedindo-me com saudades destes meus amigos, procuro aproveitar o tempo que me resta com a nossa cultura. Há muito que estava na mente uma visita ao Museu Romano POROS (Portugal Romano em Sicó), instalado na Quinta de S. Tomé, numa Casa Senhorial, tendo diversos vestígios da presença romana, nomeadamente salas de banhos, termas, saúde e higiene. Quis sentir-me um verdadeiro «romano» durante o tempo que estive naquele museu, regressando e recordando o meu ensino secundário e as lições do Dr. João Castro Nunes, um dos melhores professores das disciplinas de português, grego, latim e história.
Fiquei então a saber que os Romanos chegaram à região de Sicó em, 135 A.C., nas campanhas do Imperador Júnior Bruto.
Na receção do Museu conheci um rapaz casado com uma jovem do Tortosendo, sendo também proprietários de uma quintinha em Alpedrinha. Tiveram de abandonar a Beira Baixa para ir trabalhar em Condeixa-a-Nova. A sua gentileza e as nossas proximidades geográficas abriram caminho para um franco diálogo.
Enquanto me explicam o importante património romano a visitar, falam-me preocupadamente na falta de tempo para ir apanhar a azeitona do seu olival, em Alpedrinha, que lhes oferece o melhor azeite do mundo. Lembrei-lhes que foram os Romanos que difundiram no Norte da Península Ibérica o vinho e o azeite com o cultivo da vinha e das oliveiras. Também em termos gastronómicos, com o bom azeite romano, surgiu a Dieta Romana, temperada pelo sal produzido nas salgadeiras, em Setúbal, usado no tempero e conservação do peixe das terras do Sado. Nos tempos atuais a sucessora desta Dieta Romana é a famosa Dieta Mediterrânea.
O POROS, tem dois pisos: no primeiro andar a parte social, organizativa, estratégica, e comunitária do Povo Romano e no rés-do-chão, a vida familiar, íntima e pessoal.
Durante duas horas acabei mesmo por ser um «romano» em Condeixa, na companhia de duas turmas de estudantes e outros visitantes tendo feito esta viagem pela Cultura e Civilização do Império Romano.
Á saída uma agradável surpresa! Algumas das Pessoas Assistidas, das Irmãs Hospitaleiras da Casa de Saúde, esperavam com as suas auxiliares, pela sua vez para também se tornarem «romanas» e mais enriquecidas cultural e socialmente. Despedi-me… hospitaleiramente!
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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