Crónicas do Gervásio – A Salto para França

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Já se falou muito sobre este tema. Mas todas as abordagens que se fazem são sempre diferentes por serem diferentes os intervenientes em cada momento e local desta região. No caso do Gervásio a partida para França era a primeira da sua terra. E a primeira é sempre mais dolorosa e difícil que as restantes.

O passador e os emigrantes

Corria o ano de 1961, e estávamos em Outubro. O verão tinha terminado. Os dias ainda eram grandes e estávamos na parte final de um dia ainda quente, quando o sol já tinha começado a descer no sentido do poente. O tempo estava abafado se bem que limpo.
As fracas colheitas resultantes de um ano de trabalho árduo, tinham sido praticamente concluídas e agora ainda era preciso dividir o resultado, em géneros, com o proprietário da terra que se tinha trabalhado.
Há muito tempo que o Gervásio tinha colocado na sua cabeça a necessidade de ir trabalhar para terras diferentes da sua pois na sua não conseguia ser retribuído de forma a dar à sua família uma melhor qualidade de vida. Foi falando com quem podia orientá-lo e estava prestes a iniciar uma parte da sua vida deveras complicada.
O Gervásio era um homem de baixa estatura mas bem constituído, fruto das sessões de ginásio que os trabalhos no campo lhe proporcionavam, em sessões contínuas, fosse a cavar terra, fosse a cortar e transportar lenha, fosse a arrancar as batatas, e tantas outras sessões que de forma gratuita estavam disponíveis naqueles tempos e locais e que geralmente todos os habitantes frequentavam.
Mas, como a generalidade reconhecia, o Gervásio tinha nascido para trabalhar e trabalho era coisa que lhe não metia medo e por isso o seu dia e por vezes, muitas, o principio da noite, eram o horário de trabalho que para si tinha instituído. Só que, nem assim conseguia que os seus vissem melhoras na sua vida e por isso, foi para França.
Naquele dia de Outubro, dirigiu-se à escola da aldeia e pediu à professora para me deixar sair o filho mais velho um bocado antes do fim das aulas. Nessa altura Pailobo tinha uma escola primária, pois o numero de alunos justificava a sua existência.
Saíram da porta da escola e dirigiram-se, um ao lado do outro, à sua casa onde a sua mulher estava em lágrimas, fingindo que estava a arrumar alguma coisa já arrumada.
A saída de casa foi rápida e sem grandes despedidas, o filho de mãos abanar e o Gervásio com uma trouxa às costas, casaco e o seu indispensável chapéu de feltro castanho.
Caminharam subindo a rua no sentido da torre sineira, e não encontraram ninguém naquela hora. Ainda bem digo eu agora se bem que o Gervásio não fosse pessoa para contar a sua vida a ninguém e muito menos dar conta do que tinha já tratado.
É que naquele tempo ir a salto para França era um crime punível pelo regime e por isso tudo era tratado clandestinamente. Aliás coisas tratadas de forma clandestina são uma garantia para quem as trata e nenhuma garantia dão aos eventuais tratados. Isto é se a coisa desse para o torto e algum dos companheiros fosse preso, naturalmente que apenas ele era sancionado.
O Gervásio, que não era pessoa de muitas falas ia tentando explicar ao filho na sua linguagem, as razões que o levavam a fazer aquilo, sem no entanto dizer claramente o quê.
É importante referir, para que se perceba esta prosa, que naquela aldeia o Gervásio era o primeiro que partia… para a França que, mesmo para o filho ficava muito longe. Um homem que não sabia uma palavra de francês e não tinha ninguém à espera dele lá.
Mal comparado, estas deslocações clandestinas para França podem comparar-se à epopeia dos descobrimentos. Também aqui os emigrantes tiveram que descobrir tudo num local onde ninguém os entendia e passar perigos na viagem que certamente alguns um dia contarão.
Foi explicando ao filho as razões durante o curto passeio que os dois fizemos até à parte de cima da aldeia, depois de terem passado a capela do Santo Antão, numa altura em que o cemitério ainda não existia, e enveredado pelo carreiro que atravessa as tapadas grandes do ti Manel.
Chegados a meio, pararam em cima de uma laje que estava no meio do carreiro, tendo ai sido feita despedida entre o Gervásio e o filho. Um seguiu em frente o outro voltou para trás, mas ambos estavam dilacerados por dentro. Imagino o que ia na cabeça do Gervásio e na do filho que, com 9 anos, ficou aterrorizado.
O Gervásio era a segurança dum lar muito pobre e agora? Despediram-se e as suas últimas palavras para o filho foram:
Filho,vou para França, tentar melhorar a nossa vida. Tu, que és o filho mais velho, tens de ajudar a tua mãe e os teus irmãos (um tinha 6 anos e o outro 3). Eu voltarei assim que puder. Voltou mas apenas quando já tinha pago tudo o que devia a quem lhe tinha emprestado. Abraçámo-nos, com as lágrimas nos olhos de ambos tendo em seguida um continuado e outro regressado.
Passados alguns anos, voltava sempre na altura do natal que passava invariavelmente com os filhos e a mulher na casa que ambos tinham construído na aldeia e que tinha dotado já de condições sanitárias e outras para garantir que os filhos e companheiras dos filhos continuariam a voltar aquela terra.
Isto aconteceu há 57 anos, em Outubro, e o filho Gervásio lembra-se perfeitamente da pedra da despedida como se fosse hoje. Claro que o Gervásio já se não lembra, pois o campo do silêncio da aldeia há muito que o reclamou e obteve para si a tempo inteiro. Mas, mesmo hoje, tenho dúvidas que o Gervásio esteja a descansar. Ele sempre trabalhou e não é certamente a morte que lhe vai tirar esse hábito!….
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

One Response to Crónicas do Gervásio – A Salto para França

  1. JSF diz:

    Histórias antigas, muito bem retratadas nesta crónica, que hoje se repetem com outros contornos. Abraço JSF

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